Após a leitura, classificarei os livros assim:
Péssimo [0] Ruim [*] Regular [**] Bom [***] Muito Bom [****] Excelente [*****]

Jó - Romance de um homem simples [*****]






Joseph Roth
Cia das Letras
200 Páginas

"Numa cidadezinha russa do início do século XX vivia um judeu muito simples e religioso. Seu nome era Mendel Singer. Homem comum, modesto e temente a Deus, Mendel exercia o ofício de professor, transmitindo os ensinamentos da Bíblia às crianças. Com a mulher, Débora, teve três filhos: Jonas, Schemariah e Miriam. Mas o nascimento do quarto filho dá início a uma série de tormentos: Menuhim é uma criança doente, vitimada pela fraqueza, pela deformidade física e pela epilepsia.
A eclosão da guerra traz novos infortúnios à família Singer. Entre alistamento e deserção, os dois filhos saudáveis de Mendel e Débora tomarão decisões opostas: uma conduzirá aos campos de batalha; a outra, à emigração para a América. Auxiliado pelo filho no estrangeiro, e atormentado pelos namoros constantes da filha com os cossacos, também Mendel tomará a decisão de partir. Ao fazê-lo, porém, terá de deixar para trás o filho doente.
Com essa releitura moderna do livro bíblico de Jó publicada em 1930, Joseph Roth deu à luz aquele que, na opinião de Stefan Zweig, é o romance mais completo e duradouro produzido por toda uma renomada geração de escritores que incluía não poucos ícones da modernidade literária. Um clássico da literatura universal finalmente ao alcance do leitor brasileiro em tradução inédita do alemão".

2 comentários:

Jorge Fernandes Isah disse...

Este foi um livro surpreendente! Dos melhores que li ultimamente.

Indicação sempre bem-vinda do prof. e crítico Rodrigo Gurgel.

Um aviso: muitos que não leram o livro poderão achar confusa a minha resenha; e o objetivo é esse mesmo, não tirar do leitor o desejo de ler o livro, entregando-lhe um resumo ou pistas muito claras do que encontrará. Contudo, se você o leu, ou reler a resenha após lê-lo, entenderá melhor os pontos que ressaltarei a seguir.

Vamos a eles, então.

O título do livro remete ao personagem histórico/bíblico Jó, um homem poderoso, rico, e justo diante de Deus, o qual perdeu tudo, de uma hora para outra, e passou a viver na indigência e na enfermidade, sendo abandonado até pela esposa, tendo por companhia alguns amigos a questionarem a sua fé e moral, por conta dos seus infortúnios.

Mendel Singer, um homem comum, piedoso e temente a Deus, mora em Zuchnow, com a esposa e quatro filhos, levando uma vida simples, na qual é um professor da Bíblia para crianças. Esta é a principal fonte de renda da família. Ele não é um homem de muitas alegrias, mas uma tristeza o aflige sobremodo e à sua esposa, o filho caçula Menuhim, uma criança débil de nascença, e pela qual eles oram, incessantes a Deus, por cura.

Alguém disse que ao contrário do verdadeiro Jó, Mendel não manteve a sua fé e esperança, em meio as vicissitudes. Não penso assim. Mas antes, sem contar propriamente a história, para não tirar a curiosidade e o gosto dos futuros leitores, faz-se necessário dizer que, em dado momento, ele e sua família se veem obrigados a ir para a América, lugar onde um dos filhos se estabeleceu e prosperou, fugindo do recrutamento do exército russo. Lá, ele é conhecido como Sam, ao invés de ser o Schemarian da terra natal. Uma alusão à perda da identidade ou o esquecimento de quem se é.

O motivo da viagem está diretamente relacionado com a filha Miriam, mas não o citarei. Um detalhe importante é o fato de dois dos seus filhos não viajarem. Novamente, não darei os motivos; mas há aqui, também, um simbolismo, a perda de elementos de identidade, de coisas que eles são obrigados a deixar para trás, numa fuga dolorosa a impossibilitá-los de estarem por inteiro; e para aonde vão estarão sempre fracionados, incompletos. Nunca serão os mesmos, enquanto as partes separadas não se unirem novamente.

Na América, em uma cultura completamente diferente (uma referência a um exílio, uma diáspora para os Singer), Mendel mantém os seus hábitos judeus, suas orações e rituais, que o faz permanecer sendo quem é, ao menos como uma tentativa, mesmo não estando onde deveria estar; mas sempre com um desejo íntimo, indolente, de voltar à sua terra, à vida e ao lugar dos quais não consegue se separar, nem pode escapar.

Porém, tudo muda em uma sucessão de tragédias a aflorarem em sua vida, tal qual o personagem bíblico. Ele, então, rejeita a sua fé e a crença em Deus, e mesmo admoestado pelos amigos, recusa-se a voltar a ela. É a obstinação do homem em lutar contra Deus, contra a realidade, uma tentativa impossível de, pela rebeldia, encontrar-se consigo, com o homem perdido, e desconhecido; de encontrá-lo em um esconderijo, de onde nada se sabe, nem o lugar, nem como alcançá-lo. Negar-se a si mesmo passou a ser a maneira de Mendel conviver com a dor; negar a Deus o afastaria do seu passado; negar a esperança o distanciaria do seu futuro. Mendel era o homem fora do tempo, a vagar como um espectro pelas ruas de Nova york, como uma caixa pesada imóvel, na qual todos tropeçam.
[...]

Jorge Fernandes Isah disse...

[...]


De alguma maneira, havia uma esperança oculta no sofrimento, e ela o chamava pelo que ainda poderia reencontrar, a identidade perdida no abandono da fé e na ausência de elementos que o fizeram, até então, ser quem era Mendel Singer, agora eram ansiaaos como uma última chance de se reencontrar, de mitigar o novo homem nos lombos do velho homem, e vislumbrar alguma alegria, ou a resignação dolorosa do sofrimento, caso tudo estivesse realmente perdido.

Entretanto, há milagres; e Mendel vivencia-os. Algo inimaginável, em meio às seus sofrimentos, acontece, como se Deus finalmente olhasse para aquele homem miserável, e triste, e amargurado, lançando uma intensa onda de favores. Há a restauração da alma de Mendel, há a esperança, novos dias, um futuro no qual Deus o conduziu à reparação, o mesmo que levou Jó a receber tudo o que perdera em dobro e muito melhor.

Cenas emocionantes acontecem quando ele ouve, em um disco, a "Canção a Menuhim", e o encontro com o seu passado, porém tornado em um futuro esplendoroso. Mendel renasce; e não lhe é reserva apenas a morte, o abandono, a personalidade soterrada no dissabor, mas o alvissareiro frescor da felicidade, do reencontro consigo mesmo, do homem perdido em si, mas encontrado no milagre, no sobrenatural, na vida transformada e abundante, em proporções muito maiores ao que sentira, mesmo na existência aparentemente completa do velho homem.

Mendel nunca será o mesmo; aquele homem foi aperfeiçoado pelo sofrimento, restando agora o homem completo, como jamais pode imaginar ser. Assim é retratado pela última frase:
"E descansou do peso da fortuna e da grandeza do milagre".

Um livro onde nada, nem mesmo as mazelas e o sofrimento, tira-lhe a beleza.