Após a leitura, classificarei os livros assim:
Péssimo [0] Ruim [*] Regular [**] Bom [***] Muito Bom [****] Excelente [*****]

Contra as heresias - Irineu de Lião (3ª parte)

Teologia de Irineu e a “Tradição Apostólica”

Todos os meus argumentos sobre o tema do post anterior, a “Mariologia” de Irineu devem ser retomados para se compreender precisamente o tema da “sucessão apostólica, o primado de Roma e o pontificado do Bispo de Roma”. Assim como, muitas vezes, a interpretação revela muito mais do leitor do que do texto, que foi o que demonstrei no post anterior), se retirarmos certas citações de Irineu do contexto destes 5 livros que compõem o “Contra as heresias”, traremos sobre Irineu conclusões do que sequer ainda existe em seu tempo.

O próprio texto, na verdade, já mostra o porquê de Irineu ter escolhido para exemplo a Igreja de Roma: falta de espaço para fazer o mesmo com todas as outras o que ele fará a seguir. E o que ele fará a seguir que poderia fazer com as outras igrejas também? Mostrar a guarda da Tradição desde a fundação apostólica até os dias atuais. Mas por que isso interessa a Irineu? Lembre-se que ele está refutando as heresias do seu tempo e não o papado! As heresias do seu tempo dizem fábulas tiradas de uma interpretação errônea da Bíblia e misturando essa interpretação com filosofia, mitologia e tutti quanti. Todavia, quem prega essas mentiras não têm “tradição”, são grupos diversos que se contradizem entre si dependendo de seu “mestre”. Dependendo do herege este vai inventar, tirar, esquecer, adaptar, inventar as próprias doutrinas que pregam. Cada escola, uma contradição! Na verdade, para ódio dos pseudognósticos, Irineu irá dar uma origem comum a todos eles: Simão, o Mágico (Atos 8:9ss)!

Mas as igrejas locais não eram assim! Elas haviam recebido o ensino dos seus fundadores, os apóstolos. Estes haviam repassado a Tradição da Fé, para elas e, universalmente, onde quer que você fosse, era ensinado exatamente o mesmo nas igrejas. A igreja em Roma era maior e fundada por Pedro e Paulo, por isso muito bem representativa do que estava para ser feito por Irineu. Veja que não há “papado” para Irineu. A Igreja não fora fundada por Pedro, mas por Pedro e Paulo. Ambos repassaram a Tradição ao presbítero depois deles, este para o próximo e, assim por diante, até os dias de Irineu. Este processo pedagógico de ensino da Igreja pode ser verificado em Roma e em qualquer das outras igrejas. Apenas isso!

Mais uma vez, para mim, o problema ocorre com os olhos que leem Irineu: se você olhar com os olhos de agora para o tempo dele, você o fará arauto de ensinos posteriores. Todavia, se você entender que Irineu está dialogando com seu tempo e não com tudo aquilo que veio depois dele, aí você o verá no seu contexto e compreenderá os limites da sua discussão.

Curiosidades

a) 3 pontos muito interessantes se apresentam no tempo de Irineu: 1) claramente, o governo das igrejas locais era episcopal; 2) naquele tempo de Irineu, aconteciam ainda a manifestação dos dons extraordinários (falar em línguas, profetizar (que, para ele, é falar o que está escondido nas pessoas) e ressuscitar mortos (que ele narra como resultado de um pedido em conjunto da igreja e atendido quando Deus julgou necessário);

b) O conhecimento de Irineu da língua hebraica é fraco, isto se vê quando ele vai traduzir os nomes de Deus no AT;

c) Obviamente, todas as referências bíblicas são da edição da série Patrística e elas foram colocados no fim de cada livro. Assim, o que erro frisar é que os textos bíblicos são citados literalmente por Irineu, mas os “endereços” são inserções posteriores. Todavia, algumas vezes, Irineu fala algo que, para o editor da série, poderia ser uma citação não literal, uma referência indireta... Mas não é! E mesmo assim o editor coloca que Irineu estaria citando textos deuterocanônicos, quando, na verdade, não está. É o caso de quando Irineu escreve que Deus fez o mundo do nada e o editor faz uma nota de rodapé ligando a frase de Irineu ao livro de Sabedoria, quando, contudo, poderia ter feito a ligação com Hb 11:3 (pois quem poderá afirmar que não era essa a passagem que estava na mente de Irineu?);

d) Irineu usava a Septuaginta;

e) Agora, a informação mais “diferente” para mim foi a de que, para Irineu, as Escrituras originais foram destruídas por Nabucodonosor! Um dia desses descobri que a Arca da Aliança foi, provavelmente, destruída na invasão de Nabucodonosor. O que me fez pensar o que, desde Esdras até o tempo de Jesus, o Sumo-Sacerdote fazia no Santo dos Santos. Se não havia a Arca, então não havia propiciatório. Ora, se não havia propiciatório, como era feito o ritual anual de perdão dos pecados? Se não havia Arca, durante mais de 300 anos não havia nada no Santo dos Santos? Como o judeu resolveu isso na cabeça dele? Construir um Templo com o Santo Lugar e o Santo dos Santos, que era onde Deus se manifestava sobre a Arca... Mas sem Arca?! Comecei a pensar sobre isso há alguns meses, contudo, até mesmo amigos judeus não me deram nenhuma resposta satisfatória. Não fosse isso já intrigante, agora aparece essa nova informação: para Irineu, os originais da Bíblia foram destruídos também com Nabucodonosor. Para mim, é uma informação interessantíssima em vários sentidos. Mas o que você pensa sobre isso? Sobre o Templo sem a Arca e sobre a destruição das Escrituras originais por Nabucodonosor?

Eu poderia ainda tratar de vários temas abordados por Irineu, todavia, no próximo post encerro com a exposição da escatologia dele, pois ela é muito interessante como testemunho não apenas de sua teologia, mas de como se pensava naquela época. 

Contra as heresias - Irineu de Lião (2ª parte)

Irineu sabe que pela razão o homem pode ter algum conhecimento de Deus, mas é só pela revelação que ele pode alcançar a consciência plena sobre Deus.

Mesmo assim, ainda estamos num período de defesa do cânon e não de sua análise. O que eu quero dizer com isso? É que Irineu está defendendo os livros e justificando o porquê deles serem aceitos pela Igreja como Palavra de Deus. 

leitmotiv que anima Irineu é, antes de tudo, o Ser de Deus. Pois este era o ataque dos gnósticos: eles diziam que não havia apenas um Deus; diziam que o Deus do AT é diferente do NT; afirmavam que ou Jesus só veio em aparência de homem ou Jesus era um e o Cristo, recebido por Jesus só no batismo de João, era outro; os gnósticos insistiam em uma leitura alegórica e hermética dos livros bíblicos; ensinavam que a gnose deles era superior e que alguns discípulos sabiam dessa gnose deles, então, a leitura do texto sagrado desses gnósticos era sempre uma tentativa de achar as pistas deixadas que indicavam as mensagens secretas que só serão captadas pelos iniciados, etc. 

Portanto, Irineu precisa ser lido naquele contexto histórico e anterior. É preciso que se leia Irineu desde os textos bíblicos, passando por Clemente Romano, Ignácio, Policarpo, Pápias, Taciano e Justino, do contrário, você trará para Irineu o peso já de uma série de debates posteriores que não pertencem a ele. Defendo que, para ser o mais justo possível com Irineu, você o leia não com tudo aquilo que você já sabe, mas com as informações que o Irineu possui. E o mais importante: você deve lembrar que ele não é um autor inspirado e canônico.

A Igreja cristã sempre foi defensora do povo judeu desde o seu nascedouro. Prova disso é a luta incansável dos primeiros pais em se levantar contra todos que queriam eliminar os livros e os trechos que eram "judeus" demais. A Igreja se levantou contra esses chamando-os de hereges! Não fosse assim, se a Igreja quisesse virar as costas para "o povo que matou Jesus", ela não teria lutado tenazmente para manter o Velho Testamento consigo e nem teria se esforçado tanto para continuar vinculada à sua raiz judaica. Agora, depois de todo esse esforço apologético desde Clemente o Romano em 90, vem, a partir do ano 170, a cereja do bolo: o livro IV de Irineu, que compõe o "Contra as heresias", é a defesa dois Testamentos. "Seu plano compreende 3 partes. Além do prefácio e conclusão, temos: a) unidade dos dois Testamentos, provada pelas próprias palavras de Cristo (nn. 1-19); b) o AT é profecia do NT (nn. 20-35); c) a unidade dos dois Testamentos é comprovada pelas parábolas de Cristo (nn. 36-41,3)".

Irineu irá, no Livro IV, mostrar que os judeus não aceitaram a Jesus, porque pensaram que poderiam conhecer diretamente o Pai. Irineu é claro ao afirmar que só se conhece o Pai por meio do Filho.

Ele mostra no Livro IV que o AT é a preparação para a chegada de Jesus. A Lei, o Sábado, a circuncisão, tudo isso foi dado como um meio para preparar o ser humano. E Irineu insiste que nada disso foi dado ao homem para sua justificação, mas como sinal! A partir deste ponto, é necessário que se leia Irineu compreendendo a linha interpretativa que, na verdade, costura e une sua leitura bíblica e que será o traço original dele: a doutrina da recapitulação. Além do contexto histórico, a sua doutrina da recapitulação será fundamental para entendermos como Irineu pensa os próximos temas que serão abordados aqui.

Teologia de Irineu:

Doutrina da recapitulação: A história da salvação humana transcende a vinda de Cristo para a remissão dos nossos pecados. Jesus veio também para recapitular toda a humanidade desde Adão, levando-nos, gradativamente, à perfeição (não há universalismo em Irineu, é bom frisar). A doutrina da recapitulação é a ação educacional progressiva de Deus e é nesse contexto que se encaixa a Lei. O homem não foi criado perfeito e nem imperfeito, mas estava no Plano de Deus nos “aprimorar” para que pudéssemos viver no Espírito. Assim, com a Queda, além da remissão dos pecados, Jesus veio para nos levar à perfeição, tornando-nos humanamente plenos.

Da Queda até o Cativeiro no Egito, o homem não precisava das Escrituras, pois ele sabia em seu coração da lei que ali estava impressa e buscava agradar a Deus, mesmo pecador. Todavia, durante o Cativeiro, ele esqueceu de como agradar a Deus e, então, veio a Lei para que o homem fosse preparado para a vinda plena do Espírito, que levará o homem a se assemelhar com Deus, completando, assim, a sua humanização.

Por isso Jesus veio e viveu todas as fases da vida humana (bebê, criança, adulto), para recapitular a nossa própria história. Quando Adão foi criado, ele era apenas uma “criança”, precisava virar adulto. O objetivo divino, então, é que Adão se torne aquilo para o que foi criado: assemelhar-se ao seu Criador, Jesus, que o criou do barro segundo o molde de Si mesmo, o homem verdadeiro. Todavia, esse homem verdadeiro só foi revelado na encarnação de Jesus. Em Jesus, a humanidade encontrou Deus de novo e só Jesus pode recapitular tudo (por isso as genealogias nos Evangelhos, na verdade, elas mostram já a recapitulação da humanidade até Adão). Com isso, também, Irineu combate um ensino herético do seu tempo que afirmava que Adão não fora salvo.

A “Mariologia” e a doutrina da recapitulação

Assim, compreendendo a doutrina da recapitulação, a gente pode ler Irineu dentro da sua maneira de ler a Bíblia. Em outras palavras, a recapitulação é o óculos que ele usa para ler as Escrituras. A minha proposta, então, é que você aceite 3 pressupostos antes de ler Irineu: 1) ele não é um autor inspirado (logo, comete erros); 2) ele interpreta e explica a Bíblia à luz da recapitulação; e, por fim, mas não menos importante, você deve ler Irineu dentro do tempo dele e não com tudo aquilo que hoje você tem de informação, mas ele não! Vamos lá!

Se você destaca certos trechos de Irineu e os lê no contexto de tudo o que hoje sabemos acerca do ensino romanista sobre Maria, sim, parece que ele vai ao encontro de toda a atual mariologia. Só que não. Entenda: até agora, todos os que lemos, desde Clemente o Romano, enfim, os volumes 01, 02 e 03 da série Patrística, nenhuma teologia mariana surgiu. A construção da mariologia como a conhecemos hoje é ainda posterior a Irineu e não se pode, portanto, pôr na conta dele coisas que, na verdade, outros é que querem ver.

Afinal, o que Irineu disse sobre Maria? A mesma coisa que Justino! Só que Irineu, à luz da doutrina da recapitulação, irá desenvolver o tema. Justino faz a ligação clássica na teologia entre Eva e Maria. E, quando você estabelece isso, a saber, as duas premissas: 1) o pecado entrou no mundo pela desobediência de Eva e 2) a destruição do pecado veio ao mundo pela obediência de Maria, o silogismo carrega você à conclusão: então Maria participou da salvação! A resposta é sim e não! O que Irineu está pensando quando afirma que Maria salvou Eva, e mais, que por causa de Maria houve a salvação do gênero humano? Nada. Nada além do que é aceitável! Vou explicar.

Na doutrina da recapitulação subjaz a doutrina da “recirculatio”, que entende o “desfazimento” dos nós que foram dados: para que o erro seja desfeito é preciso que se faça o caminho inverso. Assim, onde houve desobediência é preciso que haja obediência. Logo, onde Adão errou Cristo acertou. Onde Eva errou, Maria acertou. Se fomos condenados por causa da falta de fé de Eva, fomos salvos pela fé que Maria demonstrou em sua resposta às palavras do anjo. Isto faz parte da economia da história da nossa salvação. Entendendo isso veremos que Irineu não está atribuindo a Maria a efetivação da nossa salvação, pois fosse dessa maneira, a lógica nos levaria a entender que Jesus, então, salvou os homens e Maria salvou as mulheres. Contudo não é sobre isso que Irineu está falando: a obediência de Maria desatou o nó da desobediência de Eva para satisfazer a doutrina da “recirculatio”. Só isso.

Se você entender os limites do pensamento de Irineu, poderá tranquilamente afirmar, juntamente como ele, que a salvação do gênero humano veio de Maria! E não é verdade? Jesus veio de Maria! Mas, digo ainda, que Maria também foi, para Irineu, recapitulada por Jesus: ela está na genealogia de Jesus!!! Entende? Se a própria Maria não precisasse de salvação, ela não seria apresentada na genealogia, pois a genealogia é a recapitulação da história da nossa salvação em Jesus para Irineu. E Maria, aquela que cantou “A minha alma engrandece ao Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador” também precisava de um Salvador. Ora, o que depois fizeram (e fazem) das palavras de Irineu não é um problema dele, mas revela uma interpretação anacrônica sobre seu pensamento e que não leva em conta o próprio todo e contexto do pensamento de Irineu nesses cinco livros. 

(continua...)

Contra as heresias - Irineu de Lião (1ª parte)

Ler “Contra as heresias” de Irineu de Lião é ser lançado num mundo paleocristão de imensas convulsões. Acostumado que estava em sempre encontrá-lo nas notas de rodapé dos manuais e livros de teologia, em geral para comprovar que a Igreja já reconhecia a maioria dos livros do NT como Palavra de Deus em pé de igualdade com o AT (Irineu só não trabalha com os seguintes livros: Ester, Cronicas, Eclesiastes, Jó, Cântico dos Cânticos e Obadias (AT) e II Jo e Filemon (NT)), contudo, achei muito mais interessante ler como Irineu maneja as Escrituras para refutar as seitas de seu tempo.

Irineu escreveu o seu livro, ou melhor, sua coleção de 5 livros reunidos posteriormente debaixo do título comum de Adversus haereses, entre os anos de 175 até 190. É uma obra espetacular por várias razões: 1) seu valor histórico; 2) levantamento detalhado das seitas e suas heresias daquele tempo; 3) sua refutação lógica que desmonta os ensinos das seitas a partir de suas contradições; 4) a defesa apaixonada da ortodoxia a partir dos textos do NT e do VT (ele é o primeiro a usar a expressão “escrituras” para se referir a ambos testamentos); e 5) a exposição da teologia de Irineu.

O Livro I é dedicado à exposição detalhada das seitas e suas heresias ou, como o autor se expressa, “a teoria deles, que nem os profetas pregaram, nem o Senhor ensinou, nem os Apóstolos transmitiram”. Nesse Livro I, Irineu nos dá um quadro assombroso da confusão mental dessas seitas: uma chocante mistura de judaísmo, cristianismo, mitologia grega, filosofia pré-socrática, religião de mistério, pitagorismo, platonismo, mitologia grega, etc. Só lendo mesmo para se ter uma noção da Hidra contra a qual a Igreja precisou se levantar ainda naquele século. O Livro I faz as nossas atuais seitas e heresias parecerem brincadeira de crianças no jardim de infância. A sensação que eu tive é que sincretismo mesmo foi aquilo descrito por Irineu e nada do que temos enfrentado nos últimos 200 anos se compara àquilo. 

É muito interessante ver o método aplicado por Irineu que mostra não apenas que as seitas interpretavam de maneira errada as Escrituras, mas também a poesia de Homero. Aliás, Irineu não é apenas um profundo conhecedor das Escrituras, mas da filosofia e da poesia greco-romanas! Irineu, portanto, vai primeiramente, demonstrar o erro no uso de alegoria e a busca por um sentido místico, hermético e oculto que as seitas fazem na poesia e na filosofia greco-romana. Este mesmo erro as seitas também cometem ao ler as Escrituras, mostrará Irineu. Mas essa refutação ao próprio “corpus” doutrinário das seitas já é o tema do Livro II.

Os dois temas principais que Irineu está combatendo e, a partir dos quais, devemos ler e interpretar os cinco livros são: 1) o Deus do AT e do NT é o mesmo (disso decorre que o NT é uma continuação do AT); e 2) Jesus, o Nazareno, filho de Maria, é o mesmo Cristo prometido no AT (Jesus não “recebeu” o Cristo no batismo, pois Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, Verbo eterno). 

Um dos pontos mais importantes em Irineu e nos que o precederam é a luta na preservação dos livros do AT. A defesa de que o Cristianismo não é uma seita revolucionária, ao contrário, o cristianismo é a revelação ortodoxa cujas raízes se fincam profundamente na Escritura judaica. Por isso, a igreja se levantará tenazmente contra todos aqueles que querem expurgar tudo que “é judeu”, sejam partes ou mesmo livros inteiros como fez Marcião, o herege (150).

Assim, na Soberania divina, aquele imbróglio de heresias que surgiram e se desenvolveram desde o início serviu para que a Igreja defendesse a Tradição Apostólica da Fé e não apenas a canonicidade dos livros em si. Por isso, por mais de uma vez, Irineu faz uma exposição da Regra da Fé cristã recebida diretamente dos Apóstolos que fundaram as igrejas espalhadas pelo mundo, que será a base para o Credo que será desenvolvido depois. Veja abaixo:


Esta obra, de tamanha envergadura, sem sombra de dúvida é um marco para a separação da igreja do ocidente e do oriente. A igreja oriental vai assumir cada vez mais uma interpretação alegórica, que será insustentável diante das seitas e heresias daquele tempo. Irineu impõe, magistralmente, a interpretação lógica e analítica do texto e seu contexto e a usa não apenas sobre as Escrituras, mas também para demolir as heresias! Todavia, o próprio Irineu, fará também interpretações profundamente alegóricas como mostrarei mais adiante. Enfim, estará aí uma das decisões mais importantes para a futura exegese da Igreja.

Outra dificuldade das seitas era aceitar a doutrina da ressurreição dos corpos – o corpo era mau e deveria ser extinguido, logo, a salvação no Cristo era apenas para a alma. Para refutar essa ideia Irineu desenvolve uma belíssima teologia do corpo e a importância do ser humano como um todo – corpo, alma e espírito (nada a ver com uma discussão tricotômica ou dicotômica, antes holística)! O corpo nada é até que lhe venha o ES e comece a prepara-lo para a vida eterna! Se esta carne consegue receber vida de Deus, muito mais a carne preparada para a glória e cheia do Espírito Santo poderá ser ressuscitada, diz Irineu.

O livro III inicia com a apaixonada defesa da “Tradição Apostólica”, que é o Evangelho recebido pelos apóstolos, o ensino sobre a economia da nossa salvação. No Livro III, como em todos os escritos anteriores de outros Pais, ele demonstra que a palavra gnose é usada sem a conotação pejorativa que usamos atualmente. Na verdade, o que vemos é que, para aqueles Pais da Igreja, o que está acontecendo é uma batalha entre duas gnoses: a cristã, revelada por Deus, e a das seitas, herética e inventada por pessoas que não são quem elas dizem que são (para saber mais clique aqui).

Irineu confirmará o número de 4 Evangelhos aceitos pela Igreja espalhada por toda terra, dizendo que o de Mateus foi escrito para os judeus originalmente na língua deles, o Evangelho de Marcos fora uma pregação de Pedro, o de Lucas fora uma pregação de Paulo e que o Evangelho e o Apocalipse de João são do discípulo que recostava a cabeça no peito de Jesus naquela última noite narrada no Evangelho. E mais: à luz de Ezequiel e Apocalipse, ele defende o Evangelho único e quadriforme! Cada Evangelho com suas características e públicos (leão, novilho, homem e águia), mas unidos na descrição de Jesus!

Em momento algum, defendo eu, Irineu faz uma defesa do papado romano ou do primado do bispo de Roma (vou mostrar isso em outro post). O contexto é de ataque e Irineu mostra que a competência cristã em salvaguardar o tesouro do ensino apostólico é muito maior do que o dos “mestres gnósticos”, que não tem tradição alguma da qual possam tirar seus ensinos.

O que precisa ficar claro, portanto, é que para Irineu a “tradição” é a Regra de fé. Apenas isso. O que eu quero dizer? Não está em “Contra as heresias” a defesa de que a sucessão apostólica dá autoridade para inserir novas doutrinas. A tradição é aquilo que as Igrejas já receberam (ver acima a imagem da Regra de Fé, que é a isso o que Irineu chama de "Tradição").

A defesa maravilhosa da Santíssima Trindade e da presença especial do Espírito Santo nos autores apostólicos também aparecem no Livro III.

Da obra como um todo, posso depreender um método apologético usado por Irineu: 1) conhecer profundamente o pensamento da seita e suas heresias; 2) refutar o pensamento herético por meio da lógica e da análise das contradições desse pensamento; 3) refutar o pensamento da seita a partir das Escrituras; 4) defender a saudável interpretação das Escrituras, mostrado os erros de interpretação da seita sobre as passagens usadas por ela.

(continua...)

Justino de Roma - série Patrística, vol. 3

Em pleno ano 155 (+/-) d. C., há os escritos de Justino de Roma, o mártir, que coloca em pé de igualdade os escritos do AT e do NT, citando a ambos em abundância nos seus livros.

Além disso, surpreendeu-me ver em Justino tanto as ideias da "semente da religião" como a do "fator melquisedeque". Na verdade, essas duas ideias estão amarradas. A "semente da religião" de Calvino parte do pressuposto que fomos criados à imagem e semelhança de Deus e, mesmo após a queda, essa imagem aviltada pelo pecado gera em nós uma "saudade" (Santo Agostinho). Porém, como o ser humano não pode chegar a Deus pela Teologia Natural (analogia entis), sem a Revelação especial (analogia fidei), é impossível conhecer a Deus, daí essa "sede", "saudade", "religiosidade" humana se perde no sagrado impessoal e nas muitas imagens erradas sobre o Ser de Deus. O "fator melquisedeque" parte de uma apropriação do personagem bíblico do AT, o Sacerdote Melquisedeque, rei de Salém, que depois será trazido como um tipo de Cristo pelo autor de Hebreus. Don Richardson vai defender que o Evangelho já está presente nas diversas culturas humanas e uma das principais razões se deve ao fato de que todos os povos e culturas do mundo vivemos as mesmas narrativas de Gênesis 1-10, além da presença da "semente da religião" em todos os seres humanos.

Don Richardson, missiólogo, dirá que o missionário, portanto, deve estar atento à cultura para identificar nela os elementos do Evangelho que podem ou não ainda subsistir. Para um aprofundamento dessas ideias, indico dois livros do Don Richardson: "Fator Melquisedeque" e "O Totem da Paz". Evidentemente, que essa ideia de Richardson não é matemática, isto é, impreterivelmente todas as culturas apresentarão elementos do evangelho. Nem todas apresentarão, como, também, as que apresentarem talvez já tenham elementos tão deturpados pelo pecado cultural que nem vale a pena aproveitar sob o risco de sincretismo.

Quando se fala em elementos do Evangelho, quais seriam? A presença na cultura de ideias de justiça, de pagamento, historias sobre um inocente que entrega a vida em benefício do grupo, etc. Tudo isso pode facilitar a apresentação do Evangelho por parte do missionário transcultural.

E é exatamente isso que Justino faz em suas apologias! Assim como Paulo, Justino reconhece a semente religiosa revelada pelos filósofos gregos, que chegaram mesmo à compreensão do monoteísmo contra a cultura politeísta ainda resistente. Na verdade, todas as discussões da filosofia grega se davam na base do Ser imutável que sustentaria a mutabilidade de todas as coisas. Justino louva o que a cultura filosófica e mítica dos greco-romanos conseguiu alcançar. Justino, então, usa o que Don Richardson chama de "abridor de olhos", mostrando que o Evangelho não é algo assim tão estranho à cultura do seu público.

Por outro lado, diz Justino, isso não é suficiente, pois as próprias contradições apresentadas nos mitos e na filosofia grega entre seus autores revela que falta algo superior, falta uma luz naquelas trevas. Daí Justino passa a pregar o Evangelho revelado nas Sagradas Escrituras desde Gênesis por Moisés (portanto, um conhecimento muito anterior aos filósofos pré-socráticos e a Homero: o argumento da antiguidade foi fortemente usado pelos Padres Apostólicos e Apologistas para refutar a cultura pagã daquela época). Justino é simplesmente um comunicador e um contextualizador de mão cheia! É uma delícia ler as Apologias dele e imaginar que estamos lendo um texto de uma igreja recém-nascida e que já precisa dar a razão da sua fé diante de leões.

Se eu pudesse apontar dois "poréns" na teologia de Justino, eu diria que falta a Justino uma noção da total depravação do gênero humano e, como uma das consequências, muito do mal que ele constata na cultura ele atribui fortemente à ação demoníaca. Contudo, compreendendo isso, ler Justino é avivar tudo o que cremos em nosso coração.

No seu "Diálogo com Trifão", Justino evangeliza o judeu Trifão nos presenteando com um texto maravilhoso sobre como usar as Sagradas Escrituras para apresentar o Cristo. Como já disse, todas as doutrinas essenciais do Credo se encontram nas obras de Justino. Inclusive, a obra "Diálogo com Trifão" é a primeira obra que temos que mais cita a realidade do nascimento virginal de Jesus (19 vezes!).

Tudo isso me faz lembrar certo professor que me disse uma vez que "estudar história da filosofia não é Filosofia". Isto, na verdade, se aplica a todas as outras disciplinas: estudar história da Igreja ou história dos mártires ou biografias de teólogos não é o mesmo que ir às fontes primárias e beber lá! Em outras palavras, eu posso, por exemplo, saber tudo sobre a vida de Machado de Assis e saber sobre o que versa cada livro e conto que ele escreveu, sem, contudo, ter lido uma linha, um conto, um livro dele!

E o que eu percebo é que as escolas, faculdades, cursos gerais, seminários, etc estão se especializando em "história", "resumo", "esquema" e coisas assim, sem levar o aluno, o estudante, a ler as obras desses grandes escritores.

Em teologia, tudo isso se torna ainda mais grave, pois ficamos acostumados com aqueles ensinos gerais do tipo: "Fulano cita não sei quantas vezes o AT", "Ciclano cita não sei quantas vezes o NT", tudo isso para nos mostrar que, naquela época, tais autores já compreendiam esses evangelhos e cartas como Palavra de Deus em pé de igualdade com o AT. E que aquelas velhas mentiras liberais de que as doutrinas foram forjadas só quando o "Cristianismo se tornou uma religião do Império para manipular as pessoas", elas são só isto mesmo: mentiras. Ainda assim, ler "manuais de teologia" que nos passem essas informações é se encontrar com informações de 3ª, 4ª mão. Até porque a maioria desses manuais ou livros sobre história da Igreja já são eles também frutos de coleção de outros manuais. Enfim, pouquíssimos vão às fontes primárias (mesmo quando há tradução delas em português).

O que eu quero dizer é que ler obras como as que foram escritas pelos Padres Apostólicos, pelos Padres Apologistas e por Justino (obras que foram escritas até o ano 170 d. C.) é constatar não apenas que as doutrinas da fé cristã já estavam ali, mas, principalmente, ver como esses primeiros e corajosos defensores da fé tiveram que lidar com a cultura helênica, o mundo romano e o judaísmo daquele tempo. Como eles defenderam a fé a ponto de morrer por ela! Eram comunicadores do Evangelho, alguns desses homens souberam de modo magistral contextualizar essa comunicação para seu público, outros fincaram o pé naquilo que era inaceitável do mundo pagão à mente deles. Mas todos não estavam ali para brincadeira: eles amavam o Senhor Jesus!

Por que muitos professores, neste modelo infeliz de "Educação" que temos, enfiam um conteúdo a ser passado dentro de um limite de tempo em que se é impossível "ler livros", ler as fontes originais? Quantos não são os alunos que mergulham em aulas-resumo e se "especializam" em resenhas sem nunca ler as obras de fato, engolindo as interpretações erradas, manipuladas e deturpadas de terceiros, quartos e quintos!

Infelizmente, há pastores em muitos púlpitos que sequer leram a Bíblia inteira uma única vez na vida - isto é uma tragédia! Há missionários, que se propõe a traduzir a Bíblia, mas que nunca a leram sequer uma única vez inteira em suas vidas - outro escândalo!

A lista é enorme das atrocidades cometidas pela nossa geração no quesito formação intelectual: há pastores, presbíteros, diáconos (e tantos outros líderes) que já leram Barth, mas nunca leram Justino. Já leram René Padilha, mas nunca leram Agostinho. Já leram Leonardo Boff, mas nunca leram Tomás de Aquino. Já leram William P. Young, mas nunca leram João Calvino. Já leram o último livro da moda gospel, mas nunca leram a Bíblia toda sequer uma única vez na vida...

Para finalizar, gostaria de deixar como interessantíssima curiosidade a liturgia dos cultos dominicais registrado por Justino:

1) No domingo, reúnem-se os cristãos da cidade e do campo;
2) Leitura do Novo Testamento ("memórias dos apóstolos") e leitura do AT ("escritos dos profetas"), enquanto o tempo permitir;
3) Palavra de exortação do Presidente da comunidade sobre o que foi lido e aplicação dos exemplos lidos para a vida dos ouvintes;
4) Abençoa-se os elementos da Santa Ceia;
5) O Presidente ora;
6) Faz-se a ação de graças e distribuição desses elementos (incluindo os ausentes, que receberão das mãos de diáconos em suas casas);
7) Momento do recolhimento das ofertas;
8) O Presidente destinará as ofertas para as devidas necessidades (órfãos, viúvas e outras causas).

Padres Apologistas

Após ler os dois primeiros livros da série "Patrística", Editora Paulus, (veja o 1º aqui) fiquei com aquela sensação, ou melhor, pergunta insistindo na minha cabeça: "Por que nunca li estes livros no Seminário"? 

Em algum Seminário por aí, quem sabe, talvez professores estejam passando essas obras maravilhosas de Clemente Romano, Inácio de Antioquia, Policarpo de Esmirna, ou mesmo Atenágoras, Taciano, etc, ao invés de Teologia Liberal (aliás, eu quase que só vi teologia liberal rsrsrs). São cartas, defesas, documentos valiosíssimos não apenas pelo seu testemunho histórico, mas, principalmente, por mostrar uma Igreja no seu nascedouro e já engajadíssima em defender a fé que uma vez por todas foi dada aos santos.

A luta da Igreja contra a divisão do Cristianismo, a busca pela unidade da fé, a defesa da hierarquia eclesiástica, o esforço no discipulado, o posicionamento claro diante dos primeiros hereges e seus falsos ensinos, a luta contra o gnosticismo, contra o antissemitismo e contra o paganismo são as marcas de um povo espalhado pelo Império Romano e que avançava firmemente no trabalho de evangelismo.

As cartas desses apologistas são endereçadas aos Imperadores Romanos e, com toda a ousadia e sem nenhum pudor politicamente correto, eles não apenas defendem as doutrinas centrais da fé como a Santíssima Trindade e a ressurreição de Cristo e da carne, como também não fogem de um ataque frontal contra a fé pagã romana. Eles não são apenas apologistas, como o título faz supor. Eles são atacantes, beligerantes mesmo, que por meio da retórica, da própria cultura greco-romana, do argumento da antiguidade e da Bíblia investem contra a fé pagã reduzindo-a ao ridículo. 

É muito bom ver como já se desenvolvem as interpretações alegórica e literal da Bíblia e o desenvolvimento, portanto, da gnose cristã que irá ser fundamental na teologia ortodoxa da Igreja do Oriente, marcando definitivamente a diferença entre o Cristianismo Ocidental e o Oriental. 

Espero poder seguir adiante na leitura de toda a série da Patrística, uma vez que ela se encontra na Amazon por um preço muito mais acessível do que sua versão em papel. Boa leitura!    

"ÁGUAS VIVAS"






Jorge F. Isah


Tive a honra de ser selecionado para participar da Coletânea de poesias "Águas Vivas - Volume 5", cujo idealizador, realizador, editor e empreendedor full time é o mano Sammis Reachers, do "Poesia Evangélica"

Minha participação se resumiu a 9(nove) poemas, dos quais apenas 01(um) é inédito [A Cura], já que os demais foram publicados no meu ebook solo "A Palavra Não Escrita". Entretanto, o leitor poderá se deliciar com outros tantos dos demais 6 (seis) autores/colaboradores. 

Não tenho palavras para agradecer o estímulo, incentivo e a gentileza com que o Sammis tem dispensado a mim e ao meu trabalho autoral. Realmente, sou-lhe grato e devedor para todo o sempre!

Aos amigos e irmãos, baixem o ebook, gratuitamente, no link abaixo, e leiam o que cada um de nós tem a dizer sobre o relacionamento, comunhão e as infinitas dádivas que nos são dispensadas pelo nosso Senhor Jesus Cristo. 

A ele, honra, glória e louvor para todo o sempre!

Boa leitura!!


 

Primeira carta de Clemente aos Corintos - Padres Apostólicos (série Patrística, vol. 1)

“A ordem do universo é modelo de concórdia e paz”, escreve Clemente, o Romano, em sua carta datada por volta do ano 90 d. C.. Provavelmente escrita quando o Apóstolo João ainda estava vivo e apenas 40 anos depois das cartas de Paulo para a mesma comunidade da cidade de Corinto. Só esses dois detalhes já deveriam instigar qualquer cristão a ler tal documento de valor incalculável para a fé cristã. 

A Carta de Clemente, contudo, guarda outros encantos, a saber, desde quem é Clemente, que já foi cogitado até ser o autor do livro aos Hebreus do cânon bíblico e colaborador de Paulo, citado em Fp 4:3, até os temas tratados na Carta, que vão desde a desobediência de alguns aos presbíteros até a justificação pela fé. Na verdade, a razão da carta é resolver uma dissenção que ocorreu na igreja e isso nos presenteou com um texto deliciosamente escrito por meio do encadeamento de argumentações ricamente ilustradas pelos eventos do Antigo e Novo Testamentos. Citações não apenas do AT aparecem, mas de várias passagens do NT também.  

Essa carta é o primeiro texto que se encontra no volume 1 da Série Patrística, editora Paulus. O livro ainda trará os textos de Inácio de Antioquia, Policarpo de Esmirna, O pastor de Hermas, Carta de Barnabé, Pápias e Didaqué.

Para resenha completa, clicar aqui. Boa leitura! 

Cristianismo Primitivo e Paideia Grega - Werner Jaeger (resenha)

Após a leitura de algumas obras platônicas, em especial o Timeu, é inegável a percepção de que o mundo fora preparado para a chegada do Evangelho. E, para surpresa minha, é exatamente esta a tese de Werner Jaeger em “Cristianismo Primitivo e a Paideia Grega”. 

Jaeger nos traz àquele mundo do Cristianismo Primitivo em um pequeno livro de apenas 118 páginas, nas quais condensa o desafio que foi para a Igreja aquele seu momento inaugural em que ela era acusada de canibalismo, ateísmo e de desobediência revolucionária contra o Império Romano. 

Desde Clemente, o Romano, que escreve sua carta pastoral aos Coríntios menos de 40 anos depois de Paulo ter escrito aos mesmos destinatários, passando pelos Padres Apologistas; e seguindo pelos Neoplatonistas e sua influência até mesmo em Santo Agostinho; apresentando o Cristianismo dos Alexandrinos e Capadócios; até, finalmente, o capítulo final sobre Gregório de Nissa, é, portanto, esse o período abordado por Werner Jaeger.

Para a resenha completa, clicar aqui. Boa leitura!

Nos passos de Hannah Arendt (Biografia)

       

Nestes últimos anos, além de vários artigos e ensaios, tive a oportunidade de ler Eichmann em Jerusalém, Homens em tempos sombrios, Origens do totalitarismo, O que é política e, neste exato momento, tenho em mãos a sua última obra, lançada após sua morte, A vida do espírito, leitura que já estou tendo o prazer de fazer. Pretendo ler também sua obra inaugural O conceito do amor em Santo Agostinho, ainda neste ano, se Deus quiser. Aliás, descobri que essa primeira obra filosófica de Arendt recebeu críticas terríveis de Karl Jaspers, seu orientador e amigo de sempre. É muito interessante acompanhar não apenas o contexto histórico, mas, principalmente, as características da personalidade da jovem filósofa de apenas 22 anos de idade que contribuíram para as críticas recebidas sobre sua tese em Agostinho.  


Por tudo isso, ler a biografia Nos passos de Hannah Arendt foi uma experiência apaixonante, particularmente por Laure Adler oferecer um roteiro bibliográfico de formação da Hannah Arendt. Assim, podemos acompanhar, durante cada etapa da vida da filósofa, os livros que ela lia, os autores que devorava, os poetas nos quais se refugiava nos tempos difíceis. Adler também vai marcando, passo a passo, o momento em que Hannah escrevia seus artigos, ensaios e livros. Resultado? Preciso reler o livro de Laure Adler, fazendo esse roteiro bibliográfico de Hannah, sobretudo agora que foi lançado o Escritos judaicos, obra que reúne os artigos de Hannah Arendt até os anos 60.

Acredito que meus primeiros contatos com Hannah Arendt se deram ainda na Faculdade de Letras, por causa de seus escritos na área de educação americana, nos quais ela criticava a postura vitimista da comunidade negra e o que ela considerava um uso errado das crianças negras por seus pais na luta pelos direitos de ir à escola dos brancos, colocando essas crianças em situação de risco. Hannah não acreditava que o racismo deveria ser combatido com criação de leis antirracistas, pois estas teriam um efeito contrário na sociedade. Obrigar por meio da lei as crianças negras a frequentarem escolas de brancos, lugares em que elas eram humilhadas, maltratadas e indesejadas levanta, para Arendt, a indagação se valeria a pena “forçar o real e deixarem essas crianças viverem o inferno, em nome de uma luta contra a segregação, impor que elas se tornassem os heróis da luta antirracista”. Hannah foge sempre dos clichês politicamente corretos e denuncia que “há também uma derrota de autoridade dos adultos, que abdicam de sua responsabilidade ao delegar ao Estado a preocupação em se ocupar de seus próprios filhos”. Hannah pergunta: “Será que chegamos ao ponto de pedir às crianças para mudar o mundo ou melhorá-lo? Será que procuramos conduzir nossas batalhas políticas no pátio de recreação das escolas?”.

Esta é Hannah Arendt: uma filósofa que resolveu pensar em tempos sombrios e que, certamente, arcou com as consequências de fazer perguntas tão obscenas quanto “os judeus são responsáveis por seu extermínio?”. Para Hannah, o “mecanismo de apagamento voluntário do ser judeu precedeu e talvez tenha autorizado o Holocausto”. O livro de Adler, portanto, é uma imensa narrativa sobre os embates, guerras, tragédias, genocídios e assassinatos vividos e refletidos por essa judia nascida alemã em pleno século XX.

Adler nos dá o contexto dos judeus que, por tanto tempo, ainda no século XIX, lutaram pelo direito de serem recebidos como cidadãos na Alemanha, mas que, repentinamente, seus filhos veriam crescer no século seguinte o movimento do Nacional-Socialismo e sua política antissemita. Judeus ou alemães? Essa crise de identidade acompanhará aquela geração de judeus alemães que cresceram junto com Hannah Arendt.

Nos passos de Hannah Arendt retrata muitíssimo bem toda a polêmica que acompanhou Hannah diante da publicação de Eichmann em Jerusalém, obra jornalística em que ela expõe a cooperação dos Conselhos Judaicos na confecção das listas dos que seriam mandados para a morte nos Campos de Extermínio dos nazistas. Embora essa cooperação já fosse do conhecimento dos tribunais e governos antes mesmo do próprio julgamento do nazista Eichmann, ela expõe o fato de uma maneira que a indispõe com muitos dos líderes e anciãos judeus da época ao ponto de vários rabinos escreverem às comunidades judaicas orientando-as para que, durante a comemoração do Ano Novo, elas pregassem contra Hannah Arendt. Laure Adler pinta com todas as graves cores a perseguição, o ódio, a difamação e injustiças sofridas por Hannah, que foi criticada muito mais pelo que disseram que ela disse (mas não disse) do que pelas coisas que, de fato, escreveu. Adler, porém, não esconde as falhas, os erros, as contradições e o orgulho de Hannah Arendt. O próprio fato de, como conselheira editorial, ela ter impedido a publicação, antes do lançamento de Eichmann em Jerusalém, do livro do historiador Raul Hilberg, que já apresentava toda a documentação sobre a cooperação dos Conselhos Judaicos ao regime nazista, demonstra estes traços negativos da filósofa.

É em Eichmann em Jerusalém que Hannah Arendt apresenta o seu famoso conceito de “banalidade do mal” ao defender que o ser humano não precisa ser “mau” para praticar a maldade, fugindo das caricaturas tão propagadas do louco nazista ou do sádico de suástica e também do funcionário público estúpido. Ela percebe que qualquer um de nós, “pessoas comuns”, podemos cometer as atrocidades que foram empreendidas por pessoas como Eichmann. Ao desenvolver essa tese, Hannah quer refletir sobre três coisas: 1) a natureza do mal; 2) como evitar que um novo genocídio ocorra de novo; e 3) o que leva pessoas comuns como Eichmann a se tornarem uma peça numa engrenagem assassina.

A partir desse conceito de “banalidade do mal”, Hannah demonstra que a origem das ações criminosas perpetradas por pessoas como Eichmann, reside no momento em que elas abdicam do seu direito de pensar, entregando-se à moral fornecida pelo Estado por meio da lei. Elas abrem mão da própria consciência, abrem mão de refletir, de pensar, de julgar. Para Hannah Arendt, portanto, o ser humano, qualquer ser humano, torna-se agente do mal quando não reflete, não pensa, quando abre mão da própria consciência e adota, enfim, a moral do Estado ou do grupo.

Particularmente, entre as contradições da filósofa, a que mais me chamou a atenção foi que, na vida amorosa, Hannah Arendt aceitou a submissão a dois homens abertamente contrários à causa judaica: Heidegger e Heinrich. O primeiro, filósofo que aderiu ao Nazismo e fechou as portas da Universidade para professores judeus, foi amante de Hannah. O segundo foi seu marido e, como comunista, nunca apoiou as causas judaicas, sempre se apresentando avesso às lutas sobre o Estado de Israel.  

Ainda por causa da sua experiência com Eichmann, ela escreverá sua última obra sobre o pensar, sobre a vida do espírito. O ato de pensar é a única saída para que o ser humano não repita mais os crimes terríveis perpetrados por regimes totalitaristas. É preciso, então, que o homem reflita, pense, julgue, não abra mão da sua consciência. Assim, a própria vida de Hannah Arendt é um testemunho sobre sua lealdade ao que pensava, refletia, julgava. Contra tudo e contra todos, ela teve coragem de tocar em temas polêmicos que a Europa se recusava a refletir, a pensar.

 Em determinado momento do livro, a autora Laure Adler indaga: “Visivelmente impregnada de um cristianismo primitivo, influenciada pelas Confissões de Santo Agostinho, fazendo do amor pelo bem uma qualidade política, será que Hannah se tornou crente?”.

Hannah, aluna de Bultmann e fiel leitora de Kant, Heideggeriana, busca uma filosofia que ultrapasse seu professor de fenomenologia, Husserl: ela crê que o nascimento é o fundamento da vida e faz da vida a razão da sua filosofia. Cada nascimento é um novo começo, é a vida retornando, dando uma nova chance ao homem. A biógrafa de Hannah relata que, assistindo ao Messias de Handel, a filósofa teria tido uma iluminação: “Tivemos um filho. (...) O cristianismo é de qualquer maneira alguma coisa”. Leitora atenta dos Evangelhos, especialmente o de São João, Arendt vê de maneira especial o nascimento de Jesus como uma cisão na história da humanidade. “Todo começo é salvação, é em nome do começo, em nome dessa salvação, que Deus criou os homens no mundo. Cada novo nascimento é como uma garantia de salvação no mundo, como uma promessa de redenção para aqueles que não são mais um começo”. Diante dessas palavras de Hannah Arendt, recordo os versos do poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto, os quais podem ser apresentados como síntese poética da filosofia proposta por Arendt:

Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, Severina
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida Severina.  


Diante da indagação se teria Hannah se tornado crente, Adler menciona uma enigmática e insistente homenagem que Hannah presta a Jesus: “O milagre que salva o mundo, a esfera dos negócios humanos, de sua ruína normal e natural é, em última análise, o fato do nascimento, no qual a faculdade de agir se radica ontologicamente. (...) Esta fé e esta esperança no mundo talvez nunca tenham sido expressas de modo tão sucinto e tão glorioso como nas breves palavras com as quais os Evangelhos anunciaram a boa nova: ‘Nasceu uma criança entre nós’...”. 

Sal da Terra em Terras dos Brasis (Rev. Wadislau Martins Gomes)

“Como vemos e somos vistos na cultura brasileira” é o subtítulo deste maravilhoso livro de missiologia, mas não de uma missiologia “departamental”, estanque ou vista como “um braço da Igreja”. A Igreja é Missão! Missão é a própria Igreja! A partir destas premissas o livro procura relembrar à Igreja qual, afinal, é a missão que Deus lhe confiou.

Fugindo, portanto, dos mitos e lugares-comuns da atual missiologia, cada vez mais contaminada por um viés ideológico, Rev. Wadislau expõe a idolatria do “ide” que tem levado a obra missionária a um pragmatismo, ora romântico, ora triunfalista, do “ir” cada vez mais longe, enquanto que a Igreja Local se distancia do ensino bíblico de que muito mais importante do que simplesmente “ir” é  COMO “ir” e, mais do que nunca, acho que posso dizer isso após a leitura deste livro, é preciso também que a Igreja aprenda a como FICAR.

Como professor de comunicação transcultural para missionários brasileiros, identifico que a energia investida para se comunicar com uma outra cultura tem sido inversamente proporcional ao esforço de se compreender a própria cultura brasileira na sua mais rica variedade étnica, social, etária e multicultural. E este livro, para mim, torna-se um bálsamo no meu projeto educacional de fazer com que o missionário entenda que se ele não aprender a fazer uma leitura mais correta e mais precisa das relações humanas dentro de seu próprio país, dificilmente ele aplicará as ferramentas da comunicação na cultura-alvo. É um livro que trabalha com a farta literatura nacional brasileira e ensina o leitor-missionário a ser sensível à voz artística do nosso povo em todas as suas expressões. Essa produção artística precisa ser levada em conta no campo transcultural, pois a música, a poesia, os mitos, a pintura, a escultura e, entre tantas outras coisas,  até mesmo a produção acadêmica dos próprios nacionais – aprender a ver como eles veem a si mesmos –  tudo isso nos ensina a compreendê-los. Mas, antes de tudo, defendo que é aqui em sua própria cultura, país e língua que o missionário transcultural precisa fazer o dever de casa de treinar o que pretende fazer "lá fora".   

A missão da Igreja é glorificar a Deus aonde quer que ela se encontre. A Igreja não é chamada para um lugar, mas para brilhar aonde quer que esteja. Missão é evangelização e evangelização é cumprir a missão dada por Deus à Igreja.  A evangelização não pode estar desassociada do discipulado, de caminhar junto, de andar lado a lado com a pessoa que Deus tem posto para ouvir, ver e compreender da nossa boca e da nossa vida a beleza evangélica da mensagem salvadora. Aliás o tema da beleza perpassa toda a exposição do Evangelho feita nas 551 páginas desta obra que, muito mais do que ser lida, precisa ser estudada. E esta mensagem evangélica total deve atingir totalmente a vida do evangelizado. Os subtemas abundam diante dos olhos do leitor: “Beleza ou feiura são coisas do coração”, “O ambiente da vida cristã: a beleza de Cristo na face da Igreja”, "Cristo em nós e nós em Cristo: um ambiente de beleza”, etc. Destarte, para que isso ocorra, é necessário que o trabalho evangelístico da igreja se veja como uma ação de aconselhamento, pois “evangelização é aconselhamento e aconselhamento é evangelização”.

Eu e você, Igreja do Senhor, precisamos retornar ao Evangelho e compreendermos “as novas do Reino” (parte 1), que precisam ser manifestadas ao outro por meio de uma “fé arrependida”, que caminha diariamente em santidade, e apresenta as bases claras do Reino (parte 2) sem evangeliquês e firmadas, numa exegese correta, sobre o texto de Mateus da Grande Comissão. O programa de avanço missionário da Igreja é a própria vida diária da Igreja aonde quer que ela esteja, por isso é preciso voltar aos temas da natureza da Igreja, seu propósito, finalidade e vocação. Sem um correto entendimento do que é Igreja, corremos o risco de nos perdermos na nossa relação com a cultura secular e condenar-mo-nos também a uma visão ideológica da ação social (parte 4).

Por fim, Missão é instrução, comunhão, adoração e serviço. Sua mensagem deve ser cristocêntrica, pregar a obra completa de Cristo, sua encarnação, sua vida de obediência, a morte vicária, ressurreição e ascensão!



“Sal da Terra em Terras dos Brasis” ainda nos presenteia com um estudo muito bem colocado acerca dos dons do Espírito Santo, sua função e finalidade. Contudo o que, especialmente, chamou-me a atenção é a ênfase que o livro dá ao tema da comunicação, mas não qualquer comunicação, a nossa comunicação é evangelizadora! Além do tema da comunicação, surpreendeu-me encontrar na obra um verdadeiro “modelo” para multiplicação de Igrejas. Ora, missão não é fazer discípulos? Discípulos não formam igrejas? Igrejas não são plantadas para resplandecer no mundo a face de Deus? Então você encontrará neste livro um modelo de plantação de igreja desafiador para que nossas igrejas locais se multipliquem, ou melhor, sejam transplantadas!

Enfim, surpreende-me que a 1ª edição desse livro seja de 1984 (houve uma 2ª edição em 1999 e, posteriormente, uma 3ª aumentada e revisada no ano de 2014)! O que eu quero dizer é que as ideias que teriam amadurecido e evitado que a Igreja Brasileira tivesse cometido tantos equívocos nas últimas duas décadas estavam à disposição, mas será que ninguém leu este livro? Será que nossas lideranças, nossos seminários, nossos professores nunca tiveram acesso às exposições feitas aqui neste livro? Você deve ler este livro.

“Sal da Terra em Terras dos Brasis” é um livro que me assombrou por várias razões. Primeira, o autor foi meu primeiro pastor assim que fui regatado do Império das Trevas. Segunda, embora o autor tenha sido meu pastor por apenas 2 ou 3 anos, os temas sobre os quais escrevi e dei aula nestes anos todos, coincidem com os que li aqui nesse livro. O que me fez perguntar, durante a minha impactante experiência de leitura, se a influência do Rev. Wadislau foi tão marcante em mim a esse ponto! Terceira razão, a leitura deste livro me serviu não apenas para confirmar que muitas das coisas que vinha defendendo são realmente bíblicas (embora nem sempre aceitas pelas igrejas de hoje em dia), mas serviu-me também para proteger-me de certos desvios que, com a leitura desse livro, consegui perceber na relação Igreja-comunicação-cultura. A quarta razão é poder voltar a ter mais contato com o Pastor Wadislau e sua esposa, a Elizabeth. Por todas essas razões quero não apenas indicar a leitura deste livro, mas trazê-lo à sala de aula das EBDs e Seminários, pois seus temas e exposições são urgentes para a Igreja Brasileira de Fé Reformada, para que alcancemos o prumo certo no tratamento correto do tema de missiologia.      

Estou convencido de que este livro é fundamental para qualquer pastor de Igreja e para aquele missionário que você acompanha e ora por ele. Sem sombra de dúvida, você estará fazendo o melhor investimento possível no ministério de nossos pastores e missionários presenteando-os com esta obra riquíssima. Onde encontrar este livro para comprar? Basta clicar aqui: Editora Monergismo! 

Uma Curva no Rio








V. S. Naipaul
Companhia das Letras
320 Páginas


"O muçulmano Salim é um imigrante indiano que se estabelece num país africano recém-desocupado pelos colonizadores britânicos. Protagonista e narrador de Uma curva no rio, ele assiste à lenta degradação dessa sociedade depois que o Grande Homem, um líder populista e corrupto, assume o poder.
Atrás do balcão de seu armazém, num lugarejo imaginário localizado na curva de um rio, na Costa Leste da África, Salim testemunha o destino dos vários personagens que habitam a região: a "bruxa" Zabeth e seu filho Ferdinando, o padre católico, o intelectual branco da cidade e sua sofisticada mulher.
Comparado a O coração das trevas, de Joseph Conrad, Uma curva no rio examina com muita ironia o impacto da herança colonial e do fervor nacionalista no interior profundo do continente africano. O autor explora as contradições do contexto social e político da África pós-colonial por meio de um microcosmo que ilustra a dificuldade dos povos africanos em criar uma identidade coesa e forte."

Caixa de Pássaros [**]









Josh Malerman
Editora Intrínseca
272 Páginas


"Romance de estreia de Josh Malerman, Caixa de pássaros é um thriller psicológico tenso e aterrorizante, que explora a essência do medo. Uma história que vai deixar o leitor completamente sem fôlego mesmo depois de terminar de ler."



O Caniço Ferido








Richard Sibbes
Editora Monergismo
116 páginas


"Desde sua primeira publicação em 1630, “O Caniço Ferido” tem sido notavelmente frutífero como fonte de ajuda e conforto espiritual."

"Não há introdução melhor aos puritanos do que os escritos de Richard Sibbes, que é, em muitas maneiras, um puritano típico. “Sibbes nunca desperdiça o tempo do estudante”, escreveu C. H. Spurgeon, “ele espalha pérolas e diamantes com ambas as mãos”.


O Longo Adeus [***]







Raymond Chandler
Editora Objetiva
400 Páginas


"Terry Lennox poderia ter a vida ganha. Ex-veterano de guerra, casou-se com a milionária Sylvia Potter e não precisaria mais se preocupar com nada desde que fechasse os olhos para a devassidão escancarada da mulher. Ele, no entanto, se afunda na bebida. É assim que Philip Marlowe o encontra — caído, inconsciente —, e a partir daí ambos criam um estranho laço de amizade. Quando Lennox lhe pede para fugir do país em circunstâncias misteriosas, Marlowe aceita ajudá-lo, mas aos poucos se vê enredado a uma elite poderosa e desajustada de escritores alcoólatras e mulheres fatais, que fará de tudo para encobrir os próprios crimes.
Publicado em 1953, O longo adeus é a obra mais ousada e desafiadora de Raymond Chandler. É, nas palavras de Ricardo Piglia, 'talvez o melhor romance policial que já se escreveu'”.