Após a leitura, classificarei os livros assim:
Péssimo [0] Ruim [*] Regular [**] Bom [***] Muito Bom [****] Excelente [*****]

A Invasão Vertical dos Bárbaros [***]




Mário Ferreira dos Santos
168 Páginas
É Realizações Editora



"O livro que você tem em mãos é um manifesto sobre como hoje se dá a tragédia da condição humana esmagada sob a bota da superficialidade, um modo da barbárie. Como todo manifesto, tem uma marca: a urgência em passar uma ideia. Neste caso, a denúncia da invasão da barbárie. Como toda urgência, corre riscos de ser mal entendido devido à superficialidade que acomete quase todo manifesto e quase toda denúncia.
Mas o mau entendimento com relação à obra de Mário Ferreira dos Santos é quase um pecado porque ele, talvez mais do que a maioria dos filósofos brasileiros, era profundo como um abismo e, às vezes, manifestos escondem esses abismos, mas este não é o caso. Talvez um modo de compreender a barbárie que dá título a este livro seja exatamente este: Mário Ferreira dos Santos se recusa a esconder o abismo sobre o qual se dá a experiência humana e mostra como é urgente que cuidemos dele". Luiz Felipe Pondé

3 comentários:

Jorge Fernandes Isah disse...

Este é o primeiro livro do filósofo Mário Ferreira dos Santos que leio. Tenho o Filosofia Concreta, Lógica e Dialética, alguns pdfs de livros fora de catálogo, e estou prestes a comprar o Tratado de Simbólica, porém, nenhum ainda lido.

Parte do meu "descaso" com o autor se deve ao temor que o prof. Olavo de Carvalho me incutiu quanto à obra, o qual reputá-a como grandiosa e uma das maiores realizadas por um filósofo no séc. XX, e, portanto, também uma obra difícil e profunda; que requer um certo entendimento prévio do muito que se irá ler, para melhor compreendê-lo. Trocando em miúdos, os livros do prof. Mário Ferreira não são para o leitor comum, com pouca bagagem cultural e sem algum conhecimento dos temas por ele abordados.

Há ainda o fato dele ter escrito muito, deixado um vasto material a ser estudado e organizado, algo que se produziu sem o zelo editoral, sem uma revisão acurada, cujo tempo ele não dispunha. Ele procurou deixar um registro do seu pensamento, acreditando que seus discípulos pudessem, no futuro, realizar o trabalho de elaboração final da sua obra.

Como sou apenas um iniciante na ciência da filosofia, aceitei prontamente o conselho do prof. Olavo, sabendo de minhas limitações, e de que deveria ser prudente e cauteloso não somente com o trabalho do prof. Mário, mas com o de muitos outros.

Ao saber da publicação deste livro, interessou-me sobremaneira o título e perceber que se tratava de uma obra mais voltada para os iniciados, aqueles que nunca tiveram um contato direto com ela. O próprio título da coleção, "Abertura Cultural", parece ter o objetivo de "instigar" os interessados no mundo da alta cultura.

Após ler três dezenas de páginas, a impressão que me dá é de que falta alguma coisa. Não sei explicar direito o que seja, talvez uma maior elaboração, desenvolvimento, dos temas abordados, e que se referem exatamente ao fato de o autor descrever o retorno da civilização ocidental ao barbarismo, ao primitivismo e, uma inferência minha, uma volta ao paganismo. Mas isso em nada desqualifica o seu pensamento, pelo contrário, o prof. Mário parece um profeta moderno, que anteviu décadas antes o que vivemos agora não somente no Brasil, mas no mundo globalizado; ou seria apenas a capacidade de perceber e vislumbrar o que já estava diante dos olhos e que a maioria de nós não foi capaz de ver ou não quis ver? Seja por ignorância, cinismo ou canalhice?

O livro foi originalmente publicado em 1967, provavelmente escrito anos antes, e, passados quase meio século, ele é de uma atualidade assustadora. É como se o prof. Mário estivesse vivendo cada minuto no séc XXI e visto em detalhes o que se tornou a humanidade.

Creio que somente homens capacitados por Deus [sejam crentes ou não, mas sempre instrumentos da vontade e poder divinos], e que busquem interessadamente compreender a verdade e a realidade, podem “antever” o seu tempo. A maioria dos estudiosos se focam no caráter ideológico e metodológico das suas áreas com pouco ou nenhum interesse pelo real. Como a ideologia sempre buscará uma aparência de realidade e verdade, eles estarão submersos e envolvidos com o que se denominou de “segunda-realidade” que cada vez mais o aprisionará num mundo onde o desconhecimento impera, e isso significa a ignorância em relação a Deus, à humanidade e a si mesmo.

Em breve, deixarei alguns trechos do livro aqui, para, quem sabe, aguçar também a curiosidade e o interesse dos visitantes em relação ao grande filósofo e professor.

Jorge Fernandes Isah disse...

A VALORIZAÇÃO DA HORDA, DO TRIBALISMO
"As multidões desenfreadas nas ruas, que são o caminho para as grandes brutalidades e injustiças, manifestação do primitivismo, mais um exemplo da horda, movidas por paixões, sobretudo o medo, aguçadas pelos exploradores eternos de suas fraquezas, pelos demagogos mais sórdidos, passam a ser exemplos de superioridades humana... Esses movimentos só têm servido para apoiar tiranos e desenvolver a brutalidade organizada, porque o desenfreio das massas nas ruas não pode ser permanente, e exige, desde logo, a imposição da ordem, o que favorece, então, o emprego desmedido da força e o abuso dela, com consequências graves e perniciosas até para aqueles que foram os mais ativos nessas manifestações bárbaras" [pg 34/35].


A EXPLORAÇÃO SOBRE A SENSUALIDADE
"Sob todos os aspectos, nas épocas de depressão ético-cultural, a sensualidade recebe um estímulo como em nenhuma outra. Mas o que caracteriza neste período de invasão vertical de bárbaros, que estamos vivendo, é uma exploração sem freios da sensualidade, que tem a seu favor a concupiscência do homem, e tem a estimulá-la certas facilidades de ordem moral, certos costumes introduzidos, e uma publicidade que tenta alcançar os últimos limites, contida apenas pela ação das autoridades políticas e sociais, pois se lhe deixassem caminho livre, não teríamos apenas "strip-teases" nas TVs, mas até nas escolas, e seriam exibidos nos horários infantis filmes licenciosos, pejados de obscenidades extremas, com requintes de pormenores, que fariam o gozo e a glória de seus produtores... numa autopromoção de "cartazismo", que é a mais "eloquente" das formas de promoção social que se conhece neste momento... Não cremos que nem as igrejas organizadas, sob as mais diversas crenças, nem pais e mestres honestos e decentes em ação, seriam capazes de evitar a multiplicação de tais negócios, que prosperariam, pois as más ideias, como as más práticas, como o vício, tendem a progredir com mais intensidade do que a virtude, porque é mais fácil ser vicioso do que virtuoso, e por ser grande parte da humanidade pusilânime e até covarde... Os instintos bárbaros dos homens ameaçam soltar-se totalmente e, quando soltos, a sua fúria leva à destruição total. A história já nos revelou momentos semelhantes, como se viu na ação dos bárbaros em suas invasões. Uma humanidade sem leis destruiria toda a cultura e, se não for contida, terminará por destruir a si mesma" [pg 36/37].

Quase cinquenta anos antes, temos materializando-se o que foi previsto pelo prof. Mário. E não se tem mesmo mais o que acrescentar... nem precisa. Não vê quem não quer todo o desenrolar do processo de primitivismo e barbárie no qual a sociedade ocidental empenhou-se em voltar.

Jorge Fernandes Isah disse...

Alguns trechos pinçados do livro:

"Diz-se que,certa ocasião,Beethoven,quando jovem,procurou Mozart para que lhe ministrasse aulas de piano.Este o recebeu e executou ao piano,uma frase musical,e disse-lhe:“Improvise!”E Beethoven pôs-se a improvisar.Mozart retirou-se para uma sala ao lado,onde estavam alguns amigos,e chamando-lhes a atenção para os sons que saíam do piano,disse-lhes:“A música deste menino ainda revolucionará o mundo!”Citamos isso de memória,porque a validez histórica não é o que importa aqui,mas a significação do fato.Hoje,um aluno que pretendesse procurar um mestre,este lhe diria:“Vá ao piano e execute um estudo de Chopin!”Para ele o que importa não é o criador,mas o repetidor,e repetir,repetir ritmos,repetir sempre é próprio do bárbaro,é a satisfação mais completa do bárbaro.Hoje não se desejam mais os criadores,mas os repetidores".

"Não é necessário que vá ler a obra de todos os grandes autores que citamos,pois corresponderiam a muitos milhares de volumes,já que seria mister ler outras obras,paralelas a essas,de autores não citados,e de valor inestimável,e que não podem ser relegados a segundo plano.Mas poderá,por exemplo,dedicar-se ao estudo da filosofia concreta,como a propomos,que lhe dará as bases fundamentais de um conhecimento concreto da universalidade,e que o guiará para que possa,com cuidado,invadir outros setores.O bom estudo da Lógica pode ser feito,como o da Cosmologia,o da Ontologia,o da Matese.Com essas bases,incluindo a Crítica,ou seja,a Teoria do Conhecimento,e um pouco de dialética sólida,poderá perfeitamente encontrar os meios para esse fundamento que lhe faz falta,e isso não lhe ocupará mais que uma ou duas horas por dia.Desse modo se vê que a mania especialista de nossa época tem uma função desastrosa e prejudicial para o que se especializa,como para a humanidade."

"Nós também,em certa época,sofremos do vírus bárbaro da ignorância petulante.Também ríamos se nos dissessem tais coisas.Por isso perdoamos aos que riem hoje.Mas um dia,o destino nos fez cair nas mãos obras monumentais,e um mundo novo se descortinou.Então compreendemos como era ridícula toda essa atitude de pseudo-filósofos.Da noite para o dia nos libertamos da tolice de perder tempo em ler baboseiras."

"Sabem os cesariocratas que a única forma de imperar é dividindo.É uma velha máxima da vida prática,que eles aprenderam e usam.Enquanto permanecem os cientistas e técnicos apenas na especialidade,estes continuarão sendo apenas servidores dos césares.Se entre eles houver uma linguagem,de modo que se entendam,o perigo tornar-se-á próximo,porque,entendendo-se nas idéias,entender-se-ão,mais dia menos dia,numa idéia social,que não será mais aquela oferecida pelos césares,que pode agora ser aceita como válida,porque não tem capacidade crítica para analisá-la,mas que,amanhã,lhes irá aparecer como realmente é:um amontoado de incongruências,que só servem para justificar o cesarismo,o domínio arbitrário de mediocridade,que usam da brutalidade organizada para brutalizar a maioria desorganizada"