Após a leitura, classificarei os livros assim:
Péssimo [0] Ruim [*] Regular [**] Bom [***] Muito Bom [****] Excelente [*****]

Henderson, o Rei da Chuva




Saul Below
Cia das Letras
456 Páginas

Eugene Henderson é um homem complexo e em plena crise de meia-idade, o que agrava um temperamento turbulento de tendências suicidas. Riquíssimo, descendente de figuras de proa da história dos Estados Unidos, ex-combatente da Segunda Guerra ferido e condecorado, depois de dois casamentos e um punhado de filhos, de conflitos com parentes e vizinhos, de dores de dente crônicas e de incontáveis bebedeiras, ele decide romper com seu passado e empreender uma virada existencial. Parte então para a África, em busca de um novo sentido para a vida. Animado pelo desejo de fazer o bem em meio a tribos afastadas do contato com a civilização moderna, Henderson primeiro se fixa entre os Arnewi e depois entre os Wariri, povos contrastantes que só possuem em comum uma crônica falta de água para a lavoura e o gado. 

Demonstrando um extraordinário domínio da narração em primeira pessoa, Bellow relata pela voz ao mesmo tempo exasperada e divertida do próprio Henderson os desajustes entre o racionalismo pragmático do personagem e uma África exótica, remota e insondável. Com alguma licença, as aventuras do voluntarioso protagonista podem ser lidas como uma variação irônica e bem-humorada, mas não menos humana, do confronto entre a civilização ocidental e a África selvagem encenado por Joseph Conrad em Coração das trevas .


Porasy e Jegwaká - Vânia P. S. Hu'yju

Tenho tido o privilégio de, há mais de 6 anos, dar uma disciplina que visa a formação e capacitação de missionários transculturais: “Comunicação Transcultural e Contextualização”. E em determinado ponto da disciplina sempre oriento os alunos a olharem para as artes, as expressões artísticas do povo para ouvir delas a cosmovisão que o povo tem acerca da vida.

Assim que cheguei ao Xingu (não como missionário e nem como Pastor, porque não se entrava lá dessa maneira) como professor de Gramática da Língua Portuguesa, um indígena que logo se tornou um grande amigo veio me mostrar um livro com os mitos da Região. Folheando as páginas cheias de gravuras, de repente ele aponta o dedo e diz este é o “Jesus dos brancos”. Ao ouvir isso, fiquei com cara de abestalhado, mas não disse nada, apenas pedi o livro emprestado. Em casa, busquei a gravura que ele havia apontado e a história que estava ali. A gravura e a história se referiam a Taungue, um indígena mítico, cujas histórias de fundação do povo giravam ao redor dele. O problema é que Taungue era mentiroso, trapaceiro e enganador naquelas narrativas míticas da cultura. Como, então, associaram ele a Jesus? Eu tenho minhas teorias...

Mas o que quero, de fato, compartilhar é que é fundamental no contato com o outro e sua cultura a descoberta desses elementos: literatura, pintura, artesanato em geral, etc. Eles significam! E se queremos apresentar o Evangelho de uma maneira que o outro compreenda e, ao mesmo tempo, minimizando o sincretismo o máximo possível, o missionário deve fazer o dever de casa de conhecer a cosmovisão do outro antes de apresentar-lhe o Evangelho. Daí, danças, ritos, narrativas míticas e tudo o mais deve vir aos olhos e ser estudado com carinho pelo missionário, pois é esse material que nos dará a percepção até mesmo do que na cultura do outro pode ser uma porta aberta para a má compreensão do Evangelho (como é o caso de Taungue, por exemplo).


Neste ponto, quero apresentar dois livros interessantíssimos que vieram às minhas mãos: “Porasy e os estranhos seres da Mitologia Guarany” e “Jegwaká – o clã do centro da terra”, ambos da Professora Vânia P. S. Hu’yju. O primeiro é um romance envolvente a partir das narrativas do avô de Porasy sobre os antigos seres de sua mitologia, mas que, aos poucos, deixam de ser meros seres mitológicos e tomam lugar no dia a dia da jovem menina. “Jegwaká” é sob a perspectiva narrativa de três crianças enviadas pelos deuses: Avá Verá, Kunhã Rendy e Mitã Rory. A partir dos acontecimentos da vida das três crianças somos apresentados ao estilo de vida e à cosmovisão Guarany. O animismo – cosmovisão preponderante nos povos tribais de todo o mundo – é mostrado em todo seu colorido e ambos os livros nos dão essa oportunidade de enxergar o mundo com os olhos do povo Guarany. Duas obras indispensáveis para quem deseja trabalhar com esses povos. Os dois livros se encontram na Amazon em formato de e-book.     

Comunicação e Cultura - Ronaldo Lidório

Nos anos em que trabalhei com o povo Kalapalo, no Parque Indígena do Xingu, tive a oportunidade de ir àquele trabalho logo após o curso do CLM (Curso de Linguística e Missiologia) da Missão ALEM (AssociaçãoLinguística Evangélica Missionária). Sobre o tempo em que estivemos envolvidos especificadamente com os povos do Xingu, tenho narrado essas histórias do nosso contato com eles no Blog Morávios (clique aqui).

Além da formação do CLM, um curso intensivo de um ano para preparar o missionário a trabalhar com povos agrafes, desenvolver um alfabeto, uma ortografia para o povo, alfabetizá-los na própria língua materna e, então, começar o trabalho de tradução da Bíblia, havia o material original do curso CAPACITAR para dar uma formação mínima nas áreas de linguística, antropologia e missiologia. Deste material do CAPACITAR, tive a oportunidade de soma-lo ao que havia reunido no CLM e saí para o Campo Missionário. Na esteira do que estava sendo produzido naquela época, surgiram dois livros do Lidório: “Plantando Igrejas” e “Antropologia Missionária”. Ambos com uma perspectiva Reformada da área de missiologia.

Todavia, a Editora Vida, em 2014, lança o “Comunicação e Cultura” como um resumo e adaptação do que Lidório vinha trabalhando nos últimos anos. Todos os assuntos desenvolvidos por ele, mas agora reunidos em um único livro, que vem com o seguinte subtítulo explicativo na capa: “A Antropologia aplicada ao desenvolvimento de ideias e ações missionárias no contexto transcultural”. E o livro cumpre exatamente este papel. Assim, depois de todos esses anos e após a experiência no Xingu, me vi relendo este novo livro, mas com olhos no passado e no futuro. No passado, porque me vi recordando que tive o privilégio de trabalhar todo o “roteiro de abordagem cultural” criado por Ronaldo Lidório em entrevistas feitas na aldeia e na cidade com a família do Cacique com quem morei. No futuro, porque sei que, a partir deste ano, trabalharei com outras culturas e povos e, assim que chegar, farei mais uma vez esse dever de casa para compreender esse novo ambiente em que estaremos inseridos.

O livro de Lidório possui uma primeira parte dedicada à apresentação dos conceitos e teorias: pressupostos teológicos tanto para a contextualização como para a comunicação; as teorias da comunicação; os conceitos de antropologia, cultura e homem; e o conceito de antropologia missionária. Finalmente, Lidório apresenta os métodos desenvolvidos na história da antropologia sobre pesquisas socioculturais e os padrões possíveis de interpretação. Como o foco é a antropologia missionária, Lidório já apresenta os temas sempre mostrando não apenas as aplicações e implicações dessas teorias no Campo com histórias e exemplos, mas, principalmente, mostra como que a antropologia missionária difere da Acadêmica. Antes de apresentar os roteiros para a sondagem da cultura, o livro ainda trata dos temas da Fenomenologia da Religião, Magia e Totemismo, ritos e Mitos.  

Mas é na segunda parte do livro que encontramos o material mais interessante e prático para o missionário que trabalha com uma cultura alheia a sua num Campo: os métodos Antropos, Pneumatos e Angelos. O primeiro visa dar ao missionário uma ferramenta que o ajude na compreensão da identidade sociocultural do povo; o segundo ajudará o missionário a pesquisar sobre os fenômenos religiosos do povo; o terceiro ajudará na comunicação do Evangelho de uma maneira compreensiva àquela cultura na qual o missionário trabalha a partir de tudo o que o missionário já vem estudando ali.

Ainda na seção conclusiva do livro, Lidório ajudará o missionário apresentando um método de aprendizado de línguas (Dialektos), além de mais alguns tópicos, além de outros estudos de caso. Um livro obrigatório a todo missionário transcultural.  

A vida entre os Antros - Clifford Geertz

“Qual a ideia por trás do fato social?” é a perspectiva mais impactante para a antropologia depois dos anos 60 e que inovou num campo dominado pelo estruturalismo e pelo neoevolucionismo na Academia.

Clifford Geertz é o antropólogo americano que apresentou suas teorias em duas frentes para análises de Campo: por um lado, o estudo simbólico atrás do significado cultural que se revela no estudo das cosmogonias, mitos, ritos e hierarquias presentes na economia diária do povo; por outro, o estudo hermenêutico, buscando a interpretação por trás dos fatos sociais do povo.

A vertente fundada por Geertz ficou conhecida como Antropologia hermenêutica ou interpretativa. O antropólogo, para Geertz, deve ir muito além da descrição dos fatos sociais: ele deve buscar os significados por trás desses fatos. Mas o que mais tem me atraído às teorias de Geertz é o fato da importância que ele dá à Cultura, especialmente às culturas complexas, multifacetadas e multiétnicas e plurirreligiosas. Porém, ao lado dessa perspectiva cultural, ele coaduna o papel do indivíduo como sujeito histórico, agente histórico de transformação. Além disso, Geertz trás para a Antropologia o auxílio da psicologia, da literatura, da filosofia e da semiótica.

“A vida entre os antros e outros ensaios”, da Editora Vozes, publicado em 2015, na Coleção Antropologia, mostra Geertz em toda sua dimensão e inteligência. Ele “falava e lia em árabe, dois ou três dos incontáveis dialetos indonésios, alemão, francês, espanhol, uma ou duas frases em japonês”. A especialidade dele, se assim posso expressar, é o mundo islâmico, o mundo árabe e a diferença entre um e outro. Os seus escritos discorrem sobre povos que foram atingidos pelo Islã, mas que guardam em si a tensão de ver conviver em seus territórios e governos tanto cristãos, como protestantes, católicos, hindus, mórmons e as muitíssimas expressões religiosas nativas. Aqui, nesse ponto, minha atração torna-se evidente, pois muito mais completo e investigador é Geertz do que, por exemplo, Lévi-Strauss, quando tentamos trabalhar com as realidades indígenas no Brasil, realidades também sob a tensão de uma sociedade plural.

Dentre os vários ensaios presentes no livro, quero destacar, primeiramente, todos os que descrevem Marrocos e a Indonésia, alvos de décadas de pesquisa de Geertz e que me deixaram com aquela sensação de “inteligência humilhada”, pois não há assunto algum na minha vida pessoal ou acadêmica que eu domine de maneira tão vasta e profunda como Geertz o faz quando se debruça a entender as sociedades árabes e muçulmanas. O conhecimento histórico, religioso, social, político dessas sociedades revelam um antropólogo estudioso, dedicado e profundo.

O ensaio sobre Malinowski, importantíssimo antropólogo da virada do século XIX para o século XX, mas que Geertz revela algo um tanto inusitado de sua personalidade: sua profunda antipatia e preconceito com o Campo no qual atuava. Malinowski deixou diários em que narra toda sua falta de tato e sua relação nada antropológica com os povos em que trabalhava e que, surpreendentemente, superou sua falta de identificação com o povo sendo incansável na sua disciplina diária de pesquisa. Ele produziu mais de 2.500 páginas de pesquisa fazendo exatamente o contrário do que tanto é ensinado hoje nas Academias – em nada se identificando com o nativo.

Outro ensaio, “Sobre a devastação da Amazônia”, muito especial para mim, pois é sobre um dos livros mais impressionantes que já li acerca das atrocidades cometidas contra povos indígenas, chamado “Trevas no Eldorado”, de Patrick Tierney, fruto de uma pesquisa que durou mais de dez anos e que trouxe um escândalo para a Associação Americana de Antropologia ao divulgar os usos e abusos de antropólogos e cientistas na dizimação do povo Ianomâmi na Venezuela, narrando experiências de eugenia e aliciamento sexual. O título do livro produzido pela Ed. Vozes remete exatamente a este ensaio específico:



Particularmente, o ensaio mais importante é o “Mudando objetivos, movendo alvos”. É aqui que Geertz faz uma apresentação do seu método de trabalho e suas teorias simbólicas e hermenêuticas. Mostrando suas influências – C.S. Pierce, Ferdinand Saussure, Gottlob Frege e Roman Jakobson – Geertz narra seu pensamento sobre os “sistemas de significado” ou “sistemas culturais” para se compreender e ordenar a comparação das religiões. A primeira linha de pensamento, portanto, é a “autonomia de significado”.

Diz Geertz que “significado não é um tema subjetivo, privado, pessoal, “na cabeça”. É um tema público e social, algo construído no fluxo da vida. Trafegamos por sinais em plein air, no mundo onde está a ação; e é nesse trafegar que o significado é produzido”. Aqui é importante notar que o significado é “falado” (não necessariamente pela boca), é narrado nos gestos, comportamentos, na condução para significar.

A segunda linha de pensamento é  “a de que o significado é materialmente incorporado, de que ele é (...)formado, transmitido, compreendido, emblematizado, expresso, comunicado, por meio de signos ponderáveis, perceptíveis e compreensíveis; dispositivos simbólicos, ritos de passagem ou encenações da paixão, equações diferenciais ou provas de impossibilidade, que são seus veículos”. Geertz conclui este ponto chamando a atenção para o fato de que o que torna um dispositivo “religioso” não é sua estrutura, mas seu uso. Assim, o antropólogo precisa estar atento a todo esse “equipamento para viver” construído pela cultura.

Finalmente, a terceira linha é a que aquilo que verdadeiramente importa, que, de fato, interessa e que vai revelar esse “equipamento para viver” é quando “nossos recursos culturais falham, ou começam a falhar. É no meio da confusão insolúvel, do sofrimento inelutável, do mal invencível, que veremos a religiosidade intervir.

Para o parágrafo anterior, é caso comum já no trabalho com povos animistas que, até mesmo pastores oriundos do animismo, quando se deparam com situações extremas – doença incurável de filhos, por exemplo – na madrugada, longe dos olhos de suas congregações, se dirigem aos antigos pajés e feiticeiros para solucionar seus problemas. Enfim, como antropólogos cristãos e missionários precisamos estar atentos a esses limites, pois é ali que se manifestará, verdadeiramente, a apreensão ou não da cosmovisão evangélica.   

Trevas no Eldorado - Patrick Tierney

De todos os livros que já li sobre a questão indígena, indubitavelmente este é o mais chocante de todos. Trata de um escândalo entre os Ianomâmis da Venezuela. Uma reportagem-denúncia, publicada em 2002, que durou 10 anos para ser concluída e, antes mesmo de sua publicação, rendeu as seguintes manchetes: antropologia machista (Salon), a antropologia entra na era do canibalismo (The New York Times), antropólogos loucos (The Nation), os danos das incorreções antropológicas (The National Review), a antropologia é má? (Slate), ianomâmis: o que fizemos com eles? (Time); “cientista” matou índios amazônicos para testar teoria racial (The Guardian). Até casos documentados de antropólogo que aliciou meninos e meninas indígenas para práticas sexuais estão no livro. Um alerta para que não esqueçamos que a ciência também é feita por seres humanos caídos. Nada é neutro no Reino humano...

Duas Narrativas Fantásticas







Fiodor Dostoieviski
Editora 34
128 Páginas




"Designadas pelo próprio autor como "narrativas fantásticas", as duas novelas aqui reunidas foram publicadas pela primeira vez nas páginas do Diário de um escritor, publicação mensal redigida por Dostoiévski entre 1876 e 1881. 
Em A dócil, um homem desesperado refaz, diante do cadáver da mulher, a história de seu relacionamento, tentando compreender passo a passo as razões que a levaram ao suicídio. Já em O sonho de um homem ridículo, o narrador, a ponto de acabar com a própria vida, adormece na poltrona diante do revólver carregado. Principia então um dos sonhos mais extraordinários da história da literatura, durante o qual Dostoiévski anuncia a possibilidade de uma vida utópica em outro planeta antes de seus habitantes serem contaminados pelo veneno da autoconsciência. 
Ambas as narrativas partilham da mesma "introspecção verrumante" que Boris Schnaiderman apontou no protagonista de Memórias do subsolo, livro com o qual estas obras mantêm grande afinidade. Tanto lá como aqui, o escritor russo submete a forma do monólogo a tal intensidade dramática, que o resultado ultrapassa as fronteiras daquilo que nos acostumamos a chamar de literatura."


Hípias Maior - Platão (série Estética)

“Qual o critério para reconheceres o que é belo do que é feio?”, pergunta Sócrates num diálogo com Hípias. Hípias não percebe, mas está diante de um demolidor irônico até a última potência possível. As artimanhas que Sócrates apresenta para laçar o sábio Hípias vão desde um mar de lisonjas para cegar de vaidade o pobre Hípias, que como um tolo cai na armadilha, até a própria “ignorância” exageradamente alegada do próprio Sócrates, que se apresenta como alguém vítima de um maldoso oponente. Este o teria humilhado em público e, por isso, Sócrates estaria pedindo socorro ao sábio Hípias. Mais adiante, Sócrates confessará que esse tal "maldoso" mora com o filósofo em sua casa. Tudo isso faz desse diálogo uma verdadeira joia literária, que deveria ser lida por todo mundo que ama literatura.

Uma vez mais estamos diante do problema do belo, que, como em Lísis (aqui), começa sendo associado a um ser-humano: “o belo é uma bela jovem”! Para que Hípias não perceba que está em um embate, Sócrates pede que ele imagine que está discutindo com o homem que teria humilhado a Sócrates e que, em determinado momento, terá essa conversa sobre o belo. Assim, pergunta Sócrates, como você responderia a ele? Evidentemente é um recurso usado pelo filósofo para que Hípias venha desarmado ao combate e, evidentemente, não cobre financeiramente pelo discurso, pois estaria apenas ajudando o envergonhado e ignorante Sócrates.

Sócrates diz que seu oponente não quer saber sobre as coisas belas, mas sobre o próprio belo que as caracteriza: o que é o belo? Se o belo é uma bela jovem, então não poderiam ser consideradas belas todas as outras coisas que não fossem a bela jovem como as éguas, as liras e as panelas? A beleza é apenas para os seres humanos e não para as coisas? Mas e a relatividade da beleza? Pois, como dizem, o mais belo macaco comparado com uma bela virgem é feio, assim como a mais bela virgem comparada aos deuses é feia!

Então o que é o belo que empresta a beleza às coisas belas? O ouro? E o grande escultor Fídias que usou marfim? Suas obras são feias? Hípias, enfim, responde que belo será o “mais indicado”, “o mais conveniente”. Sendo esse o critério, para a comida o melhor é a colher de pau do que a de ouro que danifica o sabor do alimento!

O que seria belo a todos? O que seria belo a todos os seres humanos, em todos os lugares e culturas? É possível? Hípias responde que o que há de mais belo, universalmente, “é ser rico, gozar de saúde, ser honrado pelos Helenos, chegar à velhice e, assim como sepultou condignamente os pais, ser sepultado elos filhos, por maneira bela e suntuosa”. Mas essa experiência nada tem de universal!

O problema com a conveniência é que ele tornaria as coisas belas ou com aparência de belas? Porque para tornar as coisas belas, o conveniente precisa ser belo, mas a beleza é algo e a conveniência é outro, portanto ao conveniente resta apenas dar aparência de belo e não é isso o que eles estão procurando.

Finalmente, Sócrates coloca que é belo o que é útil. Mesma tese já trabalhada em Lísis: belo é aquele que é capaz de fazer alguma coisa de útil, feio é o que é incapaz de fazer algo de útil. Contudo, pergunta Sócrates a Hípias, mas e se alguém for capaz de fazer algo de útil para o mal, por ser capaz de fazer assim, então, seria belo? Assim voltamos a Lísis, em que o belo é o útil para o bem (o belo moral) – kalos te aghatós. Mas se é belo o que é para o bem, então o belo é o pai do bem, mas o bem não pode ser a causa e o causador ao mesmo tempo, logo o bem e o belo são distintos: nem o belo é bom, nem o bom é belo!

E se denominássemos, indaga Sócrates, belo o que nos proporciona prazer, não qualquer prazer, mas o prazer que nos vem pelos olhos e pelos ouvidos? Evidentemente, em algum ponto desse caminho agora escolhido, Sócrates e Hípias terão que retornar. Seria o belo o prazer útil? Não qualquer prazer, mas aquele vindo pelos ouvidos e pela vista. Não só isso, mas o belo é o prazer útil para o bem, mas o bem é o critério para se identificar o belo? É o bem então o belo? Mas já vimos que isso não pode! Portanto, no fim do diálogo, Sócrates concorda com o provérbio que diz que o belo é difícil!

Assim como a filia discutida em Lísis, o belo se encerra sem uma definição: sabemos o que não é a amizade e o que não é o belo, mas o que sejam, enfim, não sabemos! Será Sócrates apenas um pavimentador da metafísica de Platão? Sinceramente, após a leitura destes dois diálogos, não é de todo improvável imaginar que Sócrates fosse apenas um personagem criado por Platão para preparar o mundo para a chegada da sua metafísica.

A Guerra do Paraguai







Luiz Octavio de Lima
Editora Planeta
448 Páginas




"Um épico latino-americano de interesse universal. Maior confronto armado da história da América do Sul, a Guerra do Paraguai é uma página desbotada na memória do povo brasileiro. Passados quase 150 anos das últimas batalhas deste conflito sangrento que envolveu Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, o tema se apequenou nos livros didáticos e se restringiu às discussões acadêmicas. Neste livro, fruto de pesquisas históricas rigorosas, mas escrito com o ritmo de uma grande reportagem, o leitor poderá se transportar para o palco dos acontecimentos e acompanhar de perto a grande e trágica aventura que deixou marcas profundas no continente sul-americano."

É possível amar nossos inimigos? Lísis - Platão (série Estética)



                Embora minha leitura de Lísis busque o aspecto da construção da estética platônica, é impossível ficar impassível aos outros temas que são apresentados e desenvolvidos na obra.

                Um dos temas discutidos no livro e que me causou grande surpresa foi o tema do “amigo utilitário”. Há exatamente 9 anos, enquanto fazia o curso do CLM da Missão ALEM, mais precisamente nas aulas de antropologia, fui apresentado a esse tema. É a ideia de que somos amigos de quem tem algo a nos oferecer. Ficamos todos nós, alunos, escandalizados com a ideia de que outros só seriam também nossos amigos, enquanto tivéssemos algo a oferecer a eles.

                Quem são nossos amigos? Analisando de maneira fria e sinceramente, nossos amigos são aqueles que têm algo a nos oferecer. Sejam nossos progenitores, que garantem nossa sobrevivência; seja nossa namorada ou esposa, que nos garantem sentimentos e favores de atenção e sexo; sejam amigos, que nos contemplam com elogios ou críticas, ajudando assim na nossa formação e no encaixe social. Em outras palavras, não há o “amigo gratuito”.

Não é difícil olhar o oposto para se entender melhor o que se fala aqui. Você amaria uma esposa que prefere estar envolvida com outros homens do que com você? Você seria amigo de quem está planejando te roubar e denegrir o seu nome na sociedade? Você daria seu afeto a quem lhe ignora? Como disse, é preciso frieza e sinceridade para enfrentarmos a verdade óbvia dessas perguntas.

Quem pode ser chamado de amigo, quais são as causas da amizade, do que alguém é amigo são os temas da obra de Platão, que tem como principal personagem Sócrates. A “filia” (φιλíα) está na berlinda. A “filia” que possui em grego tantas acepções: gostar, amar, ser amigo, adorar, estimar, querer bem e, veja só, até beijar! Mas é neste diálogo que Platão trás a questão da relação entre o belo e o bem (a chamada kalocagatia: kalos te agátós). Lísis mesmo será descrito como belo e bom. Tudo que é um bem é belo? E tudo o que é belo é um bem? E é aqui que começa uma discussão que se estenderá numa série de outros livros platônicos: o que é belo? A beleza pela beleza? A beleza moral? A beleza moral conjugada com a física? A beleza útil? O objeto ou a pessoa que serve, que por servir, é bela? O que é belo depende do que o causa ou da sua finalidade? Ou que define a beleza é o meio, o seu caráter pedagógico? Enfim, são muitas as perguntas que Platão colocará à mesa em seus livros.

Retorno ao tema do “amigo utilitário”, pois 3 coisas podem ter ocorrido nos últimos anos comigo: 1) mudei da primeira leitura deste livra para cá (li esse diálogo há 18 anos); 2) atentei melhor aos argumentos de Platão, principalmente à luz da Palavra de Deus; e 3) abandonei a concepção negativista e pejorativa associada à palavra “útil”.

Como a gente muda! O meu cristianismo tomou uma nova direção nestes anos, eu amadureci, li mais e, evidentemente, vejo com novos olhos os argumentos de Platão. Nesta última leitura, convencido pela maneira como Platão trata a palavra “útil”, vi que não precisava vê-la carregada de imoralidade. Em outras palavras, dizer que alguém é “útil” para mim não é mais nenhum traço de psicopatia, mas é apenas descrever o óbvio da vida real: amamos aqueles que se empenham em oferecer de si mesmos o seu melhor a nós! Procuramos ser amigos daqueles que se comprometem em ser fiéis, leais, prestativos, sinceros, etc. Ou como Sócrates coloca: amamos a quem nos é familiar. Ou, segundo Tomás de Aquino, amamos quem ama as mesmas coisas que a gente ama e que rejeitas as mesmas coisas que rejeitamos! Ninguém quer ter como amigo um encosto, um sanguessuga, um aproveitador, um vampiro espiritual! Queremos perto de nós pessoas que se comprometam conosco. Nada mais humano e normal do que isso! Assim, aquilo que outrora me escandalizou nos outros e em mim mesmo, hoje já não escandaliza mais.

Contudo, como cristão, ecoou durante toda a leitura do livro o texto de Mateus 5: 43-45. É possível amar os inimigos? Em Lísis, para Sócrates, há uma contradição aqui, pois o inimigo não me é útil! Ele não me ama, ele não se comprometerá comigo, ele não andará uma légua a mais e nem me emprestará a sua capa em noites de frio. Enfim, o inimigo não é alguém com quem eu possa contar. Não há nada nele que me atraia. Ao contrário, o inimigo é sempre alguém suspeito, que não quero e não posso mantê-lo por perto, muitas vezes, até mesmo por uma questão de segurança por minha própria integridade física. Então, para Platão, amar o inimigo é uma aporia. “É impossível alguém ser inimigo do amigo e amigo do inimigo”, dirá Sócrates.  

O problema é que Jesus ordenou ao seu discípulo que devemos amar os nossos inimigos! E aqui fica patente que a “filia” socrática não dá conta desse universo cristão. Não cabe na lógica de Sócrates, mas cabe no ensino de Jesus! E a explicação só pode ser encontrada fora de mim e fora do outro, pois não há nem semelhança e nem familiaridade minha com meu inimigo. Daí Jesus usar outra palavra: ágape! Onde a filia não cobre, não paga a dívida, não vê semelhança e nem utilidade, o ágape se instaura, se manifesta, revela-se.

Jesus me é familiar, é-me próprio, fez-se semelhante a mim, que era inimigo dEle. Por isso, eu farei o que é próprio (familiar) a Jesus: morrer por quem não morreria por mim! Não por causa do outro, mas por causa de Jesus. A resposta a Sócrates, portanto, não está na lógica da erística, que tende à aporia. A resposta a Sócrates está na Cruz de Cristo num amor que chama de amigo a quem é inimigo e o trás para dentro, tornando o inútil em irmão, o inimigo em amigo, o abominável em amável, o filho da Ira em filho de Deus! Ágape é uma palavra que não aparece em Lísis. 

Para conhecer minha Bibliotheca de Semiótica, clique aqui!

Bartleby, o Escriturário - Coleção Novelas Imortais [***]








Herman Melville
Editora Rocco
96 Páginas




"Idealizada por Fernando Sabino, a coleção Novelas Imortais – que a Rocco relança com novo e ousado projeto gráfico, agora pelo selo Rocco Jovens Leitores – reúne narrativas breves de autores de grandes clássicos universais, como Miguel de Cervantes, Herman Melville, R. L. Stevenson, Gustave Flaubert, Henry James, entre outros. São pequenas obras-primas da literatura selecionadas e apresentadas pelo escritor mineiro que voltam às prateleiras com o objetivo de difundir obras menos conhecidas, mas não menos geniais de grandes escritores, agora ao alcance dos jovens brasileiros. Autor de Moby Dick, ou a baleia branca, seu livro mais conhecido, e de várias outras obras de ficção importantes, mas consideradas demasiado intensas por seus contemporâneos, Herman Melville (1819-1891) é também o criador da emblemática novela Bartleby, o escriturário, que conta a história de um escrivão que se recusa a fazer os trabalhos solicitados pelo patrão, menos por desobediência ou insubordinação que por hábito, com a simples justificativa “Prefiro não”. O posicionamento de Bartleby, que subverte a ordem das coisas e mergulha num estado crescente de abulia e alienação que tem a morte como único desfecho possível, e a curiosa reação de seu superior, que não o demite, desconcertam o leitor e o levam a uma profunda reflexão."


O Zelo Evangelístico de George Whitefield [***]





Steven J. Lawson
Editora Fiel
160 Páginas



"Em um período sombrio de declínio espiritual na Inglaterra do século XVll e início do século XVlll, George Whitefield, conhecido como o grande pregador itinerante por sua notável mensagem que acendeu fogo de avivamento em dois continentes, irrompeu como raios de um céu sem nuvens. Um evangelista incansável que unia teologia profunda a um zelo ardente de ver os perdidos salvos, Whitefild cruzou oceanos e viajou milhares de quilômetros para proclamar o evangelho de Cristo. Ao fazê-lo, despertou um reavivamento como nenhuma igreja nunca conheceu. George whitefiel era um homem de piedade singular e teologia profunda, cuja devoção a deus o levou a arriscar tudo o que tinha para pregar Cristo."

Viagem ao Brasil - Hans Staden

Após assistir ao filme “Hans Staden” (https://www.youtube.com/watch?v=xBztbsC8WU8), fascinado por este personagem inacreditável, corri para pesquisar mais sobre ele e descobri muita literatura sobre sua vida, até mesmo uma adaptação infanto-juvenil de Monteiro Lobato ambientada no seu Sítio do Pica-pau Amarelo.

A “Viagem ao Brasil”, escrito pelo próprio Hans e publicado em 1557 (dois anos após sua viagem ao Brasil) narra as aventuras desse cristão desde sua saída do Velho Continente até seu regresso. O filme cobre do capítulo 17 até o capítulo 51 do livro. E, após ler o livro, fica-se com aquela velha certeza que o livro é bem melhor do que a adaptação feita para o cinema, embora o filme tenha muitas qualidades, entre elas, ser quase todo falado em Tupi e mostrar costumes, danças e músicas indígenas. Mas, por exemplo, também peca por introduzir coisas que simplesmente não foram narradas por Hans (pelo menos não neste livro, pode ser que ele tenha escrito outras narrativas, não sei).

Por que fui assistir ao filme que me levou ao livro? Ao que tudo indica, ano que vem, estarei trabalhando com povos de culturas e línguas bem diferentes das quais trabalhei anteriormente no Xingu. Trabalhei com línguas da família karib. Estas são línguas, cuja família não apresentam características suficientes nem para pertencer ao Tronco Tupi e nem ao Macro-jê (ver https://pib.socioambiental.org/pt/c/no-brasil-atual/linguas/troncos-e-familias), são bem diferentes da que vamos trabalhar.

A língua com a qual trabalharemos a partir do ano que vem pertence ao tronco Tupi, que é o mesmo tronco ao qual pertence a língua com que Hans Staden entrou em contato no Brasil. Como começamos a estudar a língua Kaiowá/Guarani, isso me levou ao filme, que me levou ao livro. Contudo, ouvindo o filme e lendo o livro, surpreendi-me com a existência de morfemas e palavras semelhantes e até de mesma função morfológica que vi nas línguas karib. Tudo isso para mim é muito fascinante!

O livro de Hans vale sua leitura por várias razões:

1) A narrativa é muito prazerosa e dinâmica;
2) Hans é um cristão sincero, alvo da misericórdia e providência divinas;
3) O livro foi escrito para glorificar a Deus pelo livramento de Hans;
4) É um dos documentos históricos mais antigos sobre o Brasil;
5) Não sei como está em outras edições, mas a edição que eu li possui 3 características sensacionais. A primeira é a apresentação interessantíssima feita pelo amigo do pai de Hans, que também corrigiu o manuscrito original; a segunda é que a minha edição está escrita num português de 1900 e, para um amante da filologia como eu, é simplesmente um charme à parte ler “sahir”, “assucar”, “commigo”, etc; e, por fim, e o melhor, é que as notas de rodapé culturais e linguísticas são de uma preciosidade ímpar! Estamos habituados a saber que há em nossa língua muitas palavras indígenas, mas o autor das notas de rodapé, além de restaurar a grafia do Tupi de Hans Staden, vai traduzindo as palavras. Uma deliciosa aula!

Por tudo isso, deixo aqui o link da edição que eu li: https://tendimag.files.wordpress.com/2012/12/hans-staden-viagem-ao-brasil-1930.pdf
Boa leitura!

A Cidadela [***]








A. J. Cronin
Editora Best Seller
532 Páginas


"Romance que consagrou Cronin no mundo literário. A cidadela marcou época ao ser transformado em filme por King Vidor. O escocês Archibald Joseph Cronin era médico e membro do Royal College of Physicians. respeitada associação da classe médica no Reino Unido. O autor descreve as condições de trabalho do início do século XX e relata de um modo estarrecedor as dificuldades e tragédias ocorridas nas minas de carvão inglesas. O protagonista é o jovem médico Andrew Manson. que inicia sua prática profissional numa pequena aldeia do País de Gales. Drineffy. Dr. Manson dedica-se de forma intensa aos seus doentes. pondo em prática todo o idealismo de um jovem médico. Casa-se com a professora Christine Barlow. e mais tarde o casal parte para Londres. Na cidade grande. Andrew entra em contato com a classe médica conceituada que atende exclusivamente aos mais ricos. O texto de Cronin evidencia o drama das escolhas éticas na prática da medicina. Um tema ainda muito atual: o confronto entre integridade profissional e as tentações materialistas."

Cristianismo Puro e Simples








C. S. Lewis
Martins Fontes
336 Páginas



"Durante a Segunda Guerra Mundial, a BBC convidou C. S. Lewis para fazer uma série de palestras pelo rádio. Foram programas que, ao final, deram um sentido novo à vida de milhares de adultos de todas as classes e profissões. O livro 'Cristianismo puro e simples', que colige essas preleções legendárias, veio a ser considerado a mais popular e acessível de todas as obras de Lewis, lembrando-nos daquilo que é mais importante na vida e apontando-nos o caminho da alegria e do contentamento."

Morte em Veneza [**]








Thomas Mann
Editora Saraiva
70 Páginas



"'Morte em Veneza' aborda o fascínio mortal que a beleza física pode exercer. Gustav von Aschenbach é um escritor que, diante da pouca aceitação de suas últimas obras, decide viajar para Veneza para descansar. Já na cidade, depara-se com o belo inatingível, a perfeição estética do adolescente Tadzio, por quem se apaixona platonicamente. O velho escritor passa a vagar pelos decadentes, inspiradores e famosos canais venezianos, seus dias girando em torno da visão do rapaz, o que o impede de dar atenção aos boatos que circulam a respeito da epidemia de cólera que assola a cidade."

O Pequeno Livro dos Mortos [***]






Sammis Reachers
Editora do Autor
88 Páginas



"Seja bem-vindo a esta pequena jornada, amigo leitor. Aqui o humor, o terror, o conto de espionagem, a ficção científica, a fantasia borgeana e a crônica (sub)urbana, com seu traçado agridoce e enlameado de poesia e violência, são os vagões, os gêneros desse comboio, desse trem de memória e invenção de que valho-me para visitar e emoldurar meus mortos. Ficção e realidade interpenetradas, perdição e redenção amalgamadas num caudal de cores de inusitada composição, para falar dos muitos mortos que perdi e ganhei, amigos e não-amigos, reais e imaginários, e suas mortes físicas mas algumas vezes também espirituais. Mortos que precisam de uma voz, prontos para revelar suas histórias de crueza e beleza, e de um como que encantado desencanto."

Desgarrados [*]







Eda Nagayama
Cosac & Naify
128 Páginas

"Uma mulher evangélica perde a fé e, ovelha desgarrada, sai em busca de respostas para sua vida. Com uma linguagem poderosa e original, feita de fragmentos de frases, Nagayama confere tensão incomum à narrativa, expondo as emoções mais íntimas com inusitada intensidade." 



Conversando com C. S. Lewis [***]







Alister McGrath
Pórtico Editora
163 Páginas 

"Você já imaginou como seria conversar com C. S. Lewis sobre diversos
assuntos polêmicos? Você já pensou como seria uma entrevista
com ele, falando sobre assuntos atuais e o que ele pensa
sobre isso?"

AS Reminiscências de Um Blog [****]








Roberto Vargas Jr.
Amazon
268 Páginas

"Roberto Vargas Jr. escreveu seu blog, homônimo, com a intenção de "tentar colocar seus pensamentos em ordem". São reflexões despretensiosas de fundo teológico, filosófico e, claro, absolutamente pessoais. Este livro são as reminiscências desta experiência de blogar, um registro de um período que o autor considera de um aprendizado bastante relevante para sua jornada espiritual e intelectual, mesmo que, aqui e ali, seu pensamento hoje já não seja o mesmo que o da época em que os textos foram escritos."


A Gramática do Teu Corpo [****]










Fábio Ribas
Amazon
95 Páginas

 "Escrever é arriscar-se a perder o objeto que se quer prender no verso escrito... "A Gramática do Teu Corpo" expressa essa luta com a linguagem e seus limites, as possibilidades da poesia e suas frustrações, os limites da palavra e o que pode e não pode o signo linguístico. É a eterna luta entre o texto, a textura e a tessitura de um signo que labora entre o que projeta e o que é, de fato, real. Todavia, antes de tudo, este livro de poemas é uma declaração de amor à mulher amada."


Sermões – Leão Magno (série Patrística)

Leão recebeu a sagração episcopal em 29 de setembro de 440. Tento imaginar como era o seu tempo: as diversas hordas bárbaras invadindo o Império Romano, o declínio político de Roma, as diversas heresias que ressurgiam dentro do Cristianismo e a insubordinação da Igreja Oriental às tentativas de Leão em estabelecer a supremacia do bispado de Roma, por meio do papado, sobre as demais igrejas. Assim, é surpreendente que Leão seja exatamente a pessoa que a História precisava naquele momento e naquela posição: culto, teólogo firme e diplomata.

Em seus sermões, 2 pontos me chamaram a atenção: 1) sua firmeza teológica diante das inúmeras heresias que ressurgiam no Cristianismo; 2) os seus sermões confirmam a razão pela qual o Cristianismo desenraizou o paganismo do Império Romano, a saber, a prática da misericórdia.

Os escritos de Leão sobre as duas naturezas de Jesus, sobre a Trindade e o Espírito Santo são de uma clareza e paixão inegáveis. Leão é um apologista apaixonado pela Trindade e domina a linguagem a ponto de perceber que ela deve ser forçada ao máximo para que a beleza do mistério cristão impacte a todos. Ele, portanto, se levanta contra os monofisistas do seu tempo: escreve contra os arianos, os maniqueus, contra Apolinário, pelagianos, priscialianistas e tantos outros. Seus sermões deveriam ser leitura obrigatória nos Seminários cristãos, pois os estudantes seriam aprendizes de uma escrita que sabe coadunar verdade e beleza, como hoje pouquíssimo se vê nos púlpitos de nossas igrejas. Isto é maravilhoso: são sermões! Mensagens de um pastor às suas ovelhas! Sermões curtos, mas bíblicos. Curtos, contundentes, profundos e ousados, porque sabem que devem orientar não somente a fé, mas também a prática de suas ovelhas. E aqui se pode ver mais uma qualidade no Cristianismo do tempo de Leão que, mesmo entre as Igrejas Reformadas, ainda era comum até “ontem”: o ano litúrgico. Todos os sermões de Leão seguem os eventos do Ano Litúrgico e, lendo-os dessa forma, também percebo como que perdemos em qualidade expositiva e comunicativa ao abolimos o ano litúrgico, contudo, infelizmente, talvez esse seja um daqueles pontos em que a mudança cultural dite suas regras e não há nada o que possamos fazer para impedir. 

Muito se fala sobre o papel do martírio no crescimento da Igreja pela Europa, Norte da África e Oriente Médio, todavia, com o fim das perseguições aos cristãos a partir de 313, o impacto do Cristianismo sobre os pagãos se deu no amor que os cristãos tinham pelos pobres. Juliano, que subiu ao trono em 361, tenta em vão reavivar o paganismo no Império. É de Juliano a frase: “Esses galileus ímpios alimentam não apenas os seus próprios pobres mas os nossos também; nossos pobres não recebem nossos cuidados”. E para a continuidade da expansão cristã, essa caridade encontrará nos sermões de Leão o seu maior incentivador, assim, é inegável que, num tempo histórico tão conturbado, a Igreja tenha fincado os pés solidamente a partir de suas ações de misericórdia. Penso eu que a construção da civilização ocidental passa pelas obras de caridade operadas sobejamente pelos cristãos. As chamadas de Leão em seus sermões ao perdão das dívidas financeiras e à soltura de presos, sermões dirigidos a ricos e pobres, servos e príncipes, impactaram-me profundamente.

Todavia, as enormes diferenças entre a fé protestante e a fé romana já se estabelecem claramente. Não é à toa que João Calvino descreve Leão Magno nestas palavras: “Ora, ele foi um homem, tanto erudito e fecundo, quanto ávido de glória e domínio sem medida, mas é preciso indagar se porventura as igrejas de então deram crédito ao seu testemunho”. E a resposta é o próprio testemunho da história que, desde cedo, ainda no tempo de Irineu, já nos mostra duas culturas, duas línguas, dois mundos díspares e que conseguiram se manter juntos, ou ajuntados, enquanto puderam: a Igreja do Ocidente e a Igreja do Oriente. Ao mesmo tempo que Leão defendia a cristologia ortodoxa contra os monofisistas no Concílio de Calcedônia (451), ele rejeitou a decisão desse Concílio sobre a elevação de Constantinopla ao segundo lugar logo depois de Roma.

As investidas de Leão para se estabelecer como Primaz da Igreja, até mesmo trazendo para si o título romano de “Sumo Pontífice” (pontifex maximus), que era o título do sacerdote de Netuno que resolvia as questões religiosas na antiga Roma, não encontrou subordinação universal. Toda tentativa foi em direção de estabelecer o papado como a herança de Pedro, aquilo em torno do que a Igreja encontraria sua unidade: “negar o papa é negar a Pedro, negar a Pedro é negar a Cristo”, declarou Leão. Portanto, mesmo quando usa uma linguagem sobre a “unidade da Igreja” e “comunhão dos santos”, Leão está trazendo para si as prerrogativas para a sede romana. Na verdade, foi Damásio de Roma (366-84) quem primeiro declarou sobre Roma a primazia sobre as demais igrejas e o papado como herança de Pedro. Leão avança, preparando o caminho para Gregório I (540-604).

A despeito desse pano de fundo histórico, o que me interessa é observar a questão da misericórdia cristã em seu aspecto mais profundo e que tange o sincretismo. Já notei que, no meu entendimento, a misericórdia cristã foi a grande força destruidora do paganismo (até mais do que o sangue derramado dos cristãos). E os sermões de Leão são contundentes nessa área, todavia, há uma motivação contrária à fé reformada: essa misericórdia é uma garantia de salvação! E como o Cristianismo chegou a esse ponto é o que me interessa particularmente, não apenas porque saber isso ressaltará as posturas diferentes entre o romanismo e a Reforma, mas também ajudará a compreender a própria condição da Reforma Protestante nos dias de hoje e os perigos dos reformados sucumbirem (se é que já não o fizeram) aos seus próprios sincretismos com o quais as diversas culturas sempre pressionam o Evangelho em cada geração.

Mas não acredito que este blog seja o espaço para entrar nestes pormenores, então, os publiquei aqui. Como este espaço é mais para resenhas ou comentários sobre livros que lemos, gostaria ainda de chamar a atenção para a interpretação de Leão sobre o que prefiguraria a cena de Simão Cirene ajudando Jesus e a redução dos três dias da morte de Jesus. Enfim, “Sermões” é mais uma daquelas leituras imperdíveis para se entender a visão romana de Cristianismo, mas que, por outro lado, ajuda-nos também a compreender a própria Fé Reformada. . 

Leia todos os textos que escrevi a partir da leitura de Leão Magno:

Ambrósio de Milão - sobre a penitência (série Patrística)

Quis falar sobre este livro à parte por ser ele de uma argumentação e beleza singulares no contexto histórico em que está inserido. Todo este livro e tudo que será tratado repercute uma experiência que, ao meu ver, foi traumática para a Igreja: o cisma de Novaciano.

Mais uma vez na história, teremos dois lados e ambos estarão certos e errados em seus posicionamentos. A postura de não aceitar a penitência, pois a graça de Deus perdoaria os pecados, encontra guarita no pensamento da Reforma Protestante que viria tanto tempo depois. Por outro lado, a dureza em relação aos apóstatas arrependidos, exigindo-lhes um rebatismo e não meramente uma confissão pública, a divisão da Igreja e a aceitação de ter sido eleito como líder da nova Igreja surgida do cisma, tudo isso depõe contra esses que foram chamados de “puros”, palavra que vem de “cátaros” no grego. Os novos puritanos foram assim chamados por não concederem o perdão e não aceitarem que a igreja romana também assim o fizesse com os apóstatas arrependidos. Eles passaram a rebatizar seus convertidos.

Tento entender o que aqueles cristãos viveram debaixo daquelas 3 grandes perseguições antes de Galério lançar o Edito da Tolerância (311). A história conta que Decio (250) perpetrou a maior perseguição oficial e que, pela primeira vez, envolveu todo o Império. É por causa desta perseguição que Orígenes morre após sofrer tortura. Decio obrigou que todos os cidadãos o adorassem e prestassem culto de ações de graça para que, por meio disso, provassem sua lealdade a Roma. Muitos cristãos compraram esses documentos para que pensassem que fizeram os sacrifícios exigidos. Nesses cultos eram feitos sacrifícios e quem deles participasse recebia um documento comprovando ter se submetido a esse evento religioso e civil. A história diz, porém, que a maioria dos cristãos optou por fazer esse sacrifício para não morrer. É impossível que uma experiência como essa não tenha marcado indelevelmente o Cristianismo! Mesmo após a morte de Decio, houve ainda grande perseguição debaixo de Valeriano, que com vários editos acirrou ainda mais a perseguição contra os cristãos. Um último grande avanço esmagador contra a Igreja se deu com Diocleciano, que mandou que as casas dos cristãos e as cópias das Escrituras fossem queimadas. Em 313, Constantino encerra com um decreto a perseguição aos cristãos. É a partir desse contexto que precisamos ler a obra de Ambrósio.

Assim como o contexto histórico nos ajuda a avaliar o aparecimento dos novacianos e compreender os erros e acertos de ambos os lados, o mesmo contexto ajudará a perceber que o “papado” foi ao mesmo tempo uma construção e uma imposição às demais igrejas favorecida por várias questões exigidas naquele momento. Ainda que assim o tenha sido, o papado nunca foi aceito pelas igrejas do Oriente e, mesmo no Ocidente, sempre foi questionado por questões políticas, doutrinárias e morais. Exemplo disso é a controvérsia Quartodecimana que quase separa a Cristandade ainda no fim do século II.

Daí Ambrósio abrir seu livro tratando da moderação como a mais bela de todas as virtudes - é uma resposta clara aos novacianos, que só desapareceriam no século VIII. E o livro todo se apresenta como uma pérola da misericórdia que deveria ser lido por todo cristão. A tese de Ambrósio, que escreve muito bem e ainda nos presenteia com lindas frases de efeito, é que a moderação deve temperar a justiça (Ec 17: 16-17). A igreja não pode exigir uma penitência que não levará a uma indulgência. Toda penitência deve prever seu fim, sua indulgência. Quando, ao contrário, os novacianos se negam a perdoar, mostram sua heresia, pois foi dada à igreja o conceder o perdão.

Como podem os novacianos negar a misericórdia concedida por Deus (Os 6:6)? Jesus veio na carne do nosso pecado exatamente para a nossa redenção: ele tinha a nossa carne, mas sua carne não tinha nossos vícios, diz Ambrósio. 



Contra os novacianos, Ambrósio chega a apelar que os que são submetidos à tortura podem falar com a boca numa direção, enquanto o coração continua entregue ao Senhor! Se perguntássemos ao diabo sobre estes que cederam à tortura é certo que escutaríamos dele: este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim, diz Ambrósio! É usada a parábola da Grande Festa (Mt 22) contra os novacianos, pois estes estão negando que se entre na festa os coxos, os cegos e os aleijados (os fracos apóstatas arrependidos).

Parece que um dos argumentos dos Novacianos é que o homem não poderia perdoar os pecados por meio da penitência apenas pelo batismo. Daí eles rebatizarem os convertidos e negarem as penitências de Roma sobre os apóstatas arrependidos. Não é muito claro se há algo mais nestas penitências além da confissão dos pecados e uma postura de arrependimento públicas para mostrar a mudança de coração, associadas à prática do jejum.

Embora os novacianos pudessem estar certos quanto à inutilidade das penitências àqueles que já foram alcançados pela Graça, estavam totalmente errados quanto a não perdoar e a limitar essa mesma graça, tornando-a ineficaz diante do pecado da apostasia. E se os novacianos estão errados, Ambrósio no afã de apresentar seus argumentos também erra e abre caminho para o que, mais tarde, vai se desenvolver como uma das mais principais doutrinas refutadas na Reforma Protestante, a saber, a intercessão dos santos. Para Ambrósio, quanto aos pecados leves, cada um deve orar por si, mas quanto aos delitos graves, naqueles que o próprio Deus se mostra diretamente aborrecido, nestes a intercessão deve ser dos mais santos, dos mais justos (como foi no caso de Moisés e Jeremias diante do povo, argumenta Ambrósio). Tudo isso como resposta aos Novacianos que diziam não poder perdoar a quem nem Deus perdoa, dessa postura para o “quinhão de boas obras acumuladas pelos santos e que poderão ser contabilizadas nas contas dos pecadores mais miseráveis” será um pulo. 

Assim, vemos estabelecido o palco para a Reforma Protestante: a Igreja Romana crê na Cruz de Cristo para o perdão do pecado que nos separa de Deus, mas o sangue de Cristo não cobre os demais pecados que virão a seguir na vida do fiel, por isso (veja que sequer se levanta a existência do purgatório) é preciso que as penitências cumpram sua função. Porém, os novacianos levantam a questão do “pecado imperdoável”, aí Ambrósio contra-argumenta que, biblicamente, houve a intercessão de homens mais santos para cobrir estes pecados abomináveis. Deve-se, portanto, apelar a estes...

O que me chama a atenção nisso tudo é ver como nascem os falsos ensinos, os ensinos equivocados. Temos de um lado os novacianos e de outro Ambrósio e em ambos podemos ver os acertos e os erros dos cristãos daquele período: a intercessão dos santos, a penitência para o perdão dos pecados, o surgimento do pontificado papal, o cisma da igreja, a dureza da ala puritana e o rebatismo para a salvação. Estamos chegando ao fim do século IV. 

Ambrósio de Milão (1ª parte) - série Patrística

Entre os escritos de Irineu e os de Ambrósio há um vão de quase 200 anos. Pesquisei e tentei entender o porquê desse vácuo na literatura cristã, mas o máximo que posso dar são suposições pessoais: 1) acredito que a série Patrística siga a Tradição latina e que, portanto, a produção grega não está sendo levada em consideração (será?); 2) a perseguição contra os cristãos piorou no 2º século; 3) o problema com os Novacianos causou um trauma na igreja martírica; e 4) após a conversão de Constantino, houve uma adaptação cada vez maior do cristianismo à sociedade envolvente.

O que vimos até Irineu foi uma Igreja fortemente combativa, mas os Novacianos (250), que tratarei melhor no próximo post, é o pano de fundo que, na minha opinião, dará o contexto e explicará a opção tomada pela igreja no terceiro século. O novacionismo tornou-se um movimento dos seguidores de Novácio, que se recusava a aceitar de volta os cristãos que, durante a grande perseguição do Imperador Décio, apostataram e sacrificaram aos deuses romanos para não morrerem. Entretanto, não foi apenas contra o novacionismo que Ambrósio vai escrever, mas também contra o arianismo e contra o bispo Apolinário de Laodicéia, que apresentava uma cristologia herética.

Uma nota surpreendente que devo fazer, pois mostra como o cristianismo do tempo de Ambrósio mudou substancialmente, é que, mesmo após a condenação do arianismo no Concílio de Niceia (325), por muito tempo a Igreja aceitou a alternância entre ortodoxos e arianos nas sedes episcopais. O arianismo negava a consubstancialidade do Filho com o Pai, logo Jesus não era Deus e, portanto, em algum momento teria sido criado. O arianismo avançou sobre a igreja do Oriente. O Concílio de Constantinopla (381) renova a condenação do arianismo.

Embora nos livros presentes neste volume da Patrística dedicado a Ambrósio de Milão, assim como nos anteriores, não haja nada que corrobore uma mariologia, um dos títulos de outro livro de Ambrósio é “Sobre a virgindade perpétua de Maria”. Aliás, Ambrósio escreveu outras duas obras sobre o valor da virgindade: “Exortação à virgindade” e “Sobre a instituição das virgens”.

No primeiro livro, “Sobre o símbolo”, Ambrósio trata sobre o símbolo da fé, que é o resumo dado pelos apóstolos. Ele atenta, criticando tanto a Igreja do Oriente como a do Ocidente, que não podemos acrescentar e nem tirar nada desse resumo. Aqui, para confrontar o patripassionismo, heresia que declara não haver diferença entre o Pai e o Filho, assim teria sido o Pai a sofrer na cruz, Ambrósio expõe uma linda defesa da Trindade, mostrando que a ortodoxia foi herdada dos apóstolos de Jesus.

Em Ambrósio está muito mais marcado a questão já do papado e deste vindo como herança de Pedro. Interessante notar também que a tríade se dá Jesus-Pedro-Papa, sendo que a palavra “vicário”, para Ambrósio, refere-se àquele que se encontra no lugar de Pedro (e não diretamente no lugar de Cristo). Para Ambrósio, o símbolo não deve ser escrito, pois deve ser decorado.

No livro, Ambrósio está dando pequenas aulas, exortações, na verdade, aos que foram batizados. O argumento que ele dá para explicar o sacramento do batismo depois de já tê-lo ministrado é que o justo não é salvo pelas obras, mas pela fé, assim como Abraão. Foi a fé que nos salvou, mas é preciso que sejamos “abertos” pelo ritual realizado pelo sacerdote durante o batismo para que os fiéis agora possam ser ensinados sobre tudo o que se deu no rito. Em outras palavras, o que aconteceu você recebeu pela fé, que é um presente de Cristo, e, por causa dela, recebeu o batismo sem compreender tudo o que foi feito (isto é o que Ambrósio está chamando de “pela fé”).

Ambrósio passa a explicar o rito do batismo em detalhes. O que me chama a atenção é um certo gnosticismo oficializado pelo romanismo. Há um rito de iniciação. Você não entende o que significa bem aquilo, mas se submete “pela fé”. A fé é um presente de Jesus, logo se submetem ao batismo não os que compreendem, mas os que foram chamados, os que possuem a “fé”. A compreensão fica para depois que você já passou pelo rito.

Ambrósio na sua interpretação fortemente alegórica trará todas ilustrações de batismo do AT para explicar o batismo cristão, todavia, e isto é muito importante, são sacramentos diferentes: os sacramentos instituídos por Jesus são mais sagrados e anteriores aos dos judeus! Quanto à Ceia, Ambrósio irá fazer uma diferença que Irineu já havia feito: “judeu” é o povo nascente em Moisés. Por que Ambrósio faz isso? Para explicar que os sacramentos cristãos, embora encontrem figuras no povo judeu, são superiores (porque aqueles eram sombras e a perfeição agora chegou com a Igreja) e mais antigos, pois são anteriores à formação da nação judaica em Moisés. A Ceia cristã foi dada como sombra em Melquisede e o batismo cristão no dilúvio com Noé.

Por que Jesus precisou ser batizado e por que a forma de batismo dele foi diferente do que a Igreja faz no tempo de Ambrósio?

Na sua exortação ao recém-batizado, Ambrósio explica que, primeiro, o sacerdote consagra a água e nessa consagração vem o ES e faz dessa água não mais uma água comum, porque ela realizará a purificação e santificação do batizado. Com Jesus, a ordem é diferente: Jesus entrou primeiro na água e só depois veio o ES, para que as pessoas não pensassem que Jesus precisava ser purificado. Todavia, Ambrósio está julgando o batismo de Jesus com critérios posteriores, assim como quem julga o passado por regras válidas no presente. O correto seria Ambrósio perceber que o batismo de Jesus tem um significado diferente do nosso batismo. O batismo de Jesus é um símbolo que aponta numa direção diferente da apontada pelo nosso batismo. A pergunta que se deveria fazer, uma vez percebido que a mensagem do batismo de Jesus é diferente, deve ser: qual é a singularidade daquela mensagem?

Não podemos esquecer que Ambrósio está tratando o batismo sob o evento histórico e traumático dos Novacianos. Estes não aceitavam que os cristãos apóstatas fossem recebidos novamente, uma vez que, para não morrer, se entregaram ao sacrifício dos deuses romanos na época da perseguição. Posteriormente, contudo, arrependeram-se e pediram para retornar à comunhão. Os apóstatas arrependidos eram submetidos às penitências devidas e depois reincorporados à comunhão pelo Bispo de Roma. Novaciano criou um cisma na Igreja, deixando-se eleger Papa contra o Bispo Romano. Os Novacianos entendiam, ao contrário de Roma, que, para os apóstatas serem recebidos de volta, eles precisavam ser novamente batizados. Daí surgirá toda a discussão sobre o que é o batismo, discussão que se estenderá até Agostinho, mas que já em Ambrósio encontra a tese de que o batismo, assim como a Ceia, é realizado pelo próprio Jesus e é irrevogável pelo que ele significa: o sinal e o selo da aliança, portanto irrepetível (assim como a circuncisão).

Até o tempo de Irineu, este deu testemunho da presença de sinais e maravilhas, já Ambrósio precisa justificar (170 anos depois) a ausência desses sinais: os sinais eram para os incrédulos, mas agora, na plenitude da Igreja, eles tem o privilégio da fé (I Cor 14:22). Ainda na descrição do rito do batismo, por mais de uma vez, Ambrósio se refere à estrutura de uma Igreja que se serve do modelo veterotestamentário convivendo com o modelo do Novo Testamento: sumo sacerdote, sacerdote, levita e presbítero são os nomes que aparecem durante o rito do batismo.

Ambrósio vai ligar o batismo à ideia da morte do velho homem, contudo não o faz associando o batismo à forma de sepultamento, como muitos fazem ao ler o texto de Paulo aos Romanos (6:4-5), ainda que no tempo de Paulo, assim como aconteceu com Jesus, o sepultamento fosse feito na pedra escavada e não no chão. Ambrósio, por outro viés, faz a ligação do batismo com o sepultamento pelo verso “Do pó (terra) vieste e ao pó (terra) voltarás”, afirmando que assim como a terra não lava, mas a água que sai da terra lava, a água é usada como ligação do homem à terra. Ao imergir na água aquela sentença de Gênesis é desfeita, pois o homem morre, mas sem o terror da morte. O batismo registrado por Ambrósio é por imersão, mas é tríplice: o fiel é mergulhado nas águas 3 vezes. Tudo isso para que o Pai, o Filho e o ES deem o seu perdão a todos os pecados outrora cometidos.

Assim que o fiel sai das águas, ele recebe na cabeça o unguento, para significar a regeneração do Espírito. Além do unguento na cabeça, logo após a saída das águas, na Igreja de Milão, ao contrário do que acontecia em Roma, o sumo sacerdote lava os pés do fiel. Ambrósio justifica sua desobediência à Roma, alegando que eles em Milão também sabem pensar ao ler as Escrituras (olha o sola scriptura aí rsrsrs) e que, ainda que não seja esse o costume em Roma, é claro que se deve lavar os pés, pois: “Se eu não te lavar os pés, não terás parte comigo” (João 13: 8). Para Ambrósio, além do exemplo de Pedro, o lava-pés ocorre porque foi a parte de Adão que Satanás insidiou. Finalmente, após tudo isso, pela invocação do sacerdote ocorre a infusão do ES, que é o que conhecemos hoje pelo nome de “crisma”. Parece que, literalmente, ainda antes do batismo, o sacerdote cobre os olhos do fiel com barro à semelhança do que Jesus fez com o cego no Evangelho de João.  

“Tudo que ele falou é mistério”, diz Ambrósio sobre o evangelho de João. Assim, mais uma vez, eu volto à tese de que houve um sincretismo nos últimos 170 anos entre Irineu e Ambrósio no que se refere ao gnosticismo. A referência de que a mensagem do Evangelho também era uma gnose, ainda que revelada e, por isso mesmo, superior às pseudognoses, recebeu uma ênfase que não havia até Irineu. A própria interpretação alegórica favorece esse significado oculto, místico, hermético das Escrituras, pois se a alegoria é o método de interpretação bíblico, evidentemente também o era para os gnósticos. Portanto, caberia indagar: entre uma alegoria e outra como saber qual a correta, uma vez que a alegoria é um método de certa maneira arbitrário? É evidente que a igreja precisará estabelecer que é ela quem tem a interpretação correta das Sagradas Escrituras!

No livro IV, “Sobre os sacramentos”, Ambrósio fará uma defesa da superioridade do sacramento da Ceia em relação ao sacramentos judeus apelando para a antiguidade: a ceia remete à Melquisedeque! Porque, para Ambrósio, a nação judaica começa em Moisés, daí ser importante para ele trazer a ligação com tudo o que é anterior, tanto para o batismo como para a ceia. Melquisedeque é Jesus que deu a Abraão a Ceia. Veja que, neste ponto, não há qualquer espaço para uma doutrina da transubstanciação. Por diversas vezes, Ambrósio parece realmente se referir a uma transubstanciação literal dos elementos ao longo dos livros, todavia, em todos esses momentos, logo após, ele traz alguma frase que aponta para o fato dele estar se expressando espiritualmente. O que dificulta e gera essa ambiguidade é a linguagem sempre alegórica de Ambrósio. Pois, como a própria Confissão de Fé de Westminster explica no Capítulo XXVII, Dos Sacramentos, II: “Em todo o sacramento há uma relação espiritual ou união sacramental entre o sinal e a coisa significada, e por isso os nomes e efeitos de um são atribuídos ao outro”. Assim, pode ser que realmente o que Ambrósio esteja fazendo seja apenas tomando os nomes e efeitos de um e atribuindo-os ao outro. O final do livro de Ambrósio “Sobre os mistérios” aponta nessa direção. 

No livro V, “Sobre os sacramentos”, Ambrósio passa a tratar da oração do Pai Nosso e interpreta que o “pão” da oração se refere à ceia do Senhor. Assim, na Missa (pois, embora sem uma realidade de transubstanciação, há o sacrifício espiritual e real de Cristo no rito da mesa), o fiel deve participar diariamente do pão, ao contrário dos gregos, que só participam uma vez por ano.

Quanto ao batismo, expressa-se claramente uma diferença quanto ao papel do rito na regeneração do fiel e o que é dito na Confissão de Fé de Westminster. Assim, é neste momento em que se deixa de ser uma mera diferença de linguagem e o símbolo deixa de ser um indicador, um sinal, passando a ser a própria realidade simbolizada. A água, verdadeiramente, para nada serve, até que tenha recebido a consagração do sacerdote e, com as palavras proferidas por ele, o ES vem sobre as águas e elas passam a ser mais do que meramente são:

CFW: “Dos Sacramentos”, V. Posto que seja grande pecado desprezar ou negligenciar esta ordenança, contudo, a graça e a salvação não se acham tão inseparavelmente ligadas com ela, que sem ela ninguém possa ser regenerado e salvo os que sejam indubitavelmente regenerados todos os que são batizados.

Uma das grandes sacadas de Ambrósio, e este tipo de leitura que ele faz me interessa tremendamente, é quando ele compara as "pombas" da Arca de Noé e aquela que desceu sobre Jesus no batismo. Ele irá fazer essa comparação para comprovar que a presença do ES no nosso batismo, embora uma presença invisível, é real.

Ambrósio argumenta que a pomba lançada por Noé é uma alegoria do ES naquele que foi uma figura do batismo, a saber, o dilúvio. Os sacramentos (batismo e ceia) cristãos são superiores aos dos judeus (Ambrósio entende o judeu como a nação nascida em Moisés), porque são mais antigos (Noé e Melquisedeque vieram antes de Moisés), contudo, são ainda só imagens, figuras, sombras da realidade que seria instaurada no NT.

Portanto, pode-se perguntar, diz Ambrósio: como que a pomba que veio sobre Jesus é mais real que a de Noé se esta era uma pomba de verdade e aquela era "em forma de pomba", isto é, sequer era uma pomba mesmo, apenas uma figura, uma aparência? Ora, como aceitar que a pomba de Noé é que era imagem e a que veio sobre Jesus é que era real, se sequer os olhos das testemunhas do batismo de Jesus podiam distingui-la direito?

Grande sacada de Ambrósio: a criatura só pode ser imagem, pois ela se dissolve, muda e passa, mas a divindade permanece para sempre. Aquela pomba em Noé, portanto, era apenas figura, mas aquela aparência que desceu sobre Jesus era a realidade, manifestada por causa dos incrédulos. Portanto, durante o batismo, a fé é chamada a ver a realidade da presença invisível do ES. Se em outros momentos, houve fogo caindo do céu e anjos revirando águas para que os incrédulos vissem, a fé, que é um presente superior, não precisa ver, pois sabe da realidade da presença do ES no batismo e da presença de Cristo na Ceia. Em suma: embora o essencial seja invisível aos olhos, a fé capta a presença da realidade divina que assalta este mundo nos sacramentos.

Todavia, como já foi dito, no batismo, a linguagem é ultrapassada no seu significado alegórico e simbólico e passa a ser a própria realidade indicada: para Ambrósio esta água lava dos pecados. E é interessante entender isso, porque esta é a porta aberta para se compreender a diferença entre a posição romana e a reformada. Pois o sangue da cruz e a água do ES lavam do pecado que nos tira da presença de Deus, todavia, se no sangue e na água é dado a nós apenas a entrada do céu, como apagar a dívida dos pecados cometidos depois de sermos salvos? Como ainda não existe a doutrino do purgatório, pois nenhum dos escritos até aqui o citou, restam as penitências. Estas é que serão responsáveis por fazer aquilo que o sangue e a cruz de Cristo não foram capazes. E neste ponto é interessante notar que para os Novacianos o sangue de Cristo já cobria todos os pecados, daí eles serem contra a penitência, que, neste momento, parecia incluir a confissão pública dos pecados, a confissão íntima e algum ato visível como uma postura de luto até que fosse determinado pelo sacerdote o fim de tudo isso.

No próximo post, quero falar do “Da penitência” (último livro do volume dedicado a Ambrósio) à parte, por causa da beleza na linguagem de Ambrósio que merece comentários mais dedicados.