Após a leitura, classificarei os livros assim:
Péssimo [0] Ruim [*] Regular [**] Bom [***] Muito Bom [****] Excelente [*****]

Contra as heresias - Irineu de Lião (1ª parte)

Ler “Contra as heresias” de Irineu de Lião é ser lançado num mundo paleocristão de imensas convulsões. Acostumado que estava em sempre encontrá-lo nas notas de rodapé dos manuais e livros de teologia, em geral para comprovar que a Igreja já reconhecia a maioria dos livros do NT como Palavra de Deus em pé de igualdade com o AT (Irineu só não trabalha com os seguintes livros: Ester, Cronicas, Eclesiastes, Jó, Cântico dos Cânticos e Obadias (AT) e II Jo e Filemon (NT)), contudo, achei muito mais interessante ler como Irineu maneja as Escrituras para refutar as seitas de seu tempo.

Irineu escreveu o seu livro, ou melhor, sua coleção de 5 livros reunidos posteriormente debaixo do título comum de Adversus haereses, entre os anos de 175 até 190. É uma obra espetacular por várias razões: 1) seu valor histórico; 2) levantamento detalhado das seitas e suas heresias daquele tempo; 3) sua refutação lógica que desmonta os ensinos das seitas a partir de suas contradições; 4) a defesa apaixonada da ortodoxia a partir dos textos do NT e do VT (ele é o primeiro a usar a expressão “escrituras” para se referir a ambos testamentos); e 5) a exposição da teologia de Irineu.

O Livro I é dedicado à exposição detalhada das seitas e suas heresias ou, como o autor se expressa, “a teoria deles, que nem os profetas pregaram, nem o Senhor ensinou, nem os Apóstolos transmitiram”. Nesse Livro I, Irineu nos dá um quadro assombroso da confusão mental dessas seitas: uma chocante mistura de judaísmo, cristianismo, mitologia grega, filosofia pré-socrática, religião de mistério, pitagorismo, platonismo, mitologia grega, etc. Só lendo mesmo para se ter uma noção da Hidra contra a qual a Igreja precisou se levantar ainda naquele século. O Livro I faz as nossas atuais seitas e heresias parecerem brincadeira de crianças no jardim de infância. A sensação que eu tive é que sincretismo mesmo foi aquilo descrito por Irineu e nada do que temos enfrentado nos últimos 200 anos se compara àquilo. 

É muito interessante ver o método aplicado por Irineu que mostra não apenas que as seitas interpretavam de maneira errada as Escrituras, mas também a poesia de Homero. Aliás, Irineu não é apenas um profundo conhecedor das Escrituras, mas da filosofia e da poesia greco-romanas! Irineu, portanto, vai primeiramente, demonstrar o erro no uso de alegoria e a busca por um sentido místico, hermético e oculto que as seitas fazem na poesia e na filosofia greco-romana. Este mesmo erro as seitas também cometem ao ler as Escrituras, mostrará Irineu. Mas essa refutação ao próprio “corpus” doutrinário das seitas já é o tema do Livro II.

Os dois temas principais que Irineu está combatendo e, a partir dos quais, devemos ler e interpretar os cinco livros são: 1) o Deus do AT e do NT é o mesmo (disso decorre que o NT é uma continuação do AT); e 2) Jesus, o Nazareno, filho de Maria, é o mesmo Cristo prometido no AT (Jesus não “recebeu” o Cristo no batismo, pois Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, Verbo eterno). 

Um dos pontos mais importantes em Irineu e nos que o precederam é a luta na preservação dos livros do AT. A defesa de que o Cristianismo não é uma seita revolucionária, ao contrário, o cristianismo é a revelação ortodoxa cujas raízes se fincam profundamente na Escritura judaica. Por isso, a igreja se levantará tenazmente contra todos aqueles que querem expurgar tudo que “é judeu”, sejam partes ou mesmo livros inteiros como fez Marcião, o herege (150).

Assim, na Soberania divina, aquele imbróglio de heresias que surgiram e se desenvolveram desde o início serviu para que a Igreja defendesse a Tradição Apostólica da Fé e não apenas a canonicidade dos livros em si. Por isso, por mais de uma vez, Irineu faz uma exposição da Regra da Fé cristã recebida diretamente dos Apóstolos que fundaram as igrejas espalhadas pelo mundo, que será a base para o Credo que será desenvolvido depois. Veja abaixo:


Esta obra, de tamanha envergadura, sem sombra de dúvida é um marco para a separação da igreja do ocidente e do oriente. A igreja oriental vai assumir cada vez mais uma interpretação alegórica, que será insustentável diante das seitas e heresias daquele tempo. Irineu impõe, magistralmente, a interpretação lógica e analítica do texto e seu contexto e a usa não apenas sobre as Escrituras, mas também para demolir as heresias! Todavia, o próprio Irineu, fará também interpretações profundamente alegóricas como mostrarei mais adiante. Enfim, estará aí uma das decisões mais importantes para a futura exegese da Igreja.

Outra dificuldade das seitas era aceitar a doutrina da ressurreição dos corpos – o corpo era mau e deveria ser extinguido, logo, a salvação no Cristo era apenas para a alma. Para refutar essa ideia Irineu desenvolve uma belíssima teologia do corpo e a importância do ser humano como um todo – corpo, alma e espírito (nada a ver com uma discussão tricotômica ou dicotômica, antes holística)! O corpo nada é até que lhe venha o ES e comece a prepara-lo para a vida eterna! Se esta carne consegue receber vida de Deus, muito mais a carne preparada para a glória e cheia do Espírito Santo poderá ser ressuscitada, diz Irineu.

O livro III inicia com a apaixonada defesa da “Tradição Apostólica”, que é o Evangelho recebido pelos apóstolos, o ensino sobre a economia da nossa salvação. No Livro III, como em todos os escritos anteriores de outros Pais, ele demonstra que a palavra gnose é usada sem a conotação pejorativa que usamos atualmente. Na verdade, o que vemos é que, para aqueles Pais da Igreja, o que está acontecendo é uma batalha entre duas gnoses: a cristã, revelada por Deus, e a das seitas, herética e inventada por pessoas que não são quem elas dizem que são (para saber mais clique aqui).

Irineu confirmará o número de 4 Evangelhos aceitos pela Igreja espalhada por toda terra, dizendo que o de Mateus foi escrito para os judeus originalmente na língua deles, o Evangelho de Marcos fora uma pregação de Pedro, o de Lucas fora uma pregação de Paulo e que o Evangelho e o Apocalipse de João são do discípulo que recostava a cabeça no peito de Jesus naquela última noite narrada no Evangelho. E mais: à luz de Ezequiel e Apocalipse, ele defende o Evangelho único e quadriforme! Cada Evangelho com suas características e públicos (leão, novilho, homem e águia), mas unidos na descrição de Jesus!

Em momento algum, defendo eu, Irineu faz uma defesa do papado romano ou do primado do bispo de Roma (vou mostrar isso em outro post). O contexto é de ataque e Irineu mostra que a competência cristã em salvaguardar o tesouro do ensino apostólico é muito maior do que o dos “mestres gnósticos”, que não tem tradição alguma da qual possam tirar seus ensinos.

O que precisa ficar claro, portanto, é que para Irineu a “tradição” é a Regra de fé. Apenas isso. O que eu quero dizer? Não está em “Contra as heresias” a defesa de que a sucessão apostólica dá autoridade para inserir novas doutrinas. A tradição é aquilo que as Igrejas já receberam (ver acima a imagem da Regra de Fé, que é a isso o que Irineu chama de "Tradição").

A defesa maravilhosa da Santíssima Trindade e da presença especial do Espírito Santo nos autores apostólicos também aparecem no Livro III.

Da obra como um todo, posso depreender um método apologético usado por Irineu: 1) conhecer profundamente o pensamento da seita e suas heresias; 2) refutar o pensamento herético por meio da lógica e da análise das contradições desse pensamento; 3) refutar o pensamento da seita a partir das Escrituras; 4) defender a saudável interpretação das Escrituras, mostrado os erros de interpretação da seita sobre as passagens usadas por ela.

(continua...)

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