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Confissões de um jovem romancista - Umberto Eco


“Confissões de um jovem romancista”, de Umberto Eco, é uma armadilha. Não leia! São quatro ensaios que fisgam você, leitor desavisado, com o intuito de fazer com que você se apaixone pelo autor (ou se apaixone mais ainda) e fazer com que você deseje descontroladamente ler seus romances (ou reler)!

Reler seus romances... Durante a leitura encantada desse pequenino livro de apenas 152 páginas, dei-me conta que nunca lera os romances de Umberto Eco. Apenas lera seus textos técnicos de Semiótica e linguística. Nunca? Claro que li. Há muito tempo, li Baudolino e a A misteriosa chama da Rainha Loana. Mas... nunca li mais nada de seus romances. Nem o primeiro e mais famoso deles, O nome da rosa. Vi o filme. Mas nunca li o livro! Como pode ser? 

A lista dos romances de Umberto Eco (sequestrada na wikipedia) começa no O nome da rosa (Il nome della rosa, 1980), seguido de O Pêndulo de Foucault (Il pendolo di Foucault,1988); A ilha do dia anterior (L'isola del giorno prima, 1994); Baudolino (Baudolino, 2000); A misteriosa chama da rainha Loana (La misteriosa fiamma della regina Loana, 2004); O Cemitério de Praga (Il cimitero di Praga), 2011; e seu último romance, O número zero, 2015.

Da lista do parágrafo anterior, apenas li dois livros e o livro que apresento aqui, uma explicação deliciosa de como eles foram urdidos pelo autor, dá essa vontade doida de parar tudo o que a gente está fazendo e colocar em dia essa lista de romances. Que vergonha confessar aqui a minha queda nessa armadilha... Já baixei O nome da rosa no meu kindle... Meu Senhor, sinto que estou iniciando uma longa jornada de leitura nos romances do meu professor de semiótica predileto! Ai, preciso organizar meu tempo em listas, citar meus segundos, minutos, somar as chances, meus ensejos, ocasiões e oportunidades e tomar a decisão prazerosa de acordar uma hora mais cedo e dormir uma hora mais tarde! rsrsrs

Mas quais os livros de Umberto Eco que eu li? Como disse, exatamente aqueles que tratam da semiótica. A lista é bem maior dos escritos dele nas áreas da filosofia, linguística e arte (lista sequestrada da wikipedia):

Obra aberta (1962)
Diário mínimo (1963)
Apocalípticos e integrados (1964)
A definição da arte (1968)
A estrutura ausente (1968)
As formas do conteúdo (1971)
Mentiras que parecem verdades (1972) (coautoria de Marisa Bonazzi)
O super-homem de massa (1978)
Lector in fábula (1979)
A semiotic Landscape. Panorama sémiotique. Proceedings of the Ist Congress of the International Association for Semiotic Studies (1979) (coautoria de Seymour Chatman e Jean-Marie Klinkenberg).
Viagem na irrealidade cotidiana (1983)
O conceito de texto (1984)
Semiótica e filosofia da linguagem (1984)
Sobre o espelho e outros ensaios (1985)
Arte e beleza na estética medieval (1987)
Os limites da interpretação (1990)
O signo de três (1991) (coautoria de Thomas A. Sebeok)
Segundo diário mínimo (1992)
Interpretação e superinterpretação (1992)
Seis passeios pelos bosques da ficção (1994)
Como se faz uma tese (1995)
Kant e o ornitorrinco (1997)
Cinco escritos morais (1997)
Entre a mentira e a ironia (1998)
Em que creem os que não creem? (1999) (coautoria de Carlo Maria Martini)
A busca da língua perfeita (2001)
Sobre a literatura (2002)
Quase a mesma coisa (2003)
História da beleza (2004) (organização)
La production des signes (2005 em francês)
Le signe (2005; em francês)
Storia della Brutezza (2007). Em Portugal, traduzido como História do feio, e, no Brasil, como História da Feiura.
Dall'albero al labirinto. No Brasil, como Da Árvore ao Labirinto (2007)
A vertigem das listas (2009)
Não contem com o fim do livro (2010) (co-autoria de Jean-Claude Carrière)
História das Terras e Lugares Lendários (2013)

Se eu não me engano, da lista acima, li apenas os livros que estão em destaque. Parece que citei pelo menos 4 listas só neste meu texto: 1) a lista dos romances escritos por Umberto Eco; 2) a lista dos romances que li; 3) a lista dos ensaios escritos; e, finalmente, a lista dos ensaios que li. Obviamente, que surgem outras duas listas negativas aqui, pois para cada lista criada do que li, subentende-se uma outra feita dos que não li. Poderia fazer mais listas: 1) os romances que quero ler de Umberto Eco; 2) os romances que não faço questão de ler (mentira, esta lista não existe); 3) os ensaios que anseio desfrutar; 4) os ensaios que jamais lerei (mentira, esta lista também não existe, a não ser que eu morra antes de cumprir a tarefa). Que outras listas posso fazer? Dos ensaios que li, quais que mais gostei? Isto seria uma outra lista também. 

Enfim, por que estou fazendo isso? Por que estou criando essas infinitas listas? O último ensaio do livro “Confissões de um jovem romancista” é precisamente sobre o prazer do autor em ler e fazer listas. E devo confessar: é uma delícia viciante! Boa leitura!

Quase a mesma coisa - Umberto Eco

Sou motivado por uma paixão, que é responder a mais fascinante de todas as perguntas: o que faz com que qualquer língua seja uma linguagem, qualquer que seja a língua? Mas Hjelmslev não para por aí a sua pergunta: e o que é que faz com que determinada língua permaneça idêntica a si própria através das suas mais diversas manifestações?

Evidentemente, para compreendermos o papel da semiótica numa cultura humana e na relação com a semântica, é preciso revisitar o que foi construído na história do estudo dessa ciência dos símbolos. É preciso que dominemos três conceitos que são importantíssimos na história da filosofia, que são os conceitos de forma, substância e matéria. Destes três, dois já foram abordados nos artigos platônicos anteriores, mas, cedo ou tarde, precisaremos revisitar também Aristóteles para fecharmos essa tríade de conceitos.

Enquanto ainda não nos aproximamos de Aristóteles, apresento um dos livros que mais marcaram a minha trajetória e o meu pensamento. O livro é “Quase a mesma coisa”, de Umberto Eco, que é um livro fascinante que trata de tradução.

Há uns sete, oito anos que comecei a escrever sobre a experiência da tradução. Coincide com a data em que li pela primeira vez esse livro de Umberto Eco. Escrevi, principalmente, sobre a experiência da tradução bíblica do hebraico e do grego para a nossa língua portuguesa. Em artigos sempre informais (não acadêmicos), avaliei a versão da NTLH, critiquei a ênfase equivocada num imperativo inexistente sobre o “ide” de Jesus, entre outras tantas incursões nessa seara. Mas já escrevi também sobre os textos ideológicos de nossas bíblias brasileiras, ideologicamente eclesiásticos (a Bíblia de Jerusalém, por exemplo) e políticos (a Bíblia Pastoral Católica, por exemplo). Além disso, alguns desses artigos escritos só foram compartilhados com um seleto grupo de mantenedores que tem me acompanhado nestes últimos 10 anos, pois são artigos tratando das minhas experiências específicas sobre tradução do Texto bíblico para uma língua indígena e também avaliações que tenho feito sobre a tradução que outros tem feito da Bíblia para outras línguas indígenas.

Aqui mesmo, nos artigos anteriores das resenhas que tenho feito aqui para a Bibliotheca, volta e meia, vejo-me trazendo alguns casos que tenho colhido de experiências de tradução missionária.  E, por todo este tempo, pude encontrar tanto experiências sérias e reverentes, como também, infelizmente, casos escabrosos, como, por exemplo, aquela primeira versão da Bíblia da Linguagem de Hoje feita sob a tutela da Sociedade Bíblica do Brasil. Não que a situação tenha melhorado com a versão nova, mas, ao menos, não permaneceu tão escandalosa. Ainda assim, há grupos que trabalham com tradução bíblica no mundo que estão fazendo um imenso desserviço à causa do Evangelho. Grupos que, no afã de uma agenda humana que estabeleceu que todos os grupos étnicos deveriam ter a presença de um tradutor bíblico até 2025, estão dispostos a sacrificar a seriedade e responsabilidade necessárias para a qualidade final do texto bíblico.

Eu também sei que, por trás desse afã, na verdade, há também uma teologia equivocada, mas isso já seria assunto para outro artigo.

O fato é que mais do que dicionários, os tradutores precisam de enciclopédias (é o que, há muitos anos, eu aprendi com Umberto Eco)! Não podemos parar de estudar e a base deveria ser um profundo estudo das possibilidades da sua própria língua! Todavia, sabemos que só a língua não basta, pois há a cultura. Só como exemplo do que estou dizendo aqui, neste domingo, pude acompanhar uma tradução feita do português para o inglês, entretanto, nenhuma das duas pessoas envolvidas tinha essas línguas como suas línguas maternas: era uma indígena falando em português e sendo traduzida por uma brasileira que, mesmo sendo professora de inglês, ressaltou que aquela era uma 2ª língua para ela. A professora tomava esse cuidado, pois estava traduzindo a fala da indígena para um grupo de americanos. Mas, como disse, só a língua não basta, pois o caso que a indígena estava contando (em um português muito escasso) uma questão cultural desconhecida da tradutora. A dificuldade, portanto, foi enorme e o ponto central da mensagem não foi traduzido, porque não foi dito pela indígena, embora estivesse inferido. Mas inferências no discurso só são percebidas por quem possui um conhecimento da cultura do falante.
  
Deus não ama as "línguas", Ele ama pessoas. Deus não ama as "culturas", Ele ama pessoas. Embora o que eu acabe de afirmar pareça ser algo óbvio, a verdade é que no meio missionário cristão há certa idolatria da língua e da cultura, que tende a tornar necessário o que é dispensável na hora de traduzir a Bíblia. Graças a Deus pela sociolinguística que, como ciência, é capaz de avaliar se determinado grupo étnico realmente precisa ou não de uma tradução bíblica ou se seria melhor oferecer a esse grupo uma tradução numa língua próxima ou majoritária, para, posteriormente, o próprio grupo decidir se quer ou não uma tradução na sua própria língua.

Como sempre, além de um artigo, faço um resumo do livro em questão. Entretanto, pela imensa riqueza do “Quase a mesma coisa”, é muito provável que outros artigos surjam a partir desse livro novamente. Provável que, mais adiante, eu retorne e apresente resumos mais detalhados de determinados capítulos que interessam mais ao tema da nossa Bibliotheca. Ainda assim, posso afirmar que, mesmo que a área de tradução não lhe desperte o menor interesse, é impossível não se apaixonar pela riqueza intelectual e cultural desse livro.

Para acessar a resenha completa da obra, clique aqui. O blog "Bibliotheca de Semiótica" pretende ser um banco de resenhas para interessados e missionários que trabalham com outras culturas. Assim, é característica da "Bibliotheca" que, durante os resumos dos livros, eu faça comentários sobre as ideias do autor, concordando ou refutando, para que o leitor possa encontrar uma crítica e auxílio para a formação do seu próprio pensamento. Boa leitura! 
Após a leitura, classificarei os livros assim:
Péssimo [0] Ruim [*] Regular [**] Bom [***] Muito Bom [****] Excelente [*****]