Após a leitura, classificarei os livros assim:
Péssimo [0] Ruim [*] Regular [**] Bom [***] Muito Bom [****] Excelente [*****]

Coração das Trevas [**]




Joseph Conrad
Editora Revan
136 Páginas

5 comentários:

Jorge Fernandes Isah disse...

Tomei conhecimento de Conrad e, mais especificamente deste livro, através do filme "Apocalipse Now", do Francis Forde Copolla, o que acabou aguçando-me a curiosidade, mas não o suficiente para adquiri-lo tão logo o descobri, somente muitos anos depois, o que se deu agora.

Lendo as "orelhas" do livro e a apresentação, fiquei bastante decepcionado com a profusão [ainda que em um curto espaço] de clichês ideológicos; e se o pouco escrito ali representa realmente o teor do texto ficcional, acredito que considerarei o livro uma porcaria.

Como filmes não têm a obrigação de serem fiéis ao texto literário no qual se baseou, é possível que a obra de Copolla seja diametralmente oposta à de Conrad. Somente a leitura me dirá, claro.

Li, rapidamente, a primeira página, e não vi nada de estimulante na narrativa do autor. Mas foi apenas uma página... O certo é que espero ter os meus preconceitos demolidos à medida em que me enveredar pela narrativa, e de que a impressão passada pelo editor seja apenas deturpação e má-interpretação da obra descrita.

Aguardemos, pois.

Trovian Maucellus disse...

Graça e paz!
Estou visitando meus amados irmãos reformados e que fazem parte dos internautas cristãos e internautas calvinistas.
Deixar meu incentivo para continuar esse belo trabalho que nós reformados fazemos, ou pelo menos tentamos fazer e que "não é vão no Senhor"!
Estou seguindo seu site/blog.
Visite o meu se tiver um tempinho também, basta clicar no meu nome e será direcionado.

Um grande abraço Reformado e que Deus continue a te abençoar!
Soli Deo Gloria!

Jorge Fernandes Isah disse...

Passados pouco mais de um terço do livro, ele me dá a sensação de "estranhamento", de algo indefinível. A narrativa é cheia de detalhes, uma profusão de adjetivos, e de um certo cinismo do narrador, Marlow, que demonstra indiferença quanto ao que vê e descreve nas cenas e situações enquanto conta-as. E, por isso mesmo, os símbolos pelos quais Conrad descreve-as, torna-se, ao menos para mim, algo contraditório e hipócrita.

Há clichês e digressões filosóficas acerca da vida e da condição humana, que algumas vezes parece-me saído das mentes brilhantes dos filósofos e sociólogos tupiniquins [Conrad, provavelmente, foi influenciado pelo existencialismo e pela sociologia do final do sec XIX]. Sei lá! Parece-me, as vezes, mais um discurso acadêmico, bem aos moldes do que é proposto pela "intelligtsia" nacional, a partir de reducionismos e simplismos.

Fico com a impressão de que Conrad está pouco preocupado em compreender e entender realmente o que acontece, e está mais preocupado consigo mesmo e com o que acredita. O que, em tese, não é o problema do romance, mas que acaba mascarando toda a crítica a que ele se propõe ou aparenta propor.

Sempre li e ouvi muita discussão sobre este livro, o que coloca as pessoas numa espécie de confrontação quanto às conclusões que têm da leitura, extraindo dela coisas que, sinceramente, ainda não consegui notar.

Parece-me que a maioria delas está mais calcada no que dizem ser o romance do que propriamente no que diz o romance. As disputas ideológicas fazem-se presente mais por uma deformação do texto do que pelo que ele expõe.

Contudo, sei que ainda é cedo para uma conclusão sobre o livro, faltam muitas páginas e elementos, mas não tenho a certeza de que Conrad está mesmo a execrar ou tentar expurgar a sociedade ocidental; se o faz, verdadeiramente não a entende nem se esforçou em entendê-la. De qualquer forma, eu não consigo ter essa certeza, de que ele se propôs a uma crítica feroz ao imperialismo, seja lá o que se queira dizer com isso [é mais um clichê do que um conceito, propriamente dito, na maioria das vezes em que é utilizado]. Pode ser que a coisa toda mude à medida em que o enredo se desenrola, tornando-o mais objetivo, mais substantivizado.

Por falar em objetividade, a profusão de adjetivos na narrativa torna-o subjetivo, e, não sei como se pode apreender tanta objetividade, do ponto de vista ideológico, que muitos leitores reivindicam haver no texto. Isso, por si só, já seria um indicativo de que obter conclusões objetivas quanto às pretensões do autor pode ser um reflexo da má-leitura [ainda que seja por uma prévia orientação conceitual].

Penso que, em linhas gerais, há uma supervalorização do livro, de forma que ele é muito mais superestimado do que deveria; e as muitas discussões quanto ao seu significado real, quanto ao que o autor pretendia dizer, em que se podem perceber claros antagonismos ideários, é uma evidência do que estou dizendo.

De qualquer forma, a sensação que ele perpassa é de fraqueza, uma fraqueza da qual o autor não parece disposto a sair. E tenho dúvidas se ele sabe como a adentrou.

Jorge Fernandes Isah disse...

Não suportei a tradução em questão, cuja leitura iniciei. Parei uns dias, e consegui uma cópia digital [provavelmente portuguesa], na qual a tradução é muito melhor... ao menos, o livro flui de uma maneira mais natural [dentro da "estranheza" que apontei acima]. Fato é que abandonei o livro físico e reiniciei a leitura no Kindle, que acabei por concluir. Boa parte do que eu havia dito se confirmou, outra parte não. Fiz algumas anotações utilizando-me do recurso "notas" e que reproduzirei o que de mais importante percebi. De qualquer forma a impressão que o livro me passou foi de um romance de segunda categoria. Um livro mal escrito, cujos personagens não são aprofundados e delineados [pareceu-me criação intencional de Conrad] e muitos não passam de estereótipos. Há alguns bons momentos, mas não o suficiente para todo o "oba-oba" que os leitores, em geral, fazem da obra. Digo que é um livro incompleto, uma obra inacabada, poderia-se dizer. É daqueles livros que não se tem prazer, e a narrativa cáustica, pessimista e depreciativa ajuda bastante a não se gostar dele.
Eu mesmo já fui muito deslumbrado por esse "estilo": fingir que se diz algo real quando na verdade não se diz, pelo contrário, foge-se da realidade em meio à um niilismo exagerado e gélido, onde as emoções se restringem à repulsa, ódio e desprezo por quase tudo [meio como um esquizofrênico que quer viver outra vida e não a dele]. No caso dos niilistas e absurdistas eles não abrem mão da vida que têm, mas fazem parecer que a desprezam.
As interrelações não passam de formalidades, e o que sobra é apenas o canal para a propagação ideológica. Ela sim é a única tábua de salvação, e os homens têm de se agarrar a ela desesperadamente, pois tudo o mais é negro, feio, desanimador. Num mundo cruelmente real, ao ver deles, apenas a mente dominada por um ideal revolucionário pode ser feliz [o que equivale dizer: a rejeição da cultura ocidental e dos valores judaíco-cristãos].. ou ter chances de sê-lo.
Parece que Conrad se arrependeria desse estilo ao final do livro; mas nem mesmo no momento em que poderia ser, digamos, humano, diante da humanidade sincera da mulher do Kurtz, a ironia é filtrada pela piedade não tão piedosa de Marlow.
Por falar em Kurtz, ele é quase um objeto de adoração, de exemplo, uma espécie de semideus na perdição, em meio ao absurdo daquele mundo perdido; um tipo de salvador da mediocridade e falta de propósito do homem; uma luz revolucionária frente à mesmice e vulgaridade da civilização.

[...]

Jorge Fernandes Isah disse...

[...]

Há momentos em que o protagonista, Marlow demonstra uma sensação de estranhamento com o lugar e a sua agitação comercial [o que poderia ser um trunfo do livro, dado o "estranhamento" que senti ao lê-lo], mas penso que isso se dá mais por uma casualidade do que como objetivo, intencional. É como se nada daquilo fosse possível acontecer dentro de uma inevitabilidade, impossível, de não acontecer... A vida como futilidade, vazia, em que a troca de propósitos, objetivos e escolhas era a soma do nada; como se tudo estivesse determinado pelo nada e por ele fizesse sentido [até eu estou escrevendo parecido com o Conrad... rsrs].
Para ele, o homem natural não passa de uma animal; nada que o lembre de ser o "imago dei"... Uma lamúria sem sentido de alguém que não via sentido em nada, mas considerava que o chororô fazia sentido... Ele acaba por descobrir em Kurtz o "superhomem", ou, ao menos, um homem não tão inferior, movido pelo idealismo [ainda que não se saiba direito o que venha a ser esse idealismo de Kurtz]; dentro da proposta da obra de não refletir nem levar à reflexão. Guardadas as devidas proporções, ele é um livro para se sentir, como os filmes de "B" de terror e ação... Mas sentir mesmo o quê? Além de enjoos, diante do "desabafo" insistente do protagonista?
Nem quando Kurtz se transforma em um ícone [e a relação de Marlow e Kurtz parece-me demasiadamente ambígua, pois indefinida, tendendo para o ódio algumas vezes e para a admiração em outras... Cheguei a cogitar até mesmo uma certa "atração" entre eles, mas pode ser culpa da narrativa confusa e superficial de Conrad, ainda que ele primasse por adjetivos e advérbios], do tipo em que até mesmo os seus objetos pessoais tornaram-se em um "desejo de consumo" [Conrad descreveu a futilidade e estupidez humana pelos ídolos, especialmente, mortos, em que as tranqueiras deles tornam-se objetos de culto... e até mesmo o que Kurtz jamais ousou realizar tornou-se delírio na mente dos cultuadores, como a alusão aos seus dotes geniais de compositor. Kurtz parece ter apenas uma grande obra: o retrato da sua mulher, e que Marlow admira-o sobremaneira], não tanto pela suposta genialidade de Kurtz mas por sua evidente loucura [fruto da sua doença, ou por ela agravada].
Na verdade, Kurtz era uma celebridade posmoderna, fruto muito mais do que se propagava dele, do conceito geral que se tinha, do que ele era de verdade. Como figura icônica, ele não foi o produto forjado por homens que se consideravam derrotados, miseráveis, e Kurtz não seria o ápice sem glamour de toda a sordidez humana colonizadora? Alguém que não os deixasse ver o que eles realmente eram?
Conrad assumi, ao final do livro, um tom de tragédia grega; uma tentativa de tornar Marlow uma presa fácil diante do assombro da imagem de Kurtz.
Por essas e outras, considero "Coração das Trevas" um livro decepcionante. E chego a pensar que os minutos de interpretação de Marlon Brando como o Kurtz de "Apocalipse Now" valem todas as páginas do livro e as que foram escritas sobre ele [inclusive estas]. Talvez esse seja um dos poucos méritos da obra de Conrad, dar-nos um pouco da genialidade do ator.