Quase a mesma coisa - Umberto Eco

Sou motivado por uma paixão, que é responder a mais fascinante de todas as perguntas: o que faz com que qualquer língua seja uma linguagem, qualquer que seja a língua? Mas Hjelmslev não para por aí a sua pergunta: e o que é que faz com que determinada língua permaneça idêntica a si própria através das suas mais diversas manifestações?

Evidentemente, para compreendermos o papel da semiótica numa cultura humana e na relação com a semântica, é preciso revisitar o que foi construído na história do estudo dessa ciência dos símbolos. É preciso que dominemos três conceitos que são importantíssimos na história da filosofia, que são os conceitos de forma, substância e matéria. Destes três, dois já foram abordados nos artigos platônicos anteriores, mas, cedo ou tarde, precisaremos revisitar também Aristóteles para fecharmos essa tríade de conceitos.

Enquanto ainda não nos aproximamos de Aristóteles, apresento um dos livros que mais marcaram a minha trajetória e o meu pensamento. O livro é “Quase a mesma coisa”, de Umberto Eco, que é um livro fascinante que trata de tradução.

Há uns sete, oito anos que comecei a escrever sobre a experiência da tradução. Coincide com a data em que li pela primeira vez esse livro de Umberto Eco. Escrevi, principalmente, sobre a experiência da tradução bíblica do hebraico e do grego para a nossa língua portuguesa. Em artigos sempre informais (não acadêmicos), avaliei a versão da NTLH, critiquei a ênfase equivocada num imperativo inexistente sobre o “ide” de Jesus, entre outras tantas incursões nessa seara. Mas já escrevi também sobre os textos ideológicos de nossas bíblias brasileiras, ideologicamente eclesiásticos (a Bíblia de Jerusalém, por exemplo) e políticos (a Bíblia Pastoral Católica, por exemplo). Além disso, alguns desses artigos escritos só foram compartilhados com um seleto grupo de mantenedores que tem me acompanhado nestes últimos 10 anos, pois são artigos tratando das minhas experiências específicas sobre tradução do Texto bíblico para uma língua indígena e também avaliações que tenho feito sobre a tradução que outros tem feito da Bíblia para outras línguas indígenas.

Aqui mesmo, nos artigos anteriores das resenhas que tenho feito aqui para a Bibliotheca, volta e meia, vejo-me trazendo alguns casos que tenho colhido de experiências de tradução missionária.  E, por todo este tempo, pude encontrar tanto experiências sérias e reverentes, como também, infelizmente, casos escabrosos, como, por exemplo, aquela primeira versão da Bíblia da Linguagem de Hoje feita sob a tutela da Sociedade Bíblica do Brasil. Não que a situação tenha melhorado com a versão nova, mas, ao menos, não permaneceu tão escandalosa. Ainda assim, há grupos que trabalham com tradução bíblica no mundo que estão fazendo um imenso desserviço à causa do Evangelho. Grupos que, no afã de uma agenda humana que estabeleceu que todos os grupos étnicos deveriam ter a presença de um tradutor bíblico até 2025, estão dispostos a sacrificar a seriedade e responsabilidade necessárias para a qualidade final do texto bíblico.

Eu também sei que, por trás desse afã, na verdade, há também uma teologia equivocada, mas isso já seria assunto para outro artigo.

O fato é que mais do que dicionários, os tradutores precisam de enciclopédias (é o que, há muitos anos, eu aprendi com Umberto Eco)! Não podemos parar de estudar e a base deveria ser um profundo estudo das possibilidades da sua própria língua! Todavia, sabemos que só a língua não basta, pois há a cultura. Só como exemplo do que estou dizendo aqui, neste domingo, pude acompanhar uma tradução feita do português para o inglês, entretanto, nenhuma das duas pessoas envolvidas tinha essas línguas como suas línguas maternas: era uma indígena falando em português e sendo traduzida por uma brasileira que, mesmo sendo professora de inglês, ressaltou que aquela era uma 2ª língua para ela. A professora tomava esse cuidado, pois estava traduzindo a fala da indígena para um grupo de americanos. Mas, como disse, só a língua não basta, pois o caso que a indígena estava contando (em um português muito escasso) uma questão cultural desconhecida da tradutora. A dificuldade, portanto, foi enorme e o ponto central da mensagem não foi traduzido, porque não foi dito pela indígena, embora estivesse inferido. Mas inferências no discurso só são percebidas por quem possui um conhecimento da cultura do falante.
  
Deus não ama as "línguas", Ele ama pessoas. Deus não ama as "culturas", Ele ama pessoas. Embora o que eu acabe de afirmar pareça ser algo óbvio, a verdade é que no meio missionário cristão há certa idolatria da língua e da cultura, que tende a tornar necessário o que é dispensável na hora de traduzir a Bíblia. Graças a Deus pela sociolinguística que, como ciência, é capaz de avaliar se determinado grupo étnico realmente precisa ou não de uma tradução bíblica ou se seria melhor oferecer a esse grupo uma tradução numa língua próxima ou majoritária, para, posteriormente, o próprio grupo decidir se quer ou não uma tradução na sua própria língua.

Como sempre, além de um artigo, faço um resumo do livro em questão. Entretanto, pela imensa riqueza do “Quase a mesma coisa”, é muito provável que outros artigos surjam a partir desse livro novamente. Provável que, mais adiante, eu retorne e apresente resumos mais detalhados de determinados capítulos que interessam mais ao tema da nossa Bibliotheca. Ainda assim, posso afirmar que, mesmo que a área de tradução não lhe desperte o menor interesse, é impossível não se apaixonar pela riqueza intelectual e cultural desse livro.

Para acessar a resenha completa da obra, clique aqui. O blog "Bibliotheca de Semiótica" pretende ser um banco de resenhas para interessados e missionários que trabalham com outras culturas. Assim, é característica da "Bibliotheca" que, durante os resumos dos livros, eu faça comentários sobre as ideias do autor, concordando ou refutando, para que o leitor possa encontrar uma crítica e auxílio para a formação do seu próprio pensamento. Boa leitura! 

A Nova História de Mouchette [***]








Georges Bernanos
É Realizações
112 Páginas

 
"Mouchette é uma menina tímida de quatorze anos que foge da escola e de uma família destruída pelo álcool, pela miséria e pela doença, assim como de uma aldeia de costumes ameaçadores. Em busca de liberdade, encontra um destino cruel que vai devorá-la entre o estupro e a mentira. Este romance de Bernanos foi adaptado para o cinema por Robert Bresson em 1967".

 

Timeu - Platão

Mas, afinal, o que é a imagem? A imagem é a solução platônica que garante a inteligibilidade do mundo. Se retornarmos em nossas leituras e atravessarmos de Crátilo, passando por Parmênides e O Sofista e, finalmente, aportando em O Timeu, poderemos acompanhar a solução proposta por Platão advinda a partir da própria autocrítica de sua Teoria das Ideias.

         Ao lermos estas obras, podemos ver não apenas as aporias das teorias de sua época, mas, principalmente, as aporias levantadas na própria Teoria das Ideias de Platão. A mais importante das aporias está em como os dois mundos – o das Ideias (ou formas) e o sensível – são capazes de se relacionar. Sem uma resposta convincente, como haveria conhecimento do mundo? Como seria possível a inteligibilidade do mundo?

         Vimos em Crátilo que as duas concepções daquela época – o convencionalismo e o naturalismo – em última instância, na verdade, tornam o mundo impossível de ser apreendido pela razão. Ao ponto de, se insistirmos nestas duas teorias, o melhor mesmo é nos debruçarmos sobre o mundo para conhecê-lo em si mesmo e não por meio das palavras. O problema, então, é que a linguagem está revelando as aporias das teorias daquele tempo.

         Em Parmênides, vemos que o que está gerando as aporias não só do convencionalismo e do naturalismo, mas da própria Teoria das Ideias é o dogma de Parmênides de que “o melhor é não seguir pelo caminho do não-Ser”. Para Parmênides, o não-Ser não é, logo, tudo que não é não pode existir, não pode sequer ser julgado como falso ou impossível. O problema é que a própria linguagem ou uso que fazemos dela mostra que o não-ser está a toda hora presente. Então, Platão vê que o dogma de Parmênides precisa ser quebrado para que possamos avançar na teoria da Linguagem e garantir a possibilidade da própria Teoria das Ideias.

         Uma vez destruído o antigo paradigma, em O Sofista, Platão irá aplicar o que foi discutido em Parmênides, aplicando aqueles resultados sobre a própria teoria das Ideias: o não-ser e o ser se imbricam, logo o ser é e o não-ser é. Mas como se dá isso? Para explicar essa relação, Platão irá usar a própria linguagem como modelo para o problema que a linguagem mesmo está colocando sobre a mesa: há nomes que aceitam certas combinações de letras e há outras combinações que não são aceitas, assim se dá também com o ser e o não ser, com o estático e o movimento, com o outro e o mesmo, com uno e o múltiplo. Assim o filósofo está garantido não apenas que o não-ser é, mas também uma nova definição do não-ser. Agora não mais como contrário ao ser, mas como outra coisa, como coisa diferente. Ora, se é assim, então há a possibilidade do erro, da mentira e da falsidade no discurso, porque o discurso pode não corresponder a uma imagem, mas a outra. Então, com isso, Platão também garante a existência das imagens.

         Mas o que é, afinal, uma imagem? É a cópia (mundo sensível) do original (Ideia). E quem é que fará a ligação entre o mundo das cópias e o mundo das Ideias: a linguagem. A linguagem, o discurso (nome mais verbo), é quem se estabelece como um elo, porque a linguagem está nos pensamentos, na razão, no intelecto, que é o lugar que dá acesso ao mundo das Ideias e, portanto, a linguagem é uma cópia do mundo das Ideias, isto é, a linguagem é uma medida, uma proporção (não é uma cópia em todo sentido e extensão e nem mais uma “participação” como fora dito por Platão em diálogos anteriores, mas é uma cópia da essência da Ideia) e, por isso mesmo, pode estabelecer uma comparação do mundo sensível com a Ideia, juntando os dois, garantindo assim a inteligibilidade, o conhecimento humano. Assim, a linguagem, na minha interpretação, é um símbolo, um símbolo do mundo das Ideias.

         E aqui, depois de tudo o que foi dito e, finalmente, chegando à conclusão da linguagem como símbolo, é preciso parar para revisitarmos o assombro inevitável diante de obras escritas às margens da plenitude dos Tempos. Reconhecer que todo o instrumental que será usado para se pensar e discutir a Santíssima Trindade e também a própria Pessoa de Jesus fora dado aqui entre os gregos, fonte para os primeiros Pais da Igreja, para Santo Agostinho, para Tomás de Aquino e tantos outros teólogos cristãos.

         “Jesus é o logos”! Nunca houve e nem haverá afirmação mais contundente e assombrosa do que esta: "Jesus é o logos de Deus"!  Se o discurso, se a proposição, conforme aprendemos em Platão, é uma analogia da essência da Ideia, este símbolo – Jesus é o logos – é um símbolo eterno! E nesta altura de nossas discussões, assumirmos a tese joanina de que Jesus é a linguagem, é o discurso, é a cópia, é a imagem visível do Deus invisível e mais: Jesus é o logos, palavra derivada de lego, que significa “re-unir”, “juntar”, “ligar”, “re-unir” na possível proporção duas coisas diferentes, distintas entre si, enfim, é como se Deus estivesse preparando o mundo para, por meio do mistério da encarnação, começar a reunir o cosmos novamente a Ele. Por que não ser mais ousado e afirmar abertamente: Deus, chegada a hora certa, enviou seu Filho amado (Gl 4: 4) e, quando todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então também o mesmo Filho se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos (1 Coríntios 15:28).

             Para acessar a resenha completa da obra, clique aqui. O blog "Bibliotheca de Semiótica" pretende ser um banco de resenhas para interessados e missionários que trabalham com outras culturas. Assim, é característica da "Bibliotheca" que, durante os resumos dos livros, eu faça comentários sobre as ideias do autor, concordando ou refutando, para que o leitor possa encontrar uma crítica e auxílio para a formação do seu próprio pensamento. Boa leitura!  

O Sofista - Platão

“A linguagem contra Parmênides” – este será o centro da discussão que só será resolvido na quebra de um paradigma para a aceitação de outro, isto é, O Sofista é o livro do parricídio de Platão contra seu pai intelectual, que é Parmênides, substituindo-o pela linguagem como o novo paradigma.

         Assim, particularmente para a nossa Bibliotheca, é sensacional que a linguagem se apresente como aquela que insiste com o óbvio colocando-se contra as conclusões da lógica filosófica e, ao mesmo tempo, é aquela que irá fornecer a solução para as aporias que ela mesma instiga nos filósofos. Sensacional é ver o Estrangeiro e Teeteto recorrerem à gramática, mais especificadamente, às letras, que são símbolos, e ao discurso (nome mais verbo), para solucionar as grandes contradições nas quais se encontram mergulhados.        

Se lermos O Sofista logo após Parmênides, duas características devem nos saltar aos olhos imediatamente: primeiro, os dois livros seguem uma mesma lógica argumentativa e, segundo, acredito que posso dizer que o problema comum que justifica os dois livros é o mesmo: a linguagem.

         A lógica argumentativa é que, em Parmênides, o “Uno” e o “Múltiplo” se entrelaçam, misturam-se, imbricam-se, esta é a tese. Em O Sofista, é a vez de aplicar isso ao “Ser” e ao “Não-Ser” e mostrar que, semelhantemente, os dois se unem, os dois são possíveis, os dois não são contraditórios. E o que justifica a ambos os livros, o que motiva ambos os diálogos é a constatação – e este é o interesse para nossa Bibliotheca – que, na verdade, embora a lógica usada pelos debatedores possa muitas vezes ir numa direção, a linguagem é a grande responsável por fazê-los ter que enfrentar os fatos de que suas conclusões são insustentáveis.

         Tanto no Parmênides como no O Sofista, a linguagem permite fazer o que a lógica de suas argumentações diz ser impossível. De modo mais específico, em O Sofista, é impossível falar sobre o Não-Ser, pois falar sobre ele seria trazê-lo à existência e isso é uma contradição. Assim, é a própria linguagem que força a buscar uma conclusão diferente, uma via diversa, como podemos lembrar, por exemplo, de Górgias (ver Crátilo), para quem falar do “Não-Ser” era não falar, apenas emitir sons e ruídos. Ora, nada mais “fictício” do que isso, pois é a linguagem que nos permite nomear coisas inexistentes ou dizer falsidades e tudo isso é significativo.

         Duas perspectivas podem ser levadas em conta sobre as discussões em O Sofista. Primeira, tudo o que se discute não leva em conta a existência de um Legislador Moral, isto é, não há a figura de um Deus Moral, que ainda será trazido pelo Cristianismo, como referência, justificativa e fundamento para todas as coisas (ainda que, neste livro, haja o argumento do Criador que é a razão por trás de todas as coisas). Segunda, é que, como teólogos cristãos, é assombroso - e esta é a única palavra que me ocorre - é assombroso que, 4 ou 5 séculos antes de Cristo, as discussões filosóficas tenham chegado ao ponto que chegaram. Muito mais do que simplesmente desatar o nó do Ser e do Não-Ser, enfrentar o tema melindroso do Movimento e do Estático, discernir entre o Uno e o Múltiplo na natureza do Ser que é (e que não é - problema fundamental da predicação), para muito além disso, só posso aceitar que o próprio Deus já estava preparando a humanidade para a compreensão dEle mesmo, quando, em Jesus, a Plenitude da Divindade Trina e Una fosse totalmente revelada. É assombroso reconhecer que a Plenitude dos tempos (Gálatas 4:4) não foi apenas uma convergência histórica, econômica, política, mas, principalmente, a Plenitude dos tempos para a chegada de Jesus foi uma convergência filosófica e intelectual, que daria condições ao Cristianismo de revelar aos homens toda a sua assombrosa envergadura espiritual em discurso dialético sobre o Ser de Deus.

         Com a próxima resenha, O Timeu, pretendo encerrar essa digressão necessária no corpus platônico quanto ao recorte que nos interessa. Acredito que estes 4 diálogos (Crátilo, Parmênides, O Sofista e O Timeu) dão uma base sobre o tema da linguagem, que é o fundamento de nossa teoria dos símbolos, e permitirá que nos debrucemos em outros livros até que, novamente, sejamos trazidos de volta aos gregos.

           Para acessar a resenha completa da obra, clique aquiO blog "Bibliotheca de Semiótica" pretende ser um banco de resenhas para interessados e missionários que trabalham com outras culturas. Assim, é característica da "Bibliotheca" que, durante os resumos dos livros, eu faça comentários sobre as ideias do autor, concordando ou refutando, para que o leitor possa encontrar uma crítica e auxílio para a formação do seu próprio pensamento. Boa leitura!  

Parmênides - Platão

A teoria das Ideias será apresentada no contexto do Paradoxo de Zenão. Mas qual o paradoxo de Zenão? Zenão irá defender a tese de Parmênides de que “tudo é um”, pois se as coisas fossem múltiplas, elas teriam que ser semelhantes e diferentes, o que é um absurdo. As coisas não podem ser uma e ser muitas ao mesmo tempo – esta é a tese que seria para Sócrates a grande surpresa se alguém pudesse provar. Portanto, este será o grande esforço empreendido por Parmênides: surpreender Sócrates! (Veja aqui uma breve introdução às teorias dos pré-socráticos).

         Sócrates entrará com a Teoria das Ideias para explicar a existência da multiplicidade das coisas. As Ideias existem por si, portanto são “um”, mas estão separadas das coisas sensíveis, que são múltiplas. A ideia defendida por Sócrates é que as coisas são semelhantes e dessemelhantes, porque cada coisa em si pode ser semelhante com uma ideia da Semelhança e, ao mesmo tempo, ser dessemelhante por participar da ideia de Dessemelhança. Veja que Sócrates não está dizendo que algo pode ser Uno e Múltiplo ao mesmo tempo, pois isso seria o que o surpreenderia. O que Sócrates está afirmando, por meio da Teoria das ideias, é que uma coisa pode ser, por exemplo, semelhante por ser semelhante à Ideia de Semelhante, mas pode ser dessemelhante por participar da Ideia de Dessemelhante. Como exemplo Sócrates pensa no corpo humano que tem o “direito” e o “esquerdo”, o “em cima” e “abaixo”, o “atrás” e a “frente”, isto é, compartilha a multiplicidade; todavia, ninguém negará que é UM corpo humano, uma unidade.     

Retornamos às discussões de Crátilo, pois Zenão não considerava que um “dedo grande” poderia ser também um “dedo pequeno”. Heráclito considerava o Ser em fluxo e, como vimos na última resenha, baseado nesta ideia, Protágoras, que defendia que o homem é a medida de todas as coisas, compreendia que uma pessoa poderia dizer que uma coisa era quente e outra pessoa poderia dizer sobre essa mesma coisa que ela era fria e ambos estariam dizendo a verdade. Esta é ideia que Zenão não aceita, pois essa multiplicidade de uma mesma coisa que é e não é gera um paradoxo, uma contradição. Pois Zenão compreende que o nome de uma coisa se identifica com essa coisa. Por exemplo, “dedo grande”, a coisa e sua propriedade (grande) andam juntas, não é possível que “dedo grande” possa se referir a um dedo pequeno. É contraditório. Cada nome refere-se a um objeto. Mudou a característica do objeto, mudou o seu nome, é um outro objeto, portanto não há multiplicidade para Zenão. E Sócrates, portanto, irá apresentar a Teoria das Ideias para explicar essa nomeação aparentemente contraditória de um mesmo objeto.

         O problema em Crátilo é a predicação do objeto. Não se pode predicar um mesmo objeto diferentemente. Não se pode aceitar que, como Protágoras e Hermógenes defendiam no convencionalismo, um objeto possa ser predicado “quente” por uma pessoa e predicado “frio” por outra, porque, demonstra Sócrates em Crátilo, fosse assim não haveria conhecimento possível da verdade. Mesmo no naturalismo de Górgias e de Crátilo, ainda que um nome ora espelhasse uma coisa de uma maneira e ora espelhasse o fluxo dessa mesma coisa em seu movimento, também não seria possível conhecer as coisas. Tanto o convencionalismo como o naturalismo foram, portanto, refutados por Sócrates em Crátilo.

         Agora, em Parmênides, continuamos buscando uma explicação para o problema da linguagem, o problema do conhecimento, a aquisição possível da verdade. No fim de Crátilo, a conclusão socrática é que, então, devemos buscar conhecer as coisas por elas mesmas e não pelos nomes. Entretanto, como seria aceitável predicações contraditórias diante uma mesma coisa? Esta será a discussão em Parmênides.

         Para Sócrates, o paradoxo de Zenão é aparente, pois eu posso me referir a mim como “um” ser humano e, ao mesmo tempo, referir-me ao meu lado direito e ao meu lado esquerdo, ao embaixo e ao em cima, atrás e à frente, etc. Assim, para Sócrates, não há estranhamento em predicações diferentes de uma mesma coisa. É como se estivéssemos observando propriedades diferentes (lado direito e esquerdo) de uma mesma coisa. Entretanto, isto que acabei de escrever é diferente de afirmar que o “Um” é Múltiplo e que o “Múltiplo” é Um. E em Parmênides, Sócrates afirmará que é isso o que causaria espanto: separar as propriedades das coisas e afirmar que elas se misturam. Para Sócrates não há essa mistura, pois a coisa se refere às Ideias, ora a uma Ideia de Semelhança, ora a uma Ideia de Dessemelhança.

         Parmênides fará exatamente uma refutação ao modo de entendimento e apresentação da Teoria das Ideias e demonstrará para Sócrates que o Uno e o Múltiplo na verdade, se misturam, se entrelaçam – surpresa (esta palavra no grego é thaumastós, que é a palavra que dá origem ao espírito da filosofia)!

               Para acessar a resenha completa da obra, clique aquiO blog "Bibliotheca de Semiótica" pretende ser um banco de resenhas para interessados e missionários que trabalham com outras culturas. Assim, é característica da "Bibliotheca" que, durante os resumos dos livros, eu faça comentários sobre as ideias do autor, concordando ou refutando, para que o leitor possa encontrar uma crítica e auxílio para a formação do seu próprio pensamento. Boa leitura!

Crátilo - Platão

Há quem pense que Platão não se interessa pela questão da linguagem e que Crátilo seria uma obra menor no corpus do filósofo. Contudo, Platão está se dirigindo há duas concepções sobre a linguagem nesta obra: o convencionalismo e o naturalismo. E que, na verdade, será a partir do problema da linguagem que Platão apresentará a sua teoria das Ideias (ou Formas).

         O convencionalismo pregava que não há relação alguma entre o Ser e as palavras. Estas, quando dadas às coisas, são meramente etiquetas de identificação sem qualquer vínculo com a essência das coisas. Por outro lado, o naturalismo defendia que, ao nomearmos as coisas, já estávamos dizendo o Ser delas. Assim, as palavras e o Ser das coisas estavam vinculados.

         Há um contexto para que possamos compreender melhor os diálogos em Crátilo, a saber, Platão está discutindo com os filósofos pré-socráticos, de um lado Protágoras e de outro Górgias, ambos embasados em Heráclito. Este filósofo defendia duas ideias em relação ao Ser: a doutrina do fluxo de todas as coisas e a doutrina da emanação. O convencionalismo de Protágoras se baseava na doutrina do fluxo de todas as coisas, por isso seria impossível às palavras revelarem algo de uma essência das coisas. O naturalismo de Górgias se baseava na doutrina da emanação, isto é, as coisas emanam algo de sua essência que é captado pelos sentidos não estando as palavras assim totalmente desvinculadas do Ser. Todavia, o naturalismo de Górgias não era uma identificação com o Ser das coisas, mas uma captação. Por que isso é importante? Porque Górgias, embora saiba que algo do Ser é captado pelos sentidos (isto é, a nomeação das coisas não é um processo arbitrário), também concorda que o Ser está em fluxo. Daí Górgias ser o pai da Retórica. Esta é a disciplina que buscará seduzir o ouvinte não pela defesa da verdade, pois esta é inacessível uma vez que o Ser está em fluxo contínuo, mas por meio do discurso mais competente, mais provável, mais bem apresentado. Górgias dará continuidade, portanto, a essa visão mágica da linguagem que é capaz de curar o corpo e a alma dos ouvintes, segundo defendiam os pitagóricos.

         Não era minha intenção já resenhar Platão ou quaisquer gregos, embora eles sejam o pontapé para toda uma teoria dos símbolos. Entretanto, após ler Wittgenstein, e apesar da sua tese de suprimir toda filosofia clássica, tanto ele como Cassirer estão montados sobre os ombros dos gregos (aceitem eles isso ou não). Mas quem não está? Wittgenstein repete a mesma ideia de Parmênides, que veio 2500 anos antes dele, na frase mais famosa e com a qual ele encerra sua obra o Tratactus...: "Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar." Compare com a frase de Parmênides no poema Da natureza: “É necessário que o dizer e pensar que é sejam; pois podem ser, enquanto nada não é: nisto te indico que reflitas”. Assim, diante de Cassirer e Wittgenstein, percebi que ambos podem ser unidos de certa maneira às tradições gregas (até porque não há nada de novo debaixo do sol). Aliás, não podemos esquecer as próprias palavras de Wittgenstein de que sua filosofia é um exercício contra o feitiço da linguagem. Cassirer à concepção pitagórica da linguagem e Wittgenstein tanto a Górgias, mas, principalmente, a Parmênides, que será apresentado como saída ao problema da linguagem em outra obra de Platão, após a conclusão de Crátilo.

Crátilo se torna especialmente importante para a Bibliotheca de Semiótica não apenas pela ligação com Cassirer e Witttgenstein, mas porque Sócrates vai tratar o nome como uma imagem (lembrando que, para os gregos, “nome” é substantivo, verbo, etc). Do mesmo modo que uma pintura é uma cópia de alguma realidade, também o nome é cópia, imagem de uma coisa em si. Todavia, veremos que é exatamente essa concepção do nome como imagem que vai falir toda a discussão travada na obra e que Platão deverá tentar resolver em Parmênides e no Sofista. Nas resenhas destas obras, desenvolverei as críticas pertinentes ao corpo filosófico platônico.

         Durante a leitura de Crátilo, peguei-me, por várias vezes, lembrando-me de uma questão ligada à discussão entre Sócrates e seus dois amigos. No povo indígena com o qual eu trabalhei, havia um traço cultural que me chamava muita atenção. Os nomes dados aos filhos eram os mesmos nomes dos avós paternos e maternos. E parecia que não iriam faltar nomes, pois cada indígena no correr da sua vida recebe, ao menos, 3 nomes, sendo que são 3 nomes que a mãe dá e 3 nomes que o pai também dá. O pai não chama seu filho pelo nome da mãe e nem a mãe o chamará seu filho pelo nome dado pelo pai. Já deu para perceber que cada indígena tem, portanto, 6 nomes. Contudo, como eles acabam tendo muitos filhos, ainda assim, chega uma hora que os nomes acabam e eles começam a adotar “nomes dos brancos”.

         Certa vez, perguntei ao cacique onde estava o meu aluno chamado Kamaluhe. E ele disse, para meu espanto, que não sabia quem era esse tal de Kamaluhe. Ora, o tal Kamaluhe era filho dele! O problema é que com a chegada da carteira de identidade e da escola há certa confusão nessa questão dos nomes. No caso do Kamaluhe, este era o nome dado pela mãe e, por isso, o pai não o identificou. Tudo isso pode parecer tolice ao leitor desavisado, mas vai ao encontro de pelo menos duas das teorias sobre a linguagem encontrada em Crátilo. Ora, se o Ser está em fluxo e, portanto, se mudamos com o tempo (nascimento, adolescência e vida adulta), um nome só não captaria a nossa essência naquele momento (Heráclito). E mais: para a mãe e para o pai há uma compreensão diversa do ser do filho (Protágoras).

Para resenha completa desta obra, clique aquiO blog "Bibliotheca de Semiótica" pretende ser um banco de resenhas para interessados e missionários que trabalham com outras culturas. Assim, é característica da "Bibliotheca" que, durante os resumos dos livros, eu faça comentários sobre as ideias do autor, concordando ou refutando, para que o leitor possa encontrar uma crítica e auxílio para a formação do seu próprio pensamento. Boa leitura!

Jó - Romance de um homem simples [*****]






Joseph Roth
Cia das Letras
200 Páginas

"Numa cidadezinha russa do início do século XX vivia um judeu muito simples e religioso. Seu nome era Mendel Singer. Homem comum, modesto e temente a Deus, Mendel exercia o ofício de professor, transmitindo os ensinamentos da Bíblia às crianças. Com a mulher, Débora, teve três filhos: Jonas, Schemariah e Miriam. Mas o nascimento do quarto filho dá início a uma série de tormentos: Menuhim é uma criança doente, vitimada pela fraqueza, pela deformidade física e pela epilepsia.
A eclosão da guerra traz novos infortúnios à família Singer. Entre alistamento e deserção, os dois filhos saudáveis de Mendel e Débora tomarão decisões opostas: uma conduzirá aos campos de batalha; a outra, à emigração para a América. Auxiliado pelo filho no estrangeiro, e atormentado pelos namoros constantes da filha com os cossacos, também Mendel tomará a decisão de partir. Ao fazê-lo, porém, terá de deixar para trás o filho doente.
Com essa releitura moderna do livro bíblico de Jó publicada em 1930, Joseph Roth deu à luz aquele que, na opinião de Stefan Zweig, é o romance mais completo e duradouro produzido por toda uma renomada geração de escritores que incluía não poucos ícones da modernidade literária. Um clássico da literatura universal finalmente ao alcance do leitor brasileiro em tradução inédita do alemão".

Investigações Filosóficas - Wittgenstein (2ª parte)

         

“A indizível diversidade de todos os jogos de linguagem cotidianos não nos vem à consciência porque as roupas de nossa linguagem tornam tudo igual”, avisa-nos Wittgenstein. Daí “Investigações Filosóficas” (que é dividida em duas partes, veja aqui) ser uma obra que vai se debruçar nessa dissecação do emprego que fazemos de determinadas frases no dia a dia. O que realmente queremos dizer; se sabemos o que queremos dizer; se é possível o outro saber ou vivenciar o que estamos comunicando; se percebemos a dissimulação do outro; enfim, vemos uma obra que está dialogando o tempo todo com idealistas, empiristas e realistas.

Desde sua primeira obra, Tractatus logico-philosophicus, o tema central (ou a metafísica de Wittgesntein) é que o que há de mais importante é exatamente aquilo sobre o que devemos calar. E este é o centro do “Investigações Filosóficas”. E é muito interessante que aqui ele repita o argumento de Cassirer (que talvez seja mesmo um projeto da Modernidade): a rejeição de toda filosofia tradicional por entender que ela seja resultado de uma limitação da nossa linguagem. No caso de Wittgenstein, era um erro de lógica da nossa linguagem. Para Cassirer, era uma patologia da nossa linguagem. Daí vem, para Wittgenstein, que filosofia não é ciência, mas uma atividade de esclarecimento da linguagem. Contudo, no “Investigações...”, Wittgenstein dirá que esse erro da linguagem é um feitiço, atordoa-nos e nos distancia do que realmente interessa, por isso que, nesta obra, o filósofo vai tratar a filosofia como uma atividade terapêutica. O filósofo trava uma batalha contra a linguagem!

         Não tenho dúvida que um autor de um livro tão difícil de ler como o Tractatus, foi fortemente influenciado pelos anos posteriores em que decidiu ser professor primário e depois jardineiro, antes de retornar à Academia. E este didatismo e linguagem “provinciana” está ali em “Investigações Filosóficas”, que foi uma obra publicada dois anos após a morte do filósofo. Todavia, quando lemos “Investigações...”, fica-se com uma sensação de temas dispersos e não ligados entre si, como se o filósofo trata-se dos assuntos à medida que surgiam na sua mente, aleatoriamente. E é exatamente isso mesmo que Wittgenstein confessa: sua dificuldade de unir o que lhe vem à mente, dar um corpo, uma sistematização à obra.

         Para nossa Bibliotheca de Semiótica, o que mais nos interessa é o “princípio de uso” de Wittgenstein nesta obra resenhada. Wittgenstein dizia que não deveríamos pedir o significado das palavras, mas o seu uso: “Fora do uso, com efeito, um signo parece morto” e “A significação de uma palavra, de uma expressão é seu uso na linguagem”. Nada mais atual do que isso nas nossas discussões teológicas ou em nossos trabalhos de evangelismo: precisamos trazer as pessoas para o “jogo”, para o contexto, para a cultura bíblica e, sem dúvida alguma, para a cultura Reformada, explicando as regras do que queremos que elas entendam. E confirmando o entendimento delas a partir do uso que elas farão com nossas palavras: “justificação”, “salvação”, “predestinação”, “arrependimento”, etc. Este é um conceito importantíssimo para nossa Bibliotheca: entender que o uso que o outro faz de nossas palavras é segundo as regras de um outro jogo, portanto, precisamos trazê-los para entender, para dominar as regras do “jogo” bíblico – e isto é feito por meio de um discipulado construído sobre um trabalho de hábito e educação do nosso ouvinte. Porém, o missionário, o evangelista, o pregador e qualquer cristão que queira dar a razão da sua fé só poderão fazer isso se entenderem primeiramente as regras em que o outro se encontra. Este tipo de postura, por exemplo, irá ajudar na identificação e na solução de problemas como o sincretismo.     

         No campo específico da semiótica, uma das grandes contribuições de Wittgenstein é escapar ao problema da relação indissociável entre o significado e o significante ou entre a expressão e o conteúdo: “Se o senhor N. N. morreu, dizemos que morreu o portador do nome e não o significado do nome. E seria insensato falar deste modo, porque se o nome deixasse de ter um significado, não teria sentido dizer ‘o senhor N.N. morreu’”. Qual a implicação disso? Não é preciso que todos de uma comunidade concordem com o significado de uma palavra (por exemplo, “casa”) para que pudéssemos usá-la. Na verdade, a tese principal de Wittgenstein é que existem diversas gramáticas e que elas se circunscrevem nos mais diferentes aspectos de nossas vidas.

         E como Wittgenstein atingiu a teologia e, principalmente, a hermenêutica? Wittgenstein destrona o “eu” como o único validador da comunicação, fugindo do solipsismo e mostrando que, antes de tudo, a interpretação e a comunicação entre falantes de uma mesma comunidade é  aprender o que dizer, como, onde e quando, isto é, dominar uma língua é dominar a técnica do jogo. O significado não está no “eu” ou no intérprete, mas está na interação dessa relação, e esta interação possui regras.  

         Poderia ser dito muitas coisas sobre Wittgenstein, algumas não interessam ao foco dos nossos estudos como, por exemplo, seu homossexualismo, embora muito das suas lutas espirituais e a busca por pureza estejam referidas inúmeras vezes em cartas e testemunhos de amigos. Outras coisas que serão ditas sobre Wittgenstein deverão aparecer nas resenhas de outros livros. Contudo, gostaria de concluir esta resenha dizendo que Wittgenstein, no momento em que entrega o manuscrito do “Investigações...” aos editores, entrega também um prefácio ao livro em que expressava: “Eu diria: ‘Este livro foi escrito para a glória de Deus’, se hoje em dia essas palavras não parecessem tão tolas, isto é, se não fossem mal-interpretadas. Elas significam simplesmente que o livro foi escrito com a melhor das intenções e que, se não estiver sido escrito com boa vontade, mas por vaidade ou por outro motivo qualquer, seu autor gostaria de vê-lo condenado. Não está em seu poder purifica-lo das escórias, na medida em que ele próprio está longe de ser puro”.

         Deixo aqui ainda uma última e fascinante frase de Wittgenstein: "Se Cristo não ressuscitou, apodreceu no túmulo como qualquer homem, Ele morreu e apodreceu. Então é um mestre como qualquer outro, e não pode mais ser de nenhuma ajuda: e estamos de novo no exílio, sozinhos. Podemos contentar-nos com a sabedoria e a especulação. Estamos, por assim dizer, no inferno, onde apenas podemos sonhar, separados do céu como por um teto. Mas, se devo ser verdadeiramente redimido, então preciso de certeza - não de sabedoria, sonhos, especulação - e essa é a certeza da fé. A fé é fé naquilo de que precisa o meu coração, a minha alma; não o meu intelecto especulativo. Porque é a minha alma, com as suas paixões, quase com a sua carne e o seu sangue, que tem de ser redimida. Talvez se possa dizer: só o amor pode crer na ressurreição. Ou então: é o amor que crê na ressurreição".

           Para resenha completa da 2ª parte do livro, clique aqui. O blog "Bibliotheca de Semiótica" pretende ser um banco de resenhas para interessados e missionários que trabalham com outras culturas. Assim, é característica da "Bibliotheca" que, durante os resumos dos livros, eu faça comentários sobre as ideias do autor, concordando ou refutando, para que o leitor possa encontrar uma crítica e auxílio para a formação do seu próprio pensamento. Boa leitura!

Investigações Filosóficas - Wittgenstein (1ª parte)

Após resenhar dois livros de Cassirer (aqui, aqui e aqui), ler “Investigações filosóficas” de Wittgenstein é sair de uma compreensão de linguagem para outra totalmente oposta ou, ao menos, direcionada, concentrada, num locus diverso. A sensação é de montanha russa: com Cassirer, estamos indo para o alto, transcendendo o universo da linguagem em toda sua potência e, com Wittgenstein, caímos vertiginosamente para alguém que aponta a falência, a incapacidade da linguagem como um todo orgânico na explicação da realidade. Wittgenstein, por isso mesmo, dirige seu leitor para seu conceito-chave de “jogos”.

         Sair de Cassirer e ir para Wittgenstein é sair de alguém que trabalha com todo o potencial da linguagem para alguém que trabalha toda a falência da linguagem – este é o ponto sobre o "feitiço da linguagem" do qual Wittgenstein tratará de se desvencilhar.

Por isso, Wittgenstein vai dizer: “A filosofia é uma luta contra o enfeitiçamento do nosso entendimento por meio da nossa linguagem”.  Para Cassirer, a filosofia é o esforço da razão humana para entender a si mesmo: um exercício intelectual de autoconhecimento e, para a filosofia moderna, o esforço se caracteriza por identificar, entender e explicar os símbolos criados pelo homem.

Para Wittgenstein, não é a interpretação sozinha de uma palavra que determina a significação. Tanto a interpretação quanto o interpretado pairam no ar e o que os une? As regras próprias daquele jogo! Há um jogo. O jogo tem suas regras próprias. Eu não posso jogar xadrez com as regras do futebol ou do pôquer. Eu não posso ter uma interpretação alheia ao sistema.

Muitas das vezes, quando trabalho com tradução, ou melhor, avaliando a tradução feita por alguém, vinham em minha mente muitas dessas questões propostas por Wittgenstein neste livro. Por exemplo, trabalhando uma palavra como o grego “doxa” que, em versões bíblicas para o português, foi traduzida por “glória” (ARA) e em outras por “natureza” (NTLH), encontramos um caso muito bom para o qual Wittgenstein está chamando a atenção. A mera concepção de “uma palavra por outra, uma denominação por outra”, principalmente de uma língua para outra, esbarra em confusões que demonstram não compreender “as regras específicas daquele jogo de linguagem”. Desde quando a palavra “natureza” seria sinônimo de “glória” em português? E veja a confusão no c. 17 do Evangelho de João quando, por duas ou três vezes, é dito que Jesus recebeu a natureza divina por parte de Deus. Abrir mão da glória que tinha para depois recebê-la é uma coisa bem diferente de dizer que Jesus abriu mão de uma natureza divina para depois recebê-la! E pior, por exemplo, perguntando ao falante de uma língua indígena, cuja Bíblia seguiu essa escolha da NTLH na tradução para sua língua materna, o que ele entende por “natureza” dentro daquele contexto, ele me aponta para o mato, para a selva que estava do lado de fora da sala em que nos encontrávamos conversando. Mas, desde quando, a palavra “natureza”, que já não tem nada a ver com “glória”, teria a ver com natureza no sentido “natureza selvagem”, se o que estamos falando é sobre natureza humana e natureza divina?!

         Assim, embora pareça que Wittgenstein parta de uma linguagem ou de exemplos muito simples e cotidianos da comunicação humana, a grande verdade é que ele reflete um fato importantíssimo que é exatamente os limites da linguagem. Quem, portanto, deve ler “Investigações Filosóficas”? Todos que se interessam pelo estudo de línguas e não apenas filósofos. “Investigações Filosóficas”, tanto pelo seu tema como pelo seu didatismo, deveria ser leitura obrigatória aos missionários transculturais e, principalmente, aos que irão trabalhar com tradução da Bíblia (que são o público para esta minha biblioteca de resenhas). É um livro que nos leva a pensar em coisas tão cotidianas da linguagem, tão óbvias, situações da comunicação que poderão parecer tão sem elegância e sem sofisticação aos mais acostumados com uma linguagem filosófica rebuscada, porém, são essas situações “provincianas” que mais deflagram nossas confusões de interpretação.

É importante salientar que há 2 Wittgenstein: o da primeira obra Tractatus Logico-Philosophicus (1921) e o Wittgenstein posterior. A presente resenha trata de uma obra que representa o “2º Wittgenstein”. A diferença entre essas duas fases e uma crítica aos pontos negativos da filosofia de Wittgenstein virão na próxima resenha, que tratará da 2ª parte do “Investigações filosóficas”.

Para resenha completa da 1ª parte do livro, clique aqui. O blog "Bibliotheca de Semiótica" pretende ser um banco de resenhas para interessados e missionários que trabalham com outras culturas. Assim, é característica da "Bibliotheca" que, durante os resumos dos livros, eu faça comentários sobre as ideias do autor, concordando ou refutando, para que o leitor possa encontrar uma crítica e auxílio para a formação do seu próprio pensamento. Boa leitura!

Antropologia Filosófica - Cassirer (2ª parte)

A presente resenha foi feita a partir da obra “Antropologia Filosofica”, que, ao que parece, foi traduzida para o português e publicada pela Editora Martins Fontes com o título “Ensaio sobre o homem”. Contudo, sem esta obra em minhas mãos, não posso confirmar sequer se a tradução foi completa ou não. Mas fica a dica aos que irão procurar esta obra de Cassirer.

“Antropologia Filosofica” tem como subtítulo “Introducción a una filosofía de la cultura”. É um livro dividido em duas partes. A primeira já foi tratada aqui.  O que Cassirer busca, e este deve ser o interesse do missionário que foi enviado para trabalhar com uma outra cultura, é entender o que é o homem a partir da sua produção cultural. Daí estarmos criando uma biblioteca crítica sobre a teoria dos símbolos, pois, ainda que Cassirer sustente seu trabalho sob o prisma do neokantismo, ele trabalha com a produção cultural do ser humano e busca a unidade dessas aparentes forças contraditórias: o mito, a linguagem, a arte, a história e a ciência.

Para Cassirer, como bom neokantista, essas diversas áreas representam o esforço humano para unir contraditórios e que não devem ser vistos como excludentes, mas, como são símbolos, devem ser vistos e “lidos” dentro de suas próprias regras. Cada área dessa possui suas próprias regras, são símbolos e, portanto, a filosofia da cultura, que busca responder ao que é o homem, deve se ocupar em discernir essas áreas e compreender a comunicação que elas empreendem.

Vemos por todo o livro que Cassirer vai reagindo ao empirismo, que tende a reduzir o ser humano a um mero elemento a mais no mundo animal, tendo sua inteligência diferenciada de outros animais apenas por grau. Para Cassirer, porém, a razão humana é, de longe, uma coisa muito diferente de quaisquer possíveis e surpreendentes demonstrações de certa racionalidade e certa cultura que exista nos animais. E o cerne do que difere o ser humano dos animais é que o ser humano, mais do que ser um animal racional, é um animal simbólico. A nossa inteligência é marcada pelo esforço de dominar a realidade apreendida pelos nossos sentidos sensíveis. E, neste sentido, é fundamental que o missionário se abra a estudar a cultura do povo no qual ele vai trabalhar e estas são as áreas: a linguagem (não apenas a língua), a arte, a história, os mitos e a ciência. Estas áreas realmente vão revelar ao missionários as diversas forças que estão em contradição diante daquele povo e demonstram seu esforço intelectual e espiritual em compreendê-las e dominá-las.

Um ponto muito bom desse livro é exatamente vermos Cassirer já trabalhando sob o novo paradigma da história. Diante do fracasso e da contradição de todas as teorias gregas, clássicas e eleáticas sobre o ser e a natureza humana, o autor propõe que não é na natureza humana (e ele questiona que ela, de fato, exista) que devemos encontrar a resposta para o que é o homem, mas na história. Em suma, não existe natureza humana, o que existe é história humana. E esta concepção irá marcar profundamente a modernidade e lançar a nova epistemologia na pós-modernidade. Porque o ser humano não será mais um sujeito submetido às regras naturais ou físicas e nem às regras lógicas, mas, a partir de agora, a ênfase é a semântica. Assim, a filosofia da cultura de Cassirer se institui como uma filosofia da linguagem e é esta abordagem que vem ao encontro dos interesses da nossa biblioteca de semiótica que estamos construindo para compreendermos tanto o homem pós-moderno, mas como ele entende a realidade, tratando tanto de suas contribuições positivas como negativas.

Para o missionário, os dois livros de Cassirer possuem um sentido todo especial pelos inúmeros casos de campo que trata, não apenas de relatos de pesquisadores acadêmicos, mas também de missionários.

Cassirer não está equivocado quando trata do mito, da linguagem, da arte, da história e da ciência como símbolos no sentido de “interpretações” da realidade. De fato, não podemos esquecer que todas essas abordagens são feitas por seres humanos que traduzem o pensamento do seu tempo. Essas áreas de conhecimento são recortes da realidade e abrigam interpretações, não são simplesmente fatos explicados, organizados e ensinados de modo neutro. Esta é a grande tese de Cassirer: “Esta espontaneidad y productividad constituye el verdadero centro de todas las actividades humanas. Es el poder supremo del hombre y señala, al mismo tiempo, los confines naturales de nuestro mundo humano. En el lenguaje, en la religión, en el arte, en la ciencia, el hombre no puede hacer más que construir su propio universo simbólico que le permite comprender e interpretar, articular y organizar, sintetizar y universalizar su experiência”.

Para resenha completa da 2ª parte do livro, clique aqui. O blog "Bibliotheca de Semiótica" pretende ser um banco de resenhas para interessados e missionários que trabalham com outras culturas. Assim, é característica da "Bibliotheca" que, durante os resumos dos livros, eu faça comentários sobre as ideias do autor, concordando ou refutando, para que o leitor possa encontrar uma crítica e auxílio para a formação do seu próprio pensamento. Boa leitura!

Antropologia Filosófica - Ernst Cassirer (1ª parte)

Cassirer é um autor requisitadíssimo nos cursos de antropologia, filosofia e linguística das Universidades brasileiras. Por isso, muitos dos missionários acabam por se encontrar com ele cedo ou tarde. Contudo, a verdade é que a obra de Cassirer já é fruto de todas as teorias que também estão presentes e dando corpo à teologia liberal do século XIX. Assim, não é de se surpreender que tenhamos logo no início do livro um “breve resumo do conhecimento humano desde o nascedouro da razão até seu crepúsculo e ressurreição com o advento da pós-modernidade”. Teremos uma apresentação clara da razão que levou ao surgimento da pós-modernidade, que tantas consequências nefastas trouxe para a área da teologia e que, até hoje, está presente em seus desdobramentos.

A antropologia de Cassirer está fundamentada na filosofia transcendental de Kant, mas com o agravante de já ser uma filosofia neokantista, que rejeitará qualquer vínculo com o referente, com o mundo físico, com a realidade. Isto recebeu o nome de idealismo radical. Assim, a teoria dos símbolos de Cassirer nasce da pressuposição de que o homem não se relaciona com a realidade, por isso sua mente cria o símbolo que irá tornar compreensível e dominável o mundo no qual vivemos. Como fruto dessa teoria dos símbolos neokantiana, Cassirer tem a grande sacada de tecer sobre o homo absconditus. Na verdade, se o nosso Deus que nos fala é um Deus absconditus muito mais o será o homem, que é a sua imagem. Por isso a natureza tão obscura da religião: ela é um símbolo que trata de símbolos de símbolos. Mas para Cassirer, não apenas a religião e a teologia medievais falham na descrição do que é o homem, mas a própria metafísica clássica, pois, para o próprio Aristóteles, descrever o homem pelas categorias acidentais nada dizem do seu ser, pois os acidentes aristotélicos diziam das características mutáveis do ser. Daí a necessidade do símbolo.

É interessante notar que, uma vez atribuída a origem da ideia evolucionista a Aristóteles, como o faz Cassirer, é dado pelo evolucionismo darwiniano, segundo percebo eu, uma justificativa científica e filosófica para o panteísmo e, principalmente, para o panenteísmo tão difundido na teologia liberal do século XX, uma vez que as fronteiras entre as espécies foram derrubadas e que todas são, na biologia darwinista, um desenvolvimento de uma mesma força vital contínua e presente em todos os seres vivos, uma força que nos une e ultrapassa.

No ponto do livro em que são tratados o espaço e o tempo, é impressionante notar como as culturas verdadeiramente veem essas categorias de formas tão diversas. Na cultura em que trabalhei, por exemplo, foi interessante notar que a Escola era um fator de imposição da concepção do “mapa geográfico” forçando a cultura a ver coisas que ela não via e a tornar irrelevantes detalhes essenciais na geografia simbólica do povo. Não somente o espaço simbólico da aldeia vem sendo transformado pela Escola, mas também o tempo simbólico (embora haja em algumas iniciativas escolares a tentativa de se perceber e respeitar o tempo e o espaço da cultura). Todavia, com o inevitável encontro da cultura majoritária com essas culturas indígenas, seja com a ida da escola e da TV para a aldeia, seja dos próprios indígenas vindos para a cidade, a dissolução do simbólico é um fato e o missionário precisa, mais do que nunca, ser a ponte entre esses dois universos, ajudando e apoiando os povos minoritários no resgate, na transição e na compreensão dos novos símbolos também.

Acrescentaria ainda, apenas como curiosidade irônica na abordagem de Cassirer sobre a matemática simbólica, que, diante de um Império como o da Babilônia, que tanto desenvolveu as medidas de peso e quantidade, foi com palavras de medição e peso que Deus anunciou o fim do Império no livro de Daniel.

A teoria dos símbolos de Cassirer é clara: o símbolo, o possível - eis o que diferencia o ser humano dos animais. E esta é uma característica da nossa mente que é derivada da mente de Deus. Deus é ato puro, Deus não trabalha com símbolos. O que ele pensa é criado. O homem não. Ele pode transcender e criar imagens, símbolos a partir dos dados oferecidos pela realidade, ele pode imaginar mundos possíveis e que jamais encontrariam respaldo na realidade e que, como o exemplo dado no livro sobre Galileo, podem mesmo parecer uma contradição com a realidade.  

Enfim, a crítica que podemos fazer a Cassirer é a mesma que se deve fazer ao neokantismo (a filosofia do não realismo), que é uma concepção que radicaliza a ideia de Kant. O idealismo radical do neokantismo afirma que as categorias usadas pela mente para processar a experiência são arbitrárias (Kant as pensava necessárias). Parece, portanto, que a teoria de símbolos de Cassirer nos leva a um círculo vicioso, pois, propondo o símbolo como a saída para a anarquia do pensamento atestada pela crise da Modernidade, ele finda por nos dar uma saída artificial e criada pelo próprio homem. Assim, ficamos presos numa teoria subjetiva que abrirá uma crise novamente à interpretação tanto do homem quanto do mundo.    

O objetivo do autor foi dar ao público inglês e americano uma tradução da famosa obra “Filosofia das formas simbólicas”, contudo, nas palavras do próprio autor, ele não conseguiu traduzir para o inglês de uma maneira satisfatória. Assim, resolveu escrever este outro livro. E isso talvez explique sua linguagem muito mais didática e compreensível. A obra de Cassirer está dividida em duas partes e aqui apresento a resenha da 1ª parte: “Que é o homem?”. Para a resenha completa da 1ª parte do livro, clique aqui. Boa leitura!  

Linguagem e Mito - Ernst Cassirer

Por que ler este livro de Cassirer? Ele é neokantiano e representa a escola antropológica darwinista do fim do século XIX. Seu livro ajudará o missionário a compreender as mudanças que ocorreram na Antropologia do século XX, além disso, Cassirer traz farto material cultural advindo do trabalho missionário realizado naquela época. Este livro é uma ótima oportunidade de entender tanto o kantismo e o neokantismo e suas diferenças e, principalmente, ver a criação de uma Teoria dos Símbolos a partir da Filosofia Transcendental e da cosmovisão evolucionista. Embora Cassirer faça parte de uma escola que priorizava o estudo da lógica, a maioria dos seus livros expunha sua preocupação com a cultura. 

Ainda que discordemos de seu arcabouço teórico, as pesquisas missionárias trazidas pelo autor confirmam o que até hoje podemos encontrar nos Campos: o pensamento mítico e sua imbricação com a linguagem; o poder místico e simbólico da Palavra; a identificação do nome com o seu respectivo deus, sentimento ou demônio; a transferência ou identificação do poder da Palavra para algum instrumento (totem, ritual, xamanismo, etc); e, enfim, aos tradutores da Bíblia, Cassirer oferece casos em que a escolha errada de nomes para o Deus cristão não permitiu que o povo se relacionasse pessoalmente com Deus, transferindo sua crença numa força impessoal para o Deus pregado pelos missionários. Muitos dos casos narrados por Cassirer eu pude constatar no meu próprio trabalho missionário, desde a troca dos nomes durante a vida dos indivíduos, o totemismo, o xamanismo, até o esforço de se “achar” palavras que não promovam o sincretismo tão presente no trabalho evangelístico. 

Acredito que a exposição feita por Cassirer (independente dos seus pressupostos), contribui para confirmar que o pensamento mítico é presente em todas as sociedades que se julgam portadoras de um pensamento teórico e discursivo. Na verdade, e esta é a tônica do meu curso de Comunicação Transcultural e Contextualização, o símbolo se apresenta no meio da sociedade contemporânea com a mesma força que nos primórdios e cabe aos missionários cristãos, seja numa França e Alemanha pós-cristãs, seja num povo aborígene no interior do Amazonas, compreenderem isso caso queiram evangelizar em amor ao seu próximo. Para a resenha do livro, clique aqui. Boa leitura! 

A Estrada [****]





Cormac McCarthy
Editora Alfaguara
240 Páginas

"Num futuro não muito distante, o planeta encontra-se totalmente devastado. As cidades foram transformadas em ruínas e pó, as florestas se transformaram em cinzas, os céus ficaram turvos com a fuligem e os mares se tornaram estéreis. Os poucos sobreviventes vagam em bandos. Um homem e seu filho não possuem praticamente nada. Apenas uns cobertores puídos, um carrinho de compras com poucos alimentos e um revólver com algumas balas, para se defender de grupos de assassinos. Estão em farrapos e com os rostos cobertos por panos para se proteger da fuligem que preenche o ar e recobre a paisagem. Eles buscam a salvação e tentam fugir do frio, sem saber, no entanto, o que encontrarão no final da viagem. Essa jornada é a única coisa que pode mantê-los unidos, que pode lhes dar um pouco de força para continuar a sobreviver."
Após a leitura, classificarei os livros assim:
Péssimo [0] Ruim [*] Regular [**] Bom [***] Muito Bom [****] Excelente [*****]