Após a leitura, classificarei os livros assim:
Péssimo [0] Ruim [*] Regular [**] Bom [***] Muito Bom [****] Excelente [*****]

Justino de Roma - série Patrística, vol. 3

Em pleno ano 155 (+/-) d. C., há os escritos de Justino de Roma, o mártir, que coloca em pé de igualdade os escritos do AT e do NT, citando a ambos em abundância nos seus livros.

Além disso, surpreendeu-me ver em Justino tanto as ideias da "semente da religião" como a do "fator melquisedeque". Na verdade, essas duas ideias estão amarradas. A "semente da religião" de Calvino parte do pressuposto que fomos criados à imagem e semelhança de Deus e, mesmo após a queda, essa imagem aviltada pelo pecado gera em nós uma "saudade" (Santo Agostinho). Porém, como o ser humano não pode chegar a Deus pela Teologia Natural (analogia entis), sem a Revelação especial (analogia fidei), é impossível conhecer a Deus, daí essa "sede", "saudade", "religiosidade" humana se perde no sagrado impessoal e nas muitas imagens erradas sobre o Ser de Deus. O "fator melquisedeque" parte de uma apropriação do personagem bíblico do AT, o Sacerdote Melquisedeque, rei de Salém, que depois será trazido como um tipo de Cristo pelo autor de Hebreus. Don Richardson vai defender que o Evangelho já está presente nas diversas culturas humanas e uma das principais razões se deve ao fato de que todos os povos e culturas do mundo vivemos as mesmas narrativas de Gênesis 1-10, além da presença da "semente da religião" em todos os seres humanos.

Don Richardson, missiólogo, dirá que o missionário, portanto, deve estar atento à cultura para identificar nela os elementos do Evangelho que podem ou não ainda subsistir. Para um aprofundamento dessas ideias, indico dois livros do Don Richardson: "Fator Melquisedeque" e "O Totem da Paz". Evidentemente, que essa ideia de Richardson não é matemática, isto é, impreterivelmente todas as culturas apresentarão elementos do evangelho. Nem todas apresentarão, como, também, as que apresentarem talvez já tenham elementos tão deturpados pelo pecado cultural que nem vale a pena aproveitar sob o risco de sincretismo.

Quando se fala em elementos do Evangelho, quais seriam? A presença na cultura de ideias de justiça, de pagamento, historias sobre um inocente que entrega a vida em benefício do grupo, etc. Tudo isso pode facilitar a apresentação do Evangelho por parte do missionário transcultural.

E é exatamente isso que Justino faz em suas apologias! Assim como Paulo, Justino reconhece a semente religiosa revelada pelos filósofos gregos, que chegaram mesmo à compreensão do monoteísmo contra a cultura politeísta ainda resistente. Na verdade, todas as discussões da filosofia grega se davam na base do Ser imutável que sustentaria a mutabilidade de todas as coisas. Justino louva o que a cultura filosófica e mítica dos greco-romanos conseguiu alcançar. Justino, então, usa o que Don Richardson chama de "abridor de olhos", mostrando que o Evangelho não é algo assim tão estranho à cultura do seu público.

Por outro lado, diz Justino, isso não é suficiente, pois as próprias contradições apresentadas nos mitos e na filosofia grega entre seus autores revela que falta algo superior, falta uma luz naquelas trevas. Daí Justino passa a pregar o Evangelho revelado nas Sagradas Escrituras desde Gênesis por Moisés (portanto, um conhecimento muito anterior aos filósofos pré-socráticos e a Homero: o argumento da antiguidade foi fortemente usado pelos Padres Apostólicos e Apologistas para refutar a cultura pagã daquela época). Justino é simplesmente um comunicador e um contextualizador de mão cheia! É uma delícia ler as Apologias dele e imaginar que estamos lendo um texto de uma igreja recém-nascida e que já precisa dar a razão da sua fé diante de leões.

Se eu pudesse apontar dois "poréns" na teologia de Justino, eu diria que falta a Justino uma noção da total depravação do gênero humano e, como uma das consequências, muito do mal que ele constata na cultura ele atribui fortemente à ação demoníaca. Contudo, compreendendo isso, ler Justino é avivar tudo o que cremos em nosso coração.

No seu "Diálogo com Trifão", Justino evangeliza o judeu Trifão nos presenteando com um texto maravilhoso sobre como usar as Sagradas Escrituras para apresentar o Cristo. Como já disse, todas as doutrinas essenciais do Credo se encontram nas obras de Justino. Inclusive, a obra "Diálogo com Trifão" é a primeira obra que temos que mais cita a realidade do nascimento virginal de Jesus (19 vezes!).

Tudo isso me faz lembrar certo professor que me disse uma vez que "estudar história da filosofia não é Filosofia". Isto, na verdade, se aplica a todas as outras disciplinas: estudar história da Igreja ou história dos mártires ou biografias de teólogos não é o mesmo que ir às fontes primárias e beber lá! Em outras palavras, eu posso, por exemplo, saber tudo sobre a vida de Machado de Assis e saber sobre o que versa cada livro e conto que ele escreveu, sem, contudo, ter lido uma linha, um conto, um livro dele!

E o que eu percebo é que as escolas, faculdades, cursos gerais, seminários, etc estão se especializando em "história", "resumo", "esquema" e coisas assim, sem levar o aluno, o estudante, a ler as obras desses grandes escritores.

Em teologia, tudo isso se torna ainda mais grave, pois ficamos acostumados com aqueles ensinos gerais do tipo: "Fulano cita não sei quantas vezes o AT", "Ciclano cita não sei quantas vezes o NT", tudo isso para nos mostrar que, naquela época, tais autores já compreendiam esses evangelhos e cartas como Palavra de Deus em pé de igualdade com o AT. E que aquelas velhas mentiras liberais de que as doutrinas foram forjadas só quando o "Cristianismo se tornou uma religião do Império para manipular as pessoas", elas são só isto mesmo: mentiras. Ainda assim, ler "manuais de teologia" que nos passem essas informações é se encontrar com informações de 3ª, 4ª mão. Até porque a maioria desses manuais ou livros sobre história da Igreja já são eles também frutos de coleção de outros manuais. Enfim, pouquíssimos vão às fontes primárias (mesmo quando há tradução delas em português).

O que eu quero dizer é que ler obras como as que foram escritas pelos Padres Apostólicos, pelos Padres Apologistas e por Justino (obras que foram escritas até o ano 170 d. C.) é constatar não apenas que as doutrinas da fé cristã já estavam ali, mas, principalmente, ver como esses primeiros e corajosos defensores da fé tiveram que lidar com a cultura helênica, o mundo romano e o judaísmo daquele tempo. Como eles defenderam a fé a ponto de morrer por ela! Eram comunicadores do Evangelho, alguns desses homens souberam de modo magistral contextualizar essa comunicação para seu público, outros fincaram o pé naquilo que era inaceitável do mundo pagão à mente deles. Mas todos não estavam ali para brincadeira: eles amavam o Senhor Jesus!

Por que muitos professores, neste modelo infeliz de "Educação" que temos, enfiam um conteúdo a ser passado dentro de um limite de tempo em que se é impossível "ler livros", ler as fontes originais? Quantos não são os alunos que mergulham em aulas-resumo e se "especializam" em resenhas sem nunca ler as obras de fato, engolindo as interpretações erradas, manipuladas e deturpadas de terceiros, quartos e quintos!

Infelizmente, há pastores em muitos púlpitos que sequer leram a Bíblia inteira uma única vez na vida - isto é uma tragédia! Há missionários, que se propõe a traduzir a Bíblia, mas que nunca a leram sequer uma única vez inteira em suas vidas - outro escândalo!

A lista é enorme das atrocidades cometidas pela nossa geração no quesito formação intelectual: há pastores, presbíteros, diáconos (e tantos outros líderes) que já leram Barth, mas nunca leram Justino. Já leram René Padilha, mas nunca leram Agostinho. Já leram Leonardo Boff, mas nunca leram Tomás de Aquino. Já leram William P. Young, mas nunca leram João Calvino. Já leram o último livro da moda gospel, mas nunca leram a Bíblia toda sequer uma única vez na vida...

Para finalizar, gostaria de deixar como interessantíssima curiosidade a liturgia dos cultos dominicais registrado por Justino:

1) No domingo, reúnem-se os cristãos da cidade e do campo;
2) Leitura do Novo Testamento ("memórias dos apóstolos") e leitura do AT ("escritos dos profetas"), enquanto o tempo permitir;
3) Palavra de exortação do Presidente da comunidade sobre o que foi lido e aplicação dos exemplos lidos para a vida dos ouvintes;
4) Abençoa-se os elementos da Santa Ceia;
5) O Presidente ora;
6) Faz-se a ação de graças e distribuição desses elementos (incluindo os ausentes, que receberão das mãos de diáconos em suas casas);
7) Momento do recolhimento das ofertas;
8) O Presidente destinará as ofertas para as devidas necessidades (órfãos, viúvas e outras causas).