Após a leitura, classificarei os livros assim:
Péssimo [0] Ruim [*] Regular [**] Bom [***] Muito Bom [****] Excelente [*****]

A mitologia grega - Pierre Grimal

O mito, vai dizer Aristóteles na Poética, é “o princípio e como que a alma da tragédia”. “Mythos” é usado pelo filósofo em dois sentidos: 1) a narrativa, a história, o enredo bem engendrado, conectado, construído; e 2) no sentido da coleção de histórias, lendas e folclores deixados pela tradição e trabalhados artisticamente pelo poeta como fonte das tragédias e epopeias.  Assim, nada mais fascinante do que lermos o livro do historiador Pierre Grimal amarrando as narrativas da mitologia, apresentando-as conectadas e desenvolvidas numa ordem para o prazer da nossa leitura e compreensão desses mitos.

  E uma das tantas qualidades desse pequeno livro é o de demarcar a diferença e semelhança, o fluxo e o refluxo dessa linguagem: o mytho e o logos. Nessa delimitação, cresce, diante dos nossos olhos, a beleza do Cristianismo, enquanto logos, e a beleza das narrativas gregas, enquanto mito. “O mito se opõe ao logos como a fantasia à razão, como a palavra que narra à palavra que demonstra. Logos e mythos são as duas metades da linguagem, duas funções igualmente fundamentais da vida do espírito”, diz Grimal.

   Assim, no ambiente do mito, este é atraído por aquela parcela do irracional (ou atrai a ela) e é aparentado de toda arte, em todas as suas criações. Daí, para Aristóteles, o poeta (e todo artista) ser um imitador e um imitador das ações e daí a tragédia erguer-se como aquele veículo da mimese por excelência, em que o poeta ensinará ao público as virtudes reveladas pelo seu trabalho artístico com o mito. E teremos prazer em aprender com os poetas, porque aprender dá prazer, mas aprender com poetas melhores as virtudes que eles nos ensinam em sua arte é prazer maior ainda.

     Após traçar um encadeamento dos mitos gregos, na parte final de seu livro, Grimal irá questionar a maneira que durante a história tentaram se aproximar dessa mitologia. Desde uma abordagem “desmitológica” nos séculos XVIII e XIX, em que se retira todo o maravilhoso para tentar encontrar apenas o que de fato ocorreu, até um agrupamento por meio de um “método comparativo”, pelo qual se tenta agrupar mitos do mundo todo a partir de seus temas comuns. Mesmo nas perspectivas mais recentes em que se sociologiza ou se psicologiza os mitos, até nisso Grimal vê uma abordagem incompleta, infeliz e que retira dos mitos aquilo que eles têm de mais específico.

      A conclusão particular a que chego após um encontro tão prazeroso com o livro de Grimal é que os mitos, enfim, mais do que suportes para esquemas de uma sociologia ou psicologia coletivas, revelam-se receptáculos de nossas próprias e inefáveis experiências individuais. Este é o segredo e a chave do mito.  

       Para a resenha completa do livro, basta clicar aqui. Boa leitura!

Poética - Aristóteles

Decididamente, se eu fosse professor de “exegese do NT” ou “metodologia do NT”, eu iniciaria meus alunos pela "epopeia dramática" que é a tradução do livro "Poética" de Aristóteles: um texto cheio de lacunas, de inserções posteriores, palavras diferentes com o mesmo sentido, sentidos diferentes para uma mesma palavra, inúmeras contradições entre os tradutores, outras tantas mais divergências sobre o que, de fato, o filósofo queria dizer, etc.

Toda essa "tragédia" da Poética, um texto que sempre gozou de imensa autoridade na cultura Ocidental, só confirma a qualidade superior e indiscutível dos textos finais traduzidos a partir do nosso tão bem documentado aparato crítico que trouxe a Bíblia até nós. As traduções bíblicas que temos em mãos estão anos-luz mais seguras historicamente do que a maioria (senão de todas) das traduções dos textos dos filósofos da Grécia Antiga.

Em outras palavras, há muito mais testemunhos (documentos) nos quais se basear a qualidade de nossas traduções e confirmar a fidedignidade de nossos textos e, por consequência, de nossas doutrinas do que o que encontramos diante, por exemplo, da Poética de Aristóteles. Simples assim.

         Só a chegada da obra até nós já se constitui uma aventura histórica e exegética. Para se ter uma breve ideia, apenas em 1911 houve uma tradução do árabe para o latim de uma versão (a mais antiga que se tinha), constituída apenas do capítulo VI da Poética, datada da metade do século IX. Na verdade, graças ao mundo árabe islâmico, que houve a difusão da filosofia grega no mundo Ocidental: é o chamado “aristotelismo islâmico” (ver aqui). Em 1930, houve a descoberta de uma versão em latim datada de 1278. Todavia, foi graças ao Renascimento iniciado na Itália no século XIV e suas traduções italianas da Poética que a obra pode influenciar o mundo Ocidental. Assim, todo o aparato crítico à obra foi desenvolvido nos séculos XVIII e XIX e poderíamos tratar desse assunto por muitos e muitos artigos, mas não é esse o foco de nossa Bibliotheca.

         Uma obra controversa desde o seu título (qual, de fato, seria a melhor tradução) até sua natureza (é um livro ou apenas uma série de anotações para as aulas no Liceu?), um dos motivos pelos quais a obra ficou muitíssimo conhecida do público em geral foi graças a um outro livro: “O nome da rosa”, de Umberto Eco. Sobre isso, porém, tratarei depois numa resenha que farei sobre o livro de Eco.

         Há muitíssimos outros pontos interessantes sobre a Poética, particularmente da maneira como estamos desenvolvendo nossas resenhas e estudos para a nossa Bibliotheca. Uma das questões interessantes seria se indagar se a Poética é uma resposta de Aristóteles a Platão. A razão da expulsão dos poetas da sociedade perfeita platônica descrita na República está diretamente relacionada com o tema principal da Poética: a mimese. E esta une-se, indelevelmente, ao tema do símbolo, pois a mimese é a imitação e, segundo Aristóteles, todas as artes são miméticas, isto é, são representações da realidade. 

         No resumo completo da obra quero apresentar os temas da Poética: basta clicar aqui! No mais, uma obra fascinante e que, dentre tantas coisas, despertou-me o desejo de reler as tragédias do Teatro Grego, que foram tão trabalhadas pelo filósofo neste que é considerado o primeiro grande manual de crítica literária que temos conhecimento. Boa leitura!

A Palavra Não Escrita







Jorge F. Isah
Kálamos Editora
160 Páginas





Depois de seis anos, escrevendo o meu primeiro livro de poesias, acabou de sair a publicação de "A Palavra Não Escrita". Ele não é fruto unicamente do meu esforço, mas de muitas outras pessoas, algumas delas não tive o prazer de conhecer, mas auxiliaram na minha formação o suficiente para que a obra viesse a lume. 

Em especial, queria agradecer ao amigo e irmão Sammis Reachers, do Poesia Evangélica, que empreendeu um trabalho primoroso, dedicado e não remunerado, para fazer a edição e a arte (e se recusou a ter o nome incluído nos créditos). 

Por isso, nada melhor do que deixá-lo falar, transcrevendo, a seguir, o prefácio que ele gentilmente elaborou para o meu livro. Uma honra e tanto!

A todos que participaram direta ou indiretamente na realização dessa obra, o meu sincero e muito obrigado.

Em especial a Cristo, sem o qual não haveria motivação e força para concluí-lo!

A ele, toda honra e glória!

PS: Baixem (gratuitamente), leiam e divulguem o livro! Ele pode ser acessado na página do Poesia Evangélica
ou
No site Monergismo, do amigo e irmão, Felipe Sabino. 


PREFÁCIO

"A poesia de Jorge F. Isah nasce carregada de enlevo hermético. Como os mestres hermetistas italianos do século XX (Montale, Quasimodo, Ungaretti), a cada poema de Jorge somos confrontados pelo toque da Esfinge, “decifra-me ou te devoro”, e mais, “decifra-me e devora-me”: que maior convite pode fazer um poeta, pode propor um poema?
  
E Jorge avança, como alfarrabista de palavras que é, como artista ora cônscio, ora febril, a estabelecer seus mosaicos na tabula rasa do papel; sua arte nunca é superficial, nunca é simplória: ela não solicita, mas é uma onda densa que arrasta, desperta e conclama ao mergulho em suas torrentes verbais. Exige a atenção, engaja e transveste seus leitores no tensionado herói Teseu, cuja atenção freme ululante enquanto avança pelo labirinto - cujas bifurcações vão se adensando a cada quadra. O prêmio para aquele que perseverar está ao fim do labirinto, embora feito da soma de suas partes: o gozo silencioso da celebração poética, o graal misterioso e assaz buscado, o pequeno êxtase quase epifânico (pois a poesia tem e terá sempre - quem a furtará? - algo de religião, de religação com o divino) que só a verdadeira arte pode inocular nas veias da alma. 

Este A Palavra Não Escrita é um manjar pleno para o verdadeiro apreciador de poesia, posto em salvas de prata onde o leitor sorverá a multiplicidade de percepções do autor, cujos versos transitam das elucubrações de sua alma às mazelas da sociedade, do fulgor metapoético, da poesia que se dobra sobre si mesma, à louvação dAquele que é a fonte matricial de toda poesia, justiça e beleza.  

Uma jornada com poder de transformar percepções, cujo arco tensionado se estende do álacre ao pungente: esta é a proposta de Jorge Isah neste seu elaborado labirinto."
   Sammis Reachers

O poder simbólico - Pierre Bourdieu

Tudo é exploração no mundo de Bourdieu e não há nada que seja mais marxista do que isso. Qual a diferença então na análise reducionista dele? É a de demonstrar como que, em meio a luta entre a classe dominante e a classe dominada, esta contribui não somente para ser explorada, mas, até mesmo, pratica uma autoexploração, aceitando os papéis sociais e encaixando, adaptando o seu ser a esses papeis de sua existência profissional, transformando-o e identificando-o com sua profissão, por exemplo.

Evidentemente, para trazer algo de “inovador” para sua análise marxista, o autor se vale de três estratégias: 1) a extensão da sua crítica, que se dá desde uma reflexão sobre o papel e o objeto da própria sociologia, passando pelos conceitos de história reificada e história incorporada, a definição do conceito de região e o papel desta na construção da identidade, a gênese da luta de classes e o conceito de espaço social, campo político, Direito, anomia e estética; 2) o questionamento crítico do próprio sociólogo-pesquisador; e 3) uma crítica ao próprio marxismo.

“O poder simbólico é, com efeito, esse poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem”. O elemento de inconsciência também é importante na análise dele, pois, com sua análise estruturalista, elimina-se não só a vontade do indivíduo, mas também a vontade da instituição coletiva: tudo é uma questão de onde se está, qual a posição que se assume, o habitus, o campo, a região. As forças que regem o mundo não são humanas. São impessoais. “O poder está por toda parte”, para Bourdieu, é necessário saber descobri-lo onde ele se deixa ver menos. Daí a teoria dos símbolos, para Bourdieu, se dá exatamente porque o símbolo encobre o que, de fato, subjaz.

Duas tradições: de um lado, os sistemas simbólicos (arte, religião, língua) como estruturas estruturantes, subjetivas, que é a tradição neokantiana (seja na Europa, Humboldt-Cassirer (aquiaqui e aqui), seja nos Estados Unidos, Sapir-Whorf, especificadamente na linguagem), segue nesta mesma linha Panofsky e Durkhein. Este, contudo, transforma as formas simbólicas em formas sociais para fugir tanto do apriorismo e como do empirismo. Durkhein estabelece uma sociologia das formas simbólicas não as classificando como transcendentais (elas perdem o status de universais), mas como sociais (isto é, arbitrárias, pertencentes a um grupo particular e socialmente determinadas).  Do outro lado, os sistemas simbólicos como estruturas estruturadas, objetivas, que permitirão o funcionamento da análise estrutural como o instrumento metodológico para se entender a lógica específica de cada uma das formas simbólicas, todavia, não a partir de uma leitura alegórica, que transforma o mito em uma outra coisa, mas a partir de uma leitura tautegórica, que “não refere o mito a algo diferente dele mesmo” (veja que se perde a natureza transcendente do símbolo e faz-se uma leitura meramente imanente). Portanto, a tradição estruturalista (Saussure), ao contrário da neokantiana, que insisti no modus operandi das formas simbólicas, isto é, no seu aspecto positivo de instrumento do conhecimento e construção do mundo dos objetos, privilegia o modus operatum, as estruturas estruturadas, os objetos simbólicos – língua ou cultura, vs discurso ou conduta. Ex: a língua, sistema estruturado, ela é fundamentalmente tratada como condição de inteligibilidade da palavra, como intermediário estruturado que se deve construir para se explicar a relação constante entre o som e o sentido (Panofsky fará a distinção, no campo da obra de arte, entre iconologia e iconografia, que é o equivalente exato entre fonologia e fonética).

Pierre Bourdieu, falecido em 2002, é um dos autores mais requisitados na Academia das Ciências Humanas. Ele consegue analisar tanto de sociedades tribais como os cabila no Norte da África, tratando de sociedades que vivem à margem da modernização, abordando temas como aculturação, organização social e familiar, percepção do tempo e do espaço e sua maneira de ver o mundo, até sociedades modernas, aplicando e renovando os conceitos de antropologia, economia e sociologia, usando seu método homólogo de tratar o semelhante em meio às diferenças.

Apesar de todas as tentativas de renovo em Bourdieu, tentando ora se desvencilhar do neokantismo, ora do estruturalismo, buscando uma síntese entre os dois e o marxismo, mas marcando suas insuficiências também, o autor repete as mesmas velhas críticas ao capitalismo e ao cristianismo ainda que sob uma roupagem nova e uma linguagem simbólica.

Para acessar a resenha completa da obra, clique aqui. O blog "Bibliotheca de Semiótica" pretende ser um banco de resenhas para interessados e missionários que trabalham com outras culturas. Assim, é característica da "Bibliotheca" que, durante os resumos dos livros, eu faça comentários sobre as ideias do autor, concordando ou refutando, para que o leitor possa encontrar uma crítica e auxílio para a formação do seu próprio pensamento. Boa leitura!   

Fédon - Platão

Além deste artigo, que irá se limitar ao tema símbolo/signo em Fédon e a fazer um resumo das principais ideias do livro, deverei escrever mais dois artigos posteriormente: 1) para o tema da semiótica em Platão em todas as obras vistas até aqui e 2) sobre um tema que me instigou na leitura de Fédon, que é um possível erro de Sócrates na sua argumentação e o que, na verdade, nos levaria a concluir que a alma não é imortal. Para este artigo, contudo, irei me limitar ao tema do símbolo/signo.

A pergunta em Fédon ainda é a mesma que instiga os outros livros resenhados até aqui: como é possível conhecer? A resposta de Sócrates se dá na construção de uma série de premissas que, uma vez aceitas, vão levando o interlocutor a avançar de uma conclusão para uma próxima premissa. 

         É neste contexto que surge o símbolo/signo por meio da metonímia da lira. Como já disse neste artigo aqui, o símbolo é uma palavra overloaded, por isso mesmo, em Fédon, símbolo e signo se confundem, mas sobre essa “confusão” devo tratar no próximo artigo em que apresentarei o tema da semiótica em todas as obras platônicas já resenhadas até aqui neste blog. O que para este momento interessa é a ideia apresentada por Sócrates, a partir do exemplo da lira, de que as pessoas “tomam uma coisa pela outra”: o símbolo é aquilo que está no lugar de outra coisa.

         A lira (ou a roupa, ou um perfume, etc) é, para os amantes, algo que faz com que eles se lembrem de uma outra coisa. Ao ouvir uma música, não é a música o foco único e principal, mas, como um trampolim, a música funciona para lançar a mente para outra coisa, para lembrar de outra coisa, que não é a música em si, por exemplo. Neste contexto, o símbolo/signo é o que permite que o ser humano entenda o mundo e consiga conhecer as coisas. Nas palavras do próprio Sócrates, ao vermos o símbolo, nós o percebemos de uma outra maneira e não somente aquele objeto que foi captado pelos nossos sentidos.

         O símbolo, portanto, causa em nós, ou melhor, no nosso pensamento lembranças de uma outra coisa. A estas lembranças Sócrates dá o nome de reminiscências. Então é no pensamento que a semiose se dá, porque o símbolo/signo desperta reminiscências, desperta um conhecimento, faz com que percebamos que já havíamos entrado em contato com aquilo, mas de uma outra maneira. Sócrates está alegando que, antes de nascermos, já havíamos entrado em contato com o Mundo das Formas (a alma já existia) e, quando nos deparamos com os símbolos/signos, somos relembrados desse conhecimento pregresso. São essas reminiscências que tornarão possíveis (re)conhecer no mundo as similaridades e as diferenças entre as coisas, podendo agrupá-las e separá-las segundo o conhecimento.

         Por que reconhecemos coisas belas e feias? Por que conhecemos coisas justas e injustas? Grandes e pequenas? Altas e baixas? Porque nosso pensamento já esteve em contato com os arquétipos presentes no Mundo das Formas. Aliás, é a tese já apresentada aqui nas resenhas anteriores de Platão. Ora, também é inevitável que, ao ler Fédon, eu me lembre de outros dois artigos que fazem referência ao tema (veja só como que as tais reminiscências acabaram por lançar meu pensamento a outros artigos por meio do símbolo): “O mundo é a imagem de algo” e “O tempo é a imagem de algo”.

         Parece que, até aqui, tudo concorda com o que vimos nas resenhas anteriores de Platão. Ledo engano: não apenas precisamos escrever mais um “artigo de transição” para entendermos melhor a teoria dos signos de Platão, mas, principalmente, acompanhar o pensamento de Sócrates em Fédon e comparar com as outras obras platônicas para reconhecermos um erro na lógica socrática, uma contradição, que, uma vez compreendida, nos levará à conclusão de que ele falha ao defender a imortalidade da alma.

       Para acessar a resenha completa da obra, clique aqui. O blog "Bibliotheca de Semiótica" pretende ser um banco de resenhas para interessados e missionários que trabalham com outras culturas. Assim, é característica da "Bibliotheca" que, durante os resumos dos livros, eu faça comentários sobre as ideias do autor, concordando ou refutando, para que o leitor possa encontrar uma crítica e auxílio para a formação do seu próprio pensamento. Boa leitura!     

Curso de Linguística Geral - Ferdinand Saussure

“Na língua só existem diferenças” – esta frase expõe o que é o Estruturalismo de Saussure. Os signos só tem valor por oposição, então as relações são mais importantes do que os signos em si com seus significados e significantes. Este pensamento é aplicado não apenas aos signos linguísticos, mas aos fonemas e às letras. A estrutura é o que importa para o estabelecimento do valor dos signos. Daí, na sequência temporal do sintagma (a frase, o texto, o discurso, a cadeia sonora da fala), os signos aparecem em relações de oposição e associação e recebem valor por seu agrupamento no sintagma, no qual há um vínculo de interdependência entre os signos e também é onde eles se condicionam reciprocamente. Esse sistema de regras que estão em jogo na língua forma a Gramática e é o que interessa como objeto de estudo para a Linguística de Saussure.

            A concepção linguística de Saussure exposta no parágrafo acima influenciou todo o século passado, mas ela, de certa forma, já está representada por Hermógenes na obra platônica “Crátilo”. Hermógenes já defendia que tudo na linguagem é convenção. Não há nada que ligue as coisas aos signos e nem as palavras (impressão acústica) aos significados.  

A ideia de estrutura, de sistema, após Saussure, romperá os limites da linguística do professor de Genebra e será aplicada às mais diversas ciências humanas. O que subjaz ao Estruturalismo de Saussure é a concepção de que o significado advém das relações de diferença entre os signos. É na estrutura da linguagem que o signo ganha significado – na relação sintagmática –, assim, o que se institui é que o signo não se refere a algo, mas seu significado vem pela diferença com outro signo – assim se dá a semiose.

      O Estruturalismo irá excluir o objeto de referência. O mundo não é uma realidade dada, mas socialmente construída. A concepção mentalista de Saussure é imanente, o significado nasce da relação de oposição e diferença entre os signos e não porque eles se referem ao mundo. Em outras palavras, não há nada lá fora. Não há nenhuma metafísica. Nenhum significado a ser buscado e que se refira a algo. Portanto, Saussure implode com qualquer referência “lá fora” possível à verdade. Os signos não têm valores em si mesmos, mas apenas nas relações de oposição e associação que estabelecem uns com os outros.

Eu gostaria de ajudar você a dimensionar a influência que terá o Estruturalismo no século XX, lembrando que toda essa concepção foi aplicada à teologia, à hermenêutica, à sociologia, à antropologia e a tantas outras ciências humanas. O Estruturalismo aplicado às ciências humanas, como aconteceu após Saussure, tende apenas a desumanizar o indivíduo, reforçando que este não tem valor em si mesmo, mas, tão somente, seu significado é recebido das relações nas quais ele se vê inserido na massa social. O ser humano estruturalista no seio social não tem significado intrínseco: ele é apenas enquanto não-é.

Surpreendentemente, embora pareça que a aplicação da concepção de signo de Saussure às ciências humanas abrirá caminho para o relativismo, a verdade é que, para o próprio Saussure, o que ele buscava era um fundamento – embora não metafísico – para o significado. Em outras palavras, o estruturalismo de Saussure não confere ao relativismo nenhuma condescendência, apenas desloca a base do significado, colocando-a na mente do homem. O que, aliás, foi exatamente o que já fizera Descartes.

O que é o signo linguístico é uma aventura iniciada desde os gregos. A cada passo, a cada filosofia adotada, há consequências que extrapolam o universo da linguagem em si e atingem a filosofia, a hermenêutica, a teologia, etc. Daí a necessidade de se construir uma bibliotheca de referência crítica na qual possamos nos reconduzir na esfera da semiótica para compreender, satisfatoriamente, o mar de signos pelo qual transitamos diariamente e que nos permitem o milagre da comunicação com o outro.  

 Para acessar a resenha completa da obra, clique aqui. O blog "Bibliotheca de Semiótica" pretende ser um banco de resenhas para interessados e missionários que trabalham com outras culturas. Assim, é característica da "Bibliotheca" que, durante os resumos dos livros, eu faça comentários sobre as ideias do autor, concordando ou refutando, para que o leitor possa encontrar uma crítica e auxílio para a formação do seu próprio pensamento. Boa leitura! 

Quase a mesma coisa - Umberto Eco

Sou motivado por uma paixão, que é responder a mais fascinante de todas as perguntas: o que faz com que qualquer língua seja uma linguagem, qualquer que seja a língua? Mas Hjelmslev não para por aí a sua pergunta: e o que é que faz com que determinada língua permaneça idêntica a si própria através das suas mais diversas manifestações?

Evidentemente, para compreendermos o papel da semiótica numa cultura humana e na relação com a semântica, é preciso revisitar o que foi construído na história do estudo dessa ciência dos símbolos. É preciso que dominemos três conceitos que são importantíssimos na história da filosofia, que são os conceitos de forma, substância e matéria. Destes três, dois já foram abordados nos artigos platônicos anteriores, mas, cedo ou tarde, precisaremos revisitar também Aristóteles para fecharmos essa tríade de conceitos.

Enquanto ainda não nos aproximamos de Aristóteles, apresento um dos livros que mais marcaram a minha trajetória e o meu pensamento. O livro é “Quase a mesma coisa”, de Umberto Eco, que é um livro fascinante que trata de tradução.

Há uns sete, oito anos que comecei a escrever sobre a experiência da tradução. Coincide com a data em que li pela primeira vez esse livro de Umberto Eco. Escrevi, principalmente, sobre a experiência da tradução bíblica do hebraico e do grego para a nossa língua portuguesa. Em artigos sempre informais (não acadêmicos), avaliei a versão da NTLH, critiquei a ênfase equivocada num imperativo inexistente sobre o “ide” de Jesus, entre outras tantas incursões nessa seara. Mas já escrevi também sobre os textos ideológicos de nossas bíblias brasileiras, ideologicamente eclesiásticos (a Bíblia de Jerusalém, por exemplo) e políticos (a Bíblia Pastoral Católica, por exemplo). Além disso, alguns desses artigos escritos só foram compartilhados com um seleto grupo de mantenedores que tem me acompanhado nestes últimos 10 anos, pois são artigos tratando das minhas experiências específicas sobre tradução do Texto bíblico para uma língua indígena e também avaliações que tenho feito sobre a tradução que outros tem feito da Bíblia para outras línguas indígenas.

Aqui mesmo, nos artigos anteriores das resenhas que tenho feito aqui para a Bibliotheca, volta e meia, vejo-me trazendo alguns casos que tenho colhido de experiências de tradução missionária.  E, por todo este tempo, pude encontrar tanto experiências sérias e reverentes, como também, infelizmente, casos escabrosos, como, por exemplo, aquela primeira versão da Bíblia da Linguagem de Hoje feita sob a tutela da Sociedade Bíblica do Brasil. Não que a situação tenha melhorado com a versão nova, mas, ao menos, não permaneceu tão escandalosa. Ainda assim, há grupos que trabalham com tradução bíblica no mundo que estão fazendo um imenso desserviço à causa do Evangelho. Grupos que, no afã de uma agenda humana que estabeleceu que todos os grupos étnicos deveriam ter a presença de um tradutor bíblico até 2025, estão dispostos a sacrificar a seriedade e responsabilidade necessárias para a qualidade final do texto bíblico.

Eu também sei que, por trás desse afã, na verdade, há também uma teologia equivocada, mas isso já seria assunto para outro artigo.

O fato é que mais do que dicionários, os tradutores precisam de enciclopédias (é o que, há muitos anos, eu aprendi com Umberto Eco)! Não podemos parar de estudar e a base deveria ser um profundo estudo das possibilidades da sua própria língua! Todavia, sabemos que só a língua não basta, pois há a cultura. Só como exemplo do que estou dizendo aqui, neste domingo, pude acompanhar uma tradução feita do português para o inglês, entretanto, nenhuma das duas pessoas envolvidas tinha essas línguas como suas línguas maternas: era uma indígena falando em português e sendo traduzida por uma brasileira que, mesmo sendo professora de inglês, ressaltou que aquela era uma 2ª língua para ela. A professora tomava esse cuidado, pois estava traduzindo a fala da indígena para um grupo de americanos. Mas, como disse, só a língua não basta, pois o caso que a indígena estava contando (em um português muito escasso) uma questão cultural desconhecida da tradutora. A dificuldade, portanto, foi enorme e o ponto central da mensagem não foi traduzido, porque não foi dito pela indígena, embora estivesse inferido. Mas inferências no discurso só são percebidas por quem possui um conhecimento da cultura do falante.
  
Deus não ama as "línguas", Ele ama pessoas. Deus não ama as "culturas", Ele ama pessoas. Embora o que eu acabe de afirmar pareça ser algo óbvio, a verdade é que no meio missionário cristão há certa idolatria da língua e da cultura, que tende a tornar necessário o que é dispensável na hora de traduzir a Bíblia. Graças a Deus pela sociolinguística que, como ciência, é capaz de avaliar se determinado grupo étnico realmente precisa ou não de uma tradução bíblica ou se seria melhor oferecer a esse grupo uma tradução numa língua próxima ou majoritária, para, posteriormente, o próprio grupo decidir se quer ou não uma tradução na sua própria língua.

Como sempre, além de um artigo, faço um resumo do livro em questão. Entretanto, pela imensa riqueza do “Quase a mesma coisa”, é muito provável que outros artigos surjam a partir desse livro novamente. Provável que, mais adiante, eu retorne e apresente resumos mais detalhados de determinados capítulos que interessam mais ao tema da nossa Bibliotheca. Ainda assim, posso afirmar que, mesmo que a área de tradução não lhe desperte o menor interesse, é impossível não se apaixonar pela riqueza intelectual e cultural desse livro.

Para acessar a resenha completa da obra, clique aqui. O blog "Bibliotheca de Semiótica" pretende ser um banco de resenhas para interessados e missionários que trabalham com outras culturas. Assim, é característica da "Bibliotheca" que, durante os resumos dos livros, eu faça comentários sobre as ideias do autor, concordando ou refutando, para que o leitor possa encontrar uma crítica e auxílio para a formação do seu próprio pensamento. Boa leitura! 

A Nova História de Mouchette








Georges Bernanos
É Realizações
112 Páginas

 
"Mouchette é uma menina tímida de quatorze anos que foge da escola e de uma família destruída pelo álcool, pela miséria e pela doença, assim como de uma aldeia de costumes ameaçadores. Em busca de liberdade, encontra um destino cruel que vai devorá-la entre o estupro e a mentira. Este romance de Bernanos foi adaptado para o cinema por Robert Bresson em 1967".

 

Timeu - Platão

Mas, afinal, o que é a imagem? A imagem é a solução platônica que garante a inteligibilidade do mundo. Se retornarmos em nossas leituras e atravessarmos de Crátilo, passando por Parmênides e O Sofista e, finalmente, aportando em O Timeu, poderemos acompanhar a solução proposta por Platão advinda a partir da própria autocrítica de sua Teoria das Ideias.

         Ao lermos estas obras, podemos ver não apenas as aporias das teorias de sua época, mas, principalmente, as aporias levantadas na própria Teoria das Ideias de Platão. A mais importante das aporias está em como os dois mundos – o das Ideias (ou formas) e o sensível – são capazes de se relacionar. Sem uma resposta convincente, como haveria conhecimento do mundo? Como seria possível a inteligibilidade do mundo?

         Vimos em Crátilo que as duas concepções daquela época – o convencionalismo e o naturalismo – em última instância, na verdade, tornam o mundo impossível de ser apreendido pela razão. Ao ponto de, se insistirmos nestas duas teorias, o melhor mesmo é nos debruçarmos sobre o mundo para conhecê-lo em si mesmo e não por meio das palavras. O problema, então, é que a linguagem está revelando as aporias das teorias daquele tempo.

         Em Parmênides, vemos que o que está gerando as aporias não só do convencionalismo e do naturalismo, mas da própria Teoria das Ideias é o dogma de Parmênides de que “o melhor é não seguir pelo caminho do não-Ser”. Para Parmênides, o não-Ser não é, logo, tudo que não é não pode existir, não pode sequer ser julgado como falso ou impossível. O problema é que a própria linguagem ou uso que fazemos dela mostra que o não-ser está a toda hora presente. Então, Platão vê que o dogma de Parmênides precisa ser quebrado para que possamos avançar na teoria da Linguagem e garantir a possibilidade da própria Teoria das Ideias.

         Uma vez destruído o antigo paradigma, em O Sofista, Platão irá aplicar o que foi discutido em Parmênides, aplicando aqueles resultados sobre a própria teoria das Ideias: o não-ser e o ser se imbricam, logo o ser é e o não-ser é. Mas como se dá isso? Para explicar essa relação, Platão irá usar a própria linguagem como modelo para o problema que a linguagem mesmo está colocando sobre a mesa: há nomes que aceitam certas combinações de letras e há outras combinações que não são aceitas, assim se dá também com o ser e o não ser, com o estático e o movimento, com o outro e o mesmo, com uno e o múltiplo. Assim o filósofo está garantido não apenas que o não-ser é, mas também uma nova definição do não-ser. Agora não mais como contrário ao ser, mas como outra coisa, como coisa diferente. Ora, se é assim, então há a possibilidade do erro, da mentira e da falsidade no discurso, porque o discurso pode não corresponder a uma imagem, mas a outra. Então, com isso, Platão também garante a existência das imagens.

         Mas o que é, afinal, uma imagem? É a cópia (mundo sensível) do original (Ideia). E quem é que fará a ligação entre o mundo das cópias e o mundo das Ideias: a linguagem. A linguagem, o discurso (nome mais verbo), é quem se estabelece como um elo, porque a linguagem está nos pensamentos, na razão, no intelecto, que é o lugar que dá acesso ao mundo das Ideias e, portanto, a linguagem é uma cópia do mundo das Ideias, isto é, a linguagem é uma medida, uma proporção (não é uma cópia em todo sentido e extensão e nem mais uma “participação” como fora dito por Platão em diálogos anteriores, mas é uma cópia da essência da Ideia) e, por isso mesmo, pode estabelecer uma comparação do mundo sensível com a Ideia, juntando os dois, garantindo assim a inteligibilidade, o conhecimento humano. Assim, a linguagem, na minha interpretação, é um símbolo, um símbolo do mundo das Ideias.

         E aqui, depois de tudo o que foi dito e, finalmente, chegando à conclusão da linguagem como símbolo, é preciso parar para revisitarmos o assombro inevitável diante de obras escritas às margens da plenitude dos Tempos. Reconhecer que todo o instrumental que será usado para se pensar e discutir a Santíssima Trindade e também a própria Pessoa de Jesus fora dado aqui entre os gregos, fonte para os primeiros Pais da Igreja, para Santo Agostinho, para Tomás de Aquino e tantos outros teólogos cristãos.

         “Jesus é o logos”! Nunca houve e nem haverá afirmação mais contundente e assombrosa do que esta: "Jesus é o logos de Deus"!  Se o discurso, se a proposição, conforme aprendemos em Platão, é uma analogia da essência da Ideia, este símbolo – Jesus é o logos – é um símbolo eterno! E nesta altura de nossas discussões, assumirmos a tese joanina de que Jesus é a linguagem, é o discurso, é a cópia, é a imagem visível do Deus invisível e mais: Jesus é o logos, palavra derivada de lego, que significa “re-unir”, “juntar”, “ligar”, “re-unir” na possível proporção duas coisas diferentes, distintas entre si, enfim, é como se Deus estivesse preparando o mundo para, por meio do mistério da encarnação, começar a reunir o cosmos novamente a Ele. Por que não ser mais ousado e afirmar abertamente: Deus, chegada a hora certa, enviou seu Filho amado (Gl 4: 4) e, quando todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então também o mesmo Filho se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos (1 Coríntios 15:28).

             Para acessar a resenha completa da obra, clique aqui. O blog "Bibliotheca de Semiótica" pretende ser um banco de resenhas para interessados e missionários que trabalham com outras culturas. Assim, é característica da "Bibliotheca" que, durante os resumos dos livros, eu faça comentários sobre as ideias do autor, concordando ou refutando, para que o leitor possa encontrar uma crítica e auxílio para a formação do seu próprio pensamento. Boa leitura!  

O Sofista - Platão

“A linguagem contra Parmênides” – este será o centro da discussão que só será resolvido na quebra de um paradigma para a aceitação de outro, isto é, O Sofista é o livro do parricídio de Platão contra seu pai intelectual, que é Parmênides, substituindo-o pela linguagem como o novo paradigma.

         Assim, particularmente para a nossa Bibliotheca, é sensacional que a linguagem se apresente como aquela que insiste com o óbvio colocando-se contra as conclusões da lógica filosófica e, ao mesmo tempo, é aquela que irá fornecer a solução para as aporias que ela mesma instiga nos filósofos. Sensacional é ver o Estrangeiro e Teeteto recorrerem à gramática, mais especificadamente, às letras, que são símbolos, e ao discurso (nome mais verbo), para solucionar as grandes contradições nas quais se encontram mergulhados.        

Se lermos O Sofista logo após Parmênides, duas características devem nos saltar aos olhos imediatamente: primeiro, os dois livros seguem uma mesma lógica argumentativa e, segundo, acredito que posso dizer que o problema comum que justifica os dois livros é o mesmo: a linguagem.

         A lógica argumentativa é que, em Parmênides, o “Uno” e o “Múltiplo” se entrelaçam, misturam-se, imbricam-se, esta é a tese. Em O Sofista, é a vez de aplicar isso ao “Ser” e ao “Não-Ser” e mostrar que, semelhantemente, os dois se unem, os dois são possíveis, os dois não são contraditórios. E o que justifica a ambos os livros, o que motiva ambos os diálogos é a constatação – e este é o interesse para nossa Bibliotheca – que, na verdade, embora a lógica usada pelos debatedores possa muitas vezes ir numa direção, a linguagem é a grande responsável por fazê-los ter que enfrentar os fatos de que suas conclusões são insustentáveis.

         Tanto no Parmênides como no O Sofista, a linguagem permite fazer o que a lógica de suas argumentações diz ser impossível. De modo mais específico, em O Sofista, é impossível falar sobre o Não-Ser, pois falar sobre ele seria trazê-lo à existência e isso é uma contradição. Assim, é a própria linguagem que força a buscar uma conclusão diferente, uma via diversa, como podemos lembrar, por exemplo, de Górgias (ver Crátilo), para quem falar do “Não-Ser” era não falar, apenas emitir sons e ruídos. Ora, nada mais “fictício” do que isso, pois é a linguagem que nos permite nomear coisas inexistentes ou dizer falsidades e tudo isso é significativo.

         Duas perspectivas podem ser levadas em conta sobre as discussões em O Sofista. Primeira, tudo o que se discute não leva em conta a existência de um Legislador Moral, isto é, não há a figura de um Deus Moral, que ainda será trazido pelo Cristianismo, como referência, justificativa e fundamento para todas as coisas (ainda que, neste livro, haja o argumento do Criador que é a razão por trás de todas as coisas). Segunda, é que, como teólogos cristãos, é assombroso - e esta é a única palavra que me ocorre - é assombroso que, 4 ou 5 séculos antes de Cristo, as discussões filosóficas tenham chegado ao ponto que chegaram. Muito mais do que simplesmente desatar o nó do Ser e do Não-Ser, enfrentar o tema melindroso do Movimento e do Estático, discernir entre o Uno e o Múltiplo na natureza do Ser que é (e que não é - problema fundamental da predicação), para muito além disso, só posso aceitar que o próprio Deus já estava preparando a humanidade para a compreensão dEle mesmo, quando, em Jesus, a Plenitude da Divindade Trina e Una fosse totalmente revelada. É assombroso reconhecer que a Plenitude dos tempos (Gálatas 4:4) não foi apenas uma convergência histórica, econômica, política, mas, principalmente, a Plenitude dos tempos para a chegada de Jesus foi uma convergência filosófica e intelectual, que daria condições ao Cristianismo de revelar aos homens toda a sua assombrosa envergadura espiritual em discurso dialético sobre o Ser de Deus.

         Com a próxima resenha, O Timeu, pretendo encerrar essa digressão necessária no corpus platônico quanto ao recorte que nos interessa. Acredito que estes 4 diálogos (Crátilo, Parmênides, O Sofista e O Timeu) dão uma base sobre o tema da linguagem, que é o fundamento de nossa teoria dos símbolos, e permitirá que nos debrucemos em outros livros até que, novamente, sejamos trazidos de volta aos gregos.

           Para acessar a resenha completa da obra, clique aquiO blog "Bibliotheca de Semiótica" pretende ser um banco de resenhas para interessados e missionários que trabalham com outras culturas. Assim, é característica da "Bibliotheca" que, durante os resumos dos livros, eu faça comentários sobre as ideias do autor, concordando ou refutando, para que o leitor possa encontrar uma crítica e auxílio para a formação do seu próprio pensamento. Boa leitura!  

Parmênides - Platão

A teoria das Ideias será apresentada no contexto do Paradoxo de Zenão. Mas qual o paradoxo de Zenão? Zenão irá defender a tese de Parmênides de que “tudo é um”, pois se as coisas fossem múltiplas, elas teriam que ser semelhantes e diferentes, o que é um absurdo. As coisas não podem ser uma e ser muitas ao mesmo tempo – esta é a tese que seria para Sócrates a grande surpresa se alguém pudesse provar. Portanto, este será o grande esforço empreendido por Parmênides: surpreender Sócrates! (Veja aqui uma breve introdução às teorias dos pré-socráticos).

         Sócrates entrará com a Teoria das Ideias para explicar a existência da multiplicidade das coisas. As Ideias existem por si, portanto são “um”, mas estão separadas das coisas sensíveis, que são múltiplas. A ideia defendida por Sócrates é que as coisas são semelhantes e dessemelhantes, porque cada coisa em si pode ser semelhante com uma ideia da Semelhança e, ao mesmo tempo, ser dessemelhante por participar da ideia de Dessemelhança. Veja que Sócrates não está dizendo que algo pode ser Uno e Múltiplo ao mesmo tempo, pois isso seria o que o surpreenderia. O que Sócrates está afirmando, por meio da Teoria das ideias, é que uma coisa pode ser, por exemplo, semelhante por ser semelhante à Ideia de Semelhante, mas pode ser dessemelhante por participar da Ideia de Dessemelhante. Como exemplo Sócrates pensa no corpo humano que tem o “direito” e o “esquerdo”, o “em cima” e “abaixo”, o “atrás” e a “frente”, isto é, compartilha a multiplicidade; todavia, ninguém negará que é UM corpo humano, uma unidade.     

Retornamos às discussões de Crátilo, pois Zenão não considerava que um “dedo grande” poderia ser também um “dedo pequeno”. Heráclito considerava o Ser em fluxo e, como vimos na última resenha, baseado nesta ideia, Protágoras, que defendia que o homem é a medida de todas as coisas, compreendia que uma pessoa poderia dizer que uma coisa era quente e outra pessoa poderia dizer sobre essa mesma coisa que ela era fria e ambos estariam dizendo a verdade. Esta é ideia que Zenão não aceita, pois essa multiplicidade de uma mesma coisa que é e não é gera um paradoxo, uma contradição. Pois Zenão compreende que o nome de uma coisa se identifica com essa coisa. Por exemplo, “dedo grande”, a coisa e sua propriedade (grande) andam juntas, não é possível que “dedo grande” possa se referir a um dedo pequeno. É contraditório. Cada nome refere-se a um objeto. Mudou a característica do objeto, mudou o seu nome, é um outro objeto, portanto não há multiplicidade para Zenão. E Sócrates, portanto, irá apresentar a Teoria das Ideias para explicar essa nomeação aparentemente contraditória de um mesmo objeto.

         O problema em Crátilo é a predicação do objeto. Não se pode predicar um mesmo objeto diferentemente. Não se pode aceitar que, como Protágoras e Hermógenes defendiam no convencionalismo, um objeto possa ser predicado “quente” por uma pessoa e predicado “frio” por outra, porque, demonstra Sócrates em Crátilo, fosse assim não haveria conhecimento possível da verdade. Mesmo no naturalismo de Górgias e de Crátilo, ainda que um nome ora espelhasse uma coisa de uma maneira e ora espelhasse o fluxo dessa mesma coisa em seu movimento, também não seria possível conhecer as coisas. Tanto o convencionalismo como o naturalismo foram, portanto, refutados por Sócrates em Crátilo.

         Agora, em Parmênides, continuamos buscando uma explicação para o problema da linguagem, o problema do conhecimento, a aquisição possível da verdade. No fim de Crátilo, a conclusão socrática é que, então, devemos buscar conhecer as coisas por elas mesmas e não pelos nomes. Entretanto, como seria aceitável predicações contraditórias diante uma mesma coisa? Esta será a discussão em Parmênides.

         Para Sócrates, o paradoxo de Zenão é aparente, pois eu posso me referir a mim como “um” ser humano e, ao mesmo tempo, referir-me ao meu lado direito e ao meu lado esquerdo, ao embaixo e ao em cima, atrás e à frente, etc. Assim, para Sócrates, não há estranhamento em predicações diferentes de uma mesma coisa. É como se estivéssemos observando propriedades diferentes (lado direito e esquerdo) de uma mesma coisa. Entretanto, isto que acabei de escrever é diferente de afirmar que o “Um” é Múltiplo e que o “Múltiplo” é Um. E em Parmênides, Sócrates afirmará que é isso o que causaria espanto: separar as propriedades das coisas e afirmar que elas se misturam. Para Sócrates não há essa mistura, pois a coisa se refere às Ideias, ora a uma Ideia de Semelhança, ora a uma Ideia de Dessemelhança.

         Parmênides fará exatamente uma refutação ao modo de entendimento e apresentação da Teoria das Ideias e demonstrará para Sócrates que o Uno e o Múltiplo na verdade, se misturam, se entrelaçam – surpresa (esta palavra no grego é thaumastós, que é a palavra que dá origem ao espírito da filosofia)!

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Crátilo - Platão

Há quem pense que Platão não se interessa pela questão da linguagem e que Crátilo seria uma obra menor no corpus do filósofo. Contudo, Platão está se dirigindo há duas concepções sobre a linguagem nesta obra: o convencionalismo e o naturalismo. E que, na verdade, será a partir do problema da linguagem que Platão apresentará a sua teoria das Ideias (ou Formas).

         O convencionalismo pregava que não há relação alguma entre o Ser e as palavras. Estas, quando dadas às coisas, são meramente etiquetas de identificação sem qualquer vínculo com a essência das coisas. Por outro lado, o naturalismo defendia que, ao nomearmos as coisas, já estávamos dizendo o Ser delas. Assim, as palavras e o Ser das coisas estavam vinculados.

         Há um contexto para que possamos compreender melhor os diálogos em Crátilo, a saber, Platão está discutindo com os filósofos pré-socráticos, de um lado Protágoras e de outro Górgias, ambos embasados em Heráclito. Este filósofo defendia duas ideias em relação ao Ser: a doutrina do fluxo de todas as coisas e a doutrina da emanação. O convencionalismo de Protágoras se baseava na doutrina do fluxo de todas as coisas, por isso seria impossível às palavras revelarem algo de uma essência das coisas. O naturalismo de Górgias se baseava na doutrina da emanação, isto é, as coisas emanam algo de sua essência que é captado pelos sentidos não estando as palavras assim totalmente desvinculadas do Ser. Todavia, o naturalismo de Górgias não era uma identificação com o Ser das coisas, mas uma captação. Por que isso é importante? Porque Górgias, embora saiba que algo do Ser é captado pelos sentidos (isto é, a nomeação das coisas não é um processo arbitrário), também concorda que o Ser está em fluxo. Daí Górgias ser o pai da Retórica. Esta é a disciplina que buscará seduzir o ouvinte não pela defesa da verdade, pois esta é inacessível uma vez que o Ser está em fluxo contínuo, mas por meio do discurso mais competente, mais provável, mais bem apresentado. Górgias dará continuidade, portanto, a essa visão mágica da linguagem que é capaz de curar o corpo e a alma dos ouvintes, segundo defendiam os pitagóricos.

         Não era minha intenção já resenhar Platão ou quaisquer gregos, embora eles sejam o pontapé para toda uma teoria dos símbolos. Entretanto, após ler Wittgenstein, e apesar da sua tese de suprimir toda filosofia clássica, tanto ele como Cassirer estão montados sobre os ombros dos gregos (aceitem eles isso ou não). Mas quem não está? Wittgenstein repete a mesma ideia de Parmênides, que veio 2500 anos antes dele, na frase mais famosa e com a qual ele encerra sua obra o Tratactus...: "Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar." Compare com a frase de Parmênides no poema Da natureza: “É necessário que o dizer e pensar que é sejam; pois podem ser, enquanto nada não é: nisto te indico que reflitas”. Assim, diante de Cassirer e Wittgenstein, percebi que ambos podem ser unidos de certa maneira às tradições gregas (até porque não há nada de novo debaixo do sol). Aliás, não podemos esquecer as próprias palavras de Wittgenstein de que sua filosofia é um exercício contra o feitiço da linguagem. Cassirer à concepção pitagórica da linguagem e Wittgenstein tanto a Górgias, mas, principalmente, a Parmênides, que será apresentado como saída ao problema da linguagem em outra obra de Platão, após a conclusão de Crátilo.

Crátilo se torna especialmente importante para a Bibliotheca de Semiótica não apenas pela ligação com Cassirer e Witttgenstein, mas porque Sócrates vai tratar o nome como uma imagem (lembrando que, para os gregos, “nome” é substantivo, verbo, etc). Do mesmo modo que uma pintura é uma cópia de alguma realidade, também o nome é cópia, imagem de uma coisa em si. Todavia, veremos que é exatamente essa concepção do nome como imagem que vai falir toda a discussão travada na obra e que Platão deverá tentar resolver em Parmênides e no Sofista. Nas resenhas destas obras, desenvolverei as críticas pertinentes ao corpo filosófico platônico.

         Durante a leitura de Crátilo, peguei-me, por várias vezes, lembrando-me de uma questão ligada à discussão entre Sócrates e seus dois amigos. No povo indígena com o qual eu trabalhei, havia um traço cultural que me chamava muita atenção. Os nomes dados aos filhos eram os mesmos nomes dos avós paternos e maternos. E parecia que não iriam faltar nomes, pois cada indígena no correr da sua vida recebe, ao menos, 3 nomes, sendo que são 3 nomes que a mãe dá e 3 nomes que o pai também dá. O pai não chama seu filho pelo nome da mãe e nem a mãe o chamará seu filho pelo nome dado pelo pai. Já deu para perceber que cada indígena tem, portanto, 6 nomes. Contudo, como eles acabam tendo muitos filhos, ainda assim, chega uma hora que os nomes acabam e eles começam a adotar “nomes dos brancos”.

         Certa vez, perguntei ao cacique onde estava o meu aluno chamado Kamaluhe. E ele disse, para meu espanto, que não sabia quem era esse tal de Kamaluhe. Ora, o tal Kamaluhe era filho dele! O problema é que com a chegada da carteira de identidade e da escola há certa confusão nessa questão dos nomes. No caso do Kamaluhe, este era o nome dado pela mãe e, por isso, o pai não o identificou. Tudo isso pode parecer tolice ao leitor desavisado, mas vai ao encontro de pelo menos duas das teorias sobre a linguagem encontrada em Crátilo. Ora, se o Ser está em fluxo e, portanto, se mudamos com o tempo (nascimento, adolescência e vida adulta), um nome só não captaria a nossa essência naquele momento (Heráclito). E mais: para a mãe e para o pai há uma compreensão diversa do ser do filho (Protágoras).

Para resenha completa desta obra, clique aquiO blog "Bibliotheca de Semiótica" pretende ser um banco de resenhas para interessados e missionários que trabalham com outras culturas. Assim, é característica da "Bibliotheca" que, durante os resumos dos livros, eu faça comentários sobre as ideias do autor, concordando ou refutando, para que o leitor possa encontrar uma crítica e auxílio para a formação do seu próprio pensamento. Boa leitura!

De Luder a Lutero - Uma biografia





Martin N. Dreher
Editora Sinodal 
302 Páginas


"Este livro do historiador Martin Norberto Dreher prima por uma prosa simples, atrás da qual se esconde um acúmulo de informações reunidas ao longo de uma vida de estudo sobre o famoso reformador do século XVI. Transitamos em meio a textos, personagens, correntes ideológicas e sociológicas, movimentos de ação e pensamento".