Após a leitura, classificarei os livros assim:
Péssimo [0] Ruim [*] Regular [**] Bom [***] Muito Bom [****] Excelente [*****]

O Desconhecido e Mãos Vazias (***)




Lúcio Cardoso
Ed. Civilização Brasileira
320 páginas


"Da vasta obra de Lúcio Cardoso, Mãos vazias (1938) e O desconhecido (1940) são novelas hoje quase esquecidas e, no entanto, das mais felizes e significativas. Sim, se foi a partir de A luz do subsolo, em 1936, que Lúcio se afirmou definitivamente como ficcionista, é, sobretudo, com Mãos vazias e O desconhecido que ele, além de conquistar a sua verdadeira fisionomia de escritor, chegou ao seu mot juste. Da primeira fase de sua obra, talvez sejam os mais instigantes sob o ponto de vista da concepção e da realização artística, tornando evidente a maturidade do criador de estados de alma, entre a razão e a loucura, traços até então bem raros no romance brasileiro. Seus personagens espelham a desconformidade do autor diante dos seus limites, a sua obcecada e torturada busca de redenção como homem e como artista. Demasiadamente humano, demasiadamente Lúcio" (Sinopse da editora).

6 comentários:

Jorge Fernandes disse...

O Desconhecido é a primeira novela do livro, publicada originalmente em 1940.
Lúcio Cardoso é mais conhecido por seu romance "Crônica da Casa Assassinada", mas foi um escritor prolífico, de livros densos e linguagem invasiva, de poucos amigos.
Nas primeiras páginas, temos um livro intimista, subjetivo, em que não se vê traços de bondade e beleza nos personagens, os quais são descritos em toda a sua feiúra e imperfeição.
Da mesma forma, os ambientes aos quais o protagonista, o "desconhecido", apelidado de José Roberto por sua patroa (demonstrando o desinteresse com as pessoas), são pobres, feios, desumanos, ou excessivamente humanos, naquilo que de pior o homem possuí ou faz.
Ainda que não saibamos muito ou quase nada dos personagens, a construção narrativa é perpassada por uma "dor", como uma ferida que não quer se cicatrizar. Lúcio deixa claro que eles são incapazes de ser felizes, de que, provavelmente, a felicidade não é algo que lhes foi destinada pela sorte. Por isso a amargura, por isso a tristeza, por isso a mesquinhez, por isso a indiferença, por isso a desilusão... há apenas a disputa, e nenhuma possibilidade de afeição. Podem ser comparsas, jamais amigos.
O texto é poético, em tons poéticos, o que pode dificultar um pouco os leitores menos acostumados a uma linguagem poucos coloquial.
Cardoso descreve o homem como se não houvesse culpados pelo que são ou fazem. O destino os fez feios e cruéis, não podem evitar sê-los, não há o que ser feito para transformá-los.
Na verdade, o homem é culpado pelo que ele é e pelo que constrói ou destrói, e deixado à sua própria natureza, certamente perpetrará o mal.
Pena que Cardoso não tenha conhecido Cristo, se não saberia que para o homem impossível e impossibilitado, Deus o possibilita e o torna possível no Seu amor.

Jorge Fernandes disse...

Há traços religiosos ou, pelo menos, o que se pode chamar de religiosidade no livro. A pergunta é: pode o homem livrar-se do pecado e de si mesmo?
Para Lúcio, o homem é o que é, e nada pode impedi-lo de sê-lo. Parte disso esconde a verdade de que, Deus controla o mundo, as pessoas e os seus pensamentos, a fim de que o Seu eterno propósito se cumpra.
Mas o que Deus tem a ver com literatura? Tudo. E o que quero dizer de Deus num livro sobre o homem e a humanidade?
Bem, se não posso visualizar o maravilhoso e santo projeto de Deus em tudo o que faço, leio, vejo e penso, o que me vale a fé? Tenho de ser capaz de perceber nos mínimos detalhes a mão soberana e justa do bom Deus.
Portanto, o "Desconhecido" tem tudo a ver com Deus.
Lúcio criou um personagem que não se adapta, ao mesmo tempo em que se conforma com a sua condição. Ele delineia traços nitidamente homossexuais ao seu "José Roberto", que nutre uma admiração por Paulo, o jovem másculo com cara infantil (o platonismo do protagonista, antes de ser um alívio é uma perene dor), e uma aversão ao Miguel, o protótipo do "bronco", o homem rude que o persegue, e que funciona como uma metáfora à sociedade que rejeita o estigmatizado gay.
Da mesma forma, Aurélia é uma "ode" ao feminismo, ainda que seja uma mulher perversa, odiosa e vingativa. Mas ela é dona do seu nariz, e faz quase tudo o que ele (o nariz) permite fazer.
Elisa, a empregada, pode ser o símbolo do homem/mulher oprimido(a), preso à infalibilidade de sua condição submissa, incapaz de se libertar das amarras sociais/afetivas às quais está atrelado(a).
No fim das contas, pode ser isso, mas, sobretudo, o autor fala da impossibilidade humana, da incapacidade dele se livrar daquilo que foi previamente traçado pelo destino. Portanto, ele não é culpado, mas uma vítima de algo maior.
O desconhecido é um homem solitário, que busca um refúgio, algo que aplaque a dor insidiosa que o aflige. Para ele, não há alívio, nem como se curar. A sua vida está definitivamente marcada, e nada que faça poderá alterá-la.
Há o fatalismo, sem qualquer solução (o fatalismo por si só é indiferente e, portanto, não se preocupa em solucinar nada, apenas o de acrescentar mais sofrimento). Nem para a solidão, nem para a homossexualidade, nem a maldade. O pecado aflige, porém, inevitável, insolúvel.
Há apenas o desabafo, ou o choro fugídio por entre as sombras.
O homem perdido somente pode se encontrar em Cristo; firmado na Rocha, o pouso é seguro, a paz reina, há esperança, e a certeza de que a dor, as lágrimas e o pecado serão destruídos, assim como a morte.
Para Lúcio a morte é parte da solução. Mas creio que, algum tempo, ele não pensa mais assim.

Jorge Fernandes disse...

Para o autor, não há limites à dor e ao sofrimento. A natureza humana é a própria fonte do mal, inesgotável, e por ele é que se vive ou morre.
O protagonista é um homem desiludido consigo e com o mundo. Apesar de ser um homem do campo (parece que era de uma classe social elevada; ao menos recebeu uma boa educação, evidenciada pelos livros que transportava em sua maleta), ele cultiva um certo niilismo, e a própria impossibilidade de ser feliz, ao conviver com uma "doença" (a qual não é citada mas indicada subliminarmente como o homossexualismo) que o consome, não restando qualquer significado para a vida.
Da mesma forma, os demais personagens se agarram a pequenas esperanças, de domínio, de riqueza, de liberdade e de amor, e um a um vêem-nas frustradas.
A morte parece a solução encontrada por Lúcio para tanta dor e maldade, mas é apenas o final de um ciclo, e outro se inicia imediatamente, para terminar em destruição.
O mundo de Lúcio Cardoso é um mundo sem esperança, fadado ao fim em si mesmo, onde as pessoas são atormentadas por seus pecados, condenadas a jamais obterem o perdão. É um círculo infindável onde o mal nunca será derrotado.
Uma pena que a visão humanista de Lúcio o coloque em um beco-sem-saída; mas é assim para àqueles que buscam solução em si próprios, como Lúcio (um católico praticante) desejou encontrar, e vislumbrou-se e aos demais em suas condições de homens caídos e irregeneráveis. Pois somente em Cristo e por Ele o homem se encontra na perfeita imagem de Deus.

Jorge Fernandes disse...

Há significado nas coisas? As pessoas podem dirigir seus atos? Ou eles são inevitáveis armadilhas do destino? E a vida não tem nenhum significado pessoal? E não passa de uma avalanche ininterrupta a soterrar-nos?
Mãos Vazias é a segunda novela do livro, escrito em 1938, em que se aponta, ou melhor, estão presentes os ingredientes que seriam melhor trabalhados em "O Desconhecido", o qual foi escrito num clima menos opressivo e denso, porém, encontram-se ali o mesmo subjetivismo e niilismo do autor.
A narrativa é um esgar doloroso, onde as mulheres (neste caso, Ida) são dominadoras e cruéis, onde os homens são tolos e ingênuos; onde o vazio e o distanciamento da realidade remete-nos a uma narrativa esquizofrênica, a existência a contemplar sarcasticamente a irrealidade incurável.
Então, para se libertar de toda a angústia, sofrimento, solidão e vazio, não lhes resta outra saída senão impor o sofrimento aos outros, distribui-los generosamente, e esperar que esse desejo anelado se realize através do pecado, como se o mal fosse capaz de livrá-las do bem inalcançável, e tocá-lo fizessem-nas esquecer a impossibiliade de se ter o bem.
A vida não é para ser vivida, mas sofrida.
Ida vive o egoísmo, o isolamento, e o desprezo aos outros em si mesma, onde a impossibilidade de afeto, carinho e bondade é o sangue que corre nas veias dos mortos: os vivos contam os minutos para serem abatidos.
É como o choro convulsivo sem lágrimas a se derramar inutilmente por elas e pelo mundo condenado e perdido, fatalmente arruinado. Não há culpa nem culpados, simplesmente é-se inevitável viver o fim.
A solução para um mundo suícida é a fuga, mesmo que seja ao encontro da própria morte.

Jorge Fernandes disse...

Lúcio não parece tão a vontade neste livro como em o "Desconhecido"; talvez por causa da protagonista Ida, e do seu pouco contato com o universo feminino (no sentido de entendê-lo).
Isso torna a narrativa mais impessoal, fria (talvez tenha sido o seu propósito), onde as emoções acabam por delinearem-se pela própria ausência de significância (e não insignificância), e pela visão de um mundo desajustado, em que nada tem sentido. As reações se sucedem como uma bola de neve morro abaixo, sem a objetividade da bola de neve. São acontecimentos irracionais a seguirem fatos igualmente irracionais, que redundarão em sequências igualmente irracionais, num clima de realismo absurdo, bem ao gosto dos existencialistas, onde o subjetivismo torna o existencialista o único designativo da ação, no qual o mundo se molda, numa espécie de esquizofrenia coletiva; onde a desordem individual é a desordem do mundo, e a falta de lógica e razão permeiam a desilusão.
Todos os elementos da prosa de Lúcio estão presentes em "Mãos Vazias" (pelo menos a maioria), mas a novela pode fazer o leitor sentir-se assim, como o título indica, ainda que o livro esteja diante dos olhos, e mesmo à mão.
Fica clara a impossibilidade de Lúcio apresentar alguma solução para os seus dilemas, o que torna a sua escrita mais desesperadora, encaminhando o desfecho para um final alucinantemente trágico, inevitavelmente trágico, onde a morte não é capaz de esconder a dor, num mundo sujo, estupidamente previsível em sua loucura.

Jorge Fernandes disse...

Lúcio retrata bem o seu mundo, onde o pecado, o individualismo e o isolamento só aproximam mais o homem do seu final sórdido, triste, em que resta manter-se cativo à condenação eterna, ao invés da liberdade impossivel de encontrar em si mesmo e no mundo.