Após a leitura, classificarei os livros assim:
Péssimo [0] Ruim [*] Regular [**] Bom [***] Muito Bom [****] Excelente [*****]

O "Ateísmo" da Igreja Primitiva [****]



Rousas J. Rushdoony 
96 páginas

Embora muitos possam estranhar o título deste livro, os primeiros cristãos eram considerados como “ateus” pela maioria das pessoas no império romano. O motivo é que, em vez de adorar milhares de deidades visíveis, os cristãos adoravam somente o único Deus vivo e verdadeiro, que é invisível (1Tm 1.17). Adicionalmente, eles eram tidos como ateus também por não reconhecerem as reivindicações divinas do Estado romano e, em particular, de César. Devemos lembrar que o imperador romano reivindicava ser divino, de forma que, quando alguém dizia “César é Senhor”, estava dizendo na verdade que César é deus. Todavia, ser cristão significa reconhecer que somente “Jesus é Senhor” (Rm 10.9); por causa disso, a igreja era vista como inimiga do Estado, e por boas razões. A explicação é que, como Rushdoony observa, a Bíblia requer que sirvamos um Senhor que não o Estado, com um tipo inteiramente diferente de educação e lei.

 

5 comentários:

Jorge Fernandes Isah disse...

Algumas considerações:

1) Os romanos consideravam os cristãos ateus, por não acreditarem na profusão de deuses e deusas que o Império cultuava; e exatamente pela Igreja cultuar apenas o Deus vivo, verdadeiro e bíblico.

2) É interessante o exercício que os romanos faziam para entender os cristãos, e ainda assim, eram incapazes de compreender. Como os cristãos não adoravam César (o mais novo deus do pedaço), arriscando-se a pagar com a própria vida?
Era intrigante para eles como homens podiam agir assim. O que nos leva à lembrança de Paulo: "Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus" (1Co 1.18).

3- Outro fator interessante é a "onipresença" do Estado, de Roma, na vida do povo. Cria-se claramente na "soberania" do Estado, como o próprio Deus na terra; portanto, bem ao gosto da filosofia marxista moderna, que considera Deus não estar além nem acima do Estado, mas o Estado é o próprio Deus.
Assim os cristãos eram considerados ateus, por adorarem o Deus que está acima do Estado, o mesmo Estado que era e é considerado a autoridade máxima.
Como os cristãos não se curvavam diante de César, eram considerados rebeldes, ainda que cumprissem a lei muito mais do que os demais cidadãos.

4- Assim como hoje, a política de Roma era trazer cativo o homem, de tal forma que ele não se rebelasse contra o Estado, a fim de se assegurar a ordem social.
Por isso era-lhes dado o pão e o circo, de tal maneira que a consciência popular fosse "comprada", domesticada, até o ponto de sujeição total.

5- Outra questão semelhante ao que ocorre atualmente é que o aborto era livremente praticado no Império, com as benesses do Estado, e os cristãos se opunham a ele. Mesmo os bebês nascidos e indesejados poderiam ser abandonados em locais onde os animais selvagens os matavam e comiam. Então os cristãos começaram a frequentar esses locais e a adotar os rejeitados, tornando-os membros da família.
O que, irracionalmente, provocou a ira de Roma, que sentia a sua imagem totalmente denegrida.
Como as leis que criaram não impediram que os cristãos salvassem vidas, optou-se por acusar levianamente os cristãos de canibalismo. Mas como era possível se as famílias cristãos aumentavam sensivelmente?

Em tudo e por tudo, o homem apenas repete as mesmas fórmulas que o levará à morte, pois crê possível ordenar a vida não a partir dos princípios que Deus estabeleceu para o homem, mas a partir de si mesmo.

Infelizmente, a igreja atual não tem a mesma demonstração de fé da igreja primitiva. Não se vê os cristãos mobilizados para fazerem a diferença na socidade, para lançar luz em meio as trevas, para salgar o mundo.
Onde ela ainda mantém os princípios que nortearam a igreja primitiva, submetendo-se à suficiência das Escrituras, e vivendo uma vida realmente cristã, a igreja é perseguida impiedosamente, vide os países islâmicos e comunistas.

Enquanto isso, no Brasil... confortavelmente assentados em nossos sofás (eu, inclusive), esperamos que o Estado anticristão, blasfemo e corrupto, seja-nos por justiça. Ao servi-lo como fazemos, tornamo-nos desobedientes a Deus, e participantes dos crimes estatais.

O livro do pr. Rushdoony leva-nos a meditar no nosso papel no mundo atual, não como uma igreja nominal, estatizada e morta, mas como igreja viva, o Corpo do Deus vivo.

Jorge Fernandes Isah disse...

Muito esclarecedor o capítulo que fala sobre "O Desaparecimento da Justiça".
Se em qualquer época e lugar do mundo Cristo estiver fora dela, podemos chamá-la de "Idade das Trevas", assim como os escritores da Igreja Primitiva consideravam.

O que está acontecendo no mundo? O padrão moral divino está sendo relativizado, abandonado, e posto sob o olhar humanista e, com isso, a justiça está moribunda, agonizante, em vias de morrer.

Pois se o padrão moral bíblico, o qual nos foi entregue pelo próprio Deus, deixar de ser o escopo para se fazer a justiça, o que teremos é a mais pura, maquiavélica e sórdida injustiça.

Por esse e outros fatores também, podemos considerar que já estamos na "Idade das Trevas", onde a justiça está baseada unicamente naquilo que o Estado moderno considera justo (segundo as diretrizes de agir arbitrariamente).

Para isso, abolir-se-á o sentido de culpa e inocência, de moral e imoralidade, de certo e errado, para serem todos condicionados ao ditames corrompidos e malignos que o Estado impõe à população.

Por que há tantas leis, e leis que regulamentam as primeiras, e leis complementares que regulamentam as segundas, e por aí afora? O objetivo é um só: criar uma idéia de ordem social quando o que ocorre é apenas um congestionamento legal pelo qual o arbítrio do Estado se faz onisciente. Facilitando que mesmo o que não espelhou suficientemente suas diretrizes poderá ser mexido ou readaptado conforme seus interesses.

Assim, Deus deixa de ser o legislador para que o Estado ocupe o seu lugar e legislize para si mesmo, produzindo leis e mais leis que o sustentem e mantenham a sua vontade irretocada, ao invés dele se sujeitar à vontade do povo e promover a justiça na comunidade.

O Estado é um devorador contumaz e assaz, e para isso é necessário controlar tudo, seja a educação, a família, a igreja, a ciência, etc. E assim moldar o homem à imagem daquilo que o Estado quer (os planejadores e ideológos por trás da "máquina"), produzindo injustiça e mais injustiça.

O que era considerado imoral passará a ser moral a partir de uma lei, e o que era moral, se tornará imoral a partir de uma lei, ou "canetada" burocrática.

O exemplo mais claro são as leis que discriminalizam o aborto, a pederastia, a pedofilia (já existem projetos mundo afora que tencionam acabar com este crime), até se chegar ao ponto em que roubar ou matar não serão considerados crimes, basta o Estado querer.

Por isso estão convictos em combater os valores cristãos, principalmente nas igrejas, entre os cristãos; e ao serem relativizados ou acolhidos como morais, levar-nos-á a derrocada e a sermos manipulados e controlados, não pelo Deus bíblico e vivo, mas pelo Estado usurpador, imoral e injusto.

Ainda que o capítulo não seja exaustivo sobre a questão, ele aponta para as várias faces do problema da relativização da justiça, o que acarretará, como já acontece, com magistrados legislando, legisladores magistrando, executivos legislando, magistrando e intermediando a (in)justiça, sempre segundo a mente caída deste século, segundo o príncipe das trevas, ao qual o humanismo e suas várias vertentes (inclusive teológicas) está a serviço.

Jorge Fernandes Isah disse...

Apenas não corroboro a defesa que o pr. Rushdoony faz do dízimo para a Igreja neotestamentária no capítulo sobre a Justiça. Ao meu ver, e já escrevi sobre isso no Kálamos, o dízimo fazia parte da antiga aliança, ao passo que isso não invalida o dever que o crente tem de sustentar a obra de Deus, e auxiliar os irmãos necessitados.

Para isso, sou a favor de que se dê muito mais de 10%, conforme Paulo diz:"E digo isto: Que o que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia em abundância, em abundância ceifará. Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria" (2Co 9.6-7); e ainda: "No primeiro dia da semana cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar, conforme a sua prosperidade, para que não se façam as coletas quando eu chegar" (1Co 16.1).

Não creio nos 10%, mas como mordomos do Senhor, é certo que se pode dar mais do que os 10%, porque se entendermos que somos beneficiários daquilo que Ele nos deu, e o que nos deu é dEle não nosso, devo honrá-lo com o melhor que tenho, e com tudo o que possuo. Vide a afirmação do Senhor Jesus em Mc 12.41-44 sobre a viúva pobre, que entregou ao tesouro do templo tudo o que possuía.

Jorge Fernandes Isah disse...

Entre tantas coisas que o pr. Rushdoony escreveu em tão poucas páginas, o que mais me chamou a atenção foram duas coisas:

a)Deus é unidade, tanto nas Suas pessoas, como na doutrina. Deus não é divisível, assim como a doutrina, a revelação escriturística, também não é. Portanto não há como fatiá-lo e dizer: Quero o amor de Deus, não quero a Lei de Deus. Ora, se Ele não pode ser dividido, aquele que aceitar o Seu amor terá de aceitar igualmente a Sua Lei, a qual é santa e perfeita, assim como o Seu amor é santo e perfeito. Quem diz que qualquer coisa relacionada a Deus e ao Evangelho podem se contradizer, conflitar, não tem o conhecimento dEle, nem o entendimento da Sua revelação.

2)A necessidade do cristão ser luz e sal no mundo. Não adianta apenas teorizar o Evangelho, entendê-lo do ponto de vista acadêmico, sistematizá-lo, se de nada serve do ponto de vista prático, do testemunho cristão.
Mesmo que eu não concorde completamente com a posição escatológica pós-milenista do Dr. Rousas, concordo que, independente de se ser isso ou aquilo em escatológia, tem-se de testemunhar o Evangelho, salgar o mundo, tirar as pessoas das trevas e levá-las à luz. Uma de cada vez, vez por vez, devemos transformar a sociedade, e torná-la o mais justa possível, o mais próxima da justiça de Deus revelada na Bíblia.

Sei que essa visão desagrada a maioria dos evangélicos, a teonomia, mas se queremos realmente servir ao Senhor, e auxiliar para que haja uma sociedade mais justa, será necessário que não repudiemos ou negligenciemos a Lei de Deus.

Sem estabelecer no dia-a-dia de nossas vidas os princípios bíblicos que o Senhor criou e que nos impede de sucumbir ao caos, o mundo caminhará de mal a pior.

Isso dependerá da Sua vontade, acontecer ou não, mas enquanto servo de Cristo, tem-se de obedecê-lo, e cumprir com o meu chamado e mandato de ser um agente transformador, que tire as pessoas da escuridão em que se encontram e revele-as a luz verdadeira, Jesus Cristo.

"O Ateísmo..." é um livro escrito em linguagem simples, coloquial, mas que se torna revelador, pois o Dr. Rousas aborda, ainda que seminalmente, uma série de problemas na igreja atual, comparando-a com a igreja primitiva, mas sem deixar de apontar para a postura cristã daquela, a qual influenciou e ainda pode nos influenciar na transformação do mundo.

Se não chego a ser um pós-milenista, ao menos entendo que o Evangelho é para todos, inclusive todos os modelos escatalógicos, e que cruzar os braços, esperar o futuro ou a eternidade enquanto há coisas para se resolver aqui, não são atitudes cristãs.

Ao cristão compete servir a Cristo, proclamando o Seu evangelho, servindo aos irmãos e ao próximo (mesmo incrédulos), a fim de que, os não são salvos (réprobos) se beneficiem de tudo aquilo que Deus estabeleceu para a ordem, a tranquilidade e uma vida confortável.

Para isso é necessário que cada cristão saia da inércia em que vive, ou na garantia da sua salvação, para ser lavrador na seara.

Arregaçar as mangas e trabalhar em prol da igreja e do mundo é a melhor e maior prova de amor a Deus.

Jorge Fernandes Isah disse...

Outro ponto abordado pelo pr. Rousas, e do qual estava esquecido, é de que se não buscamos a Deus como o absoluto, como toda a fonte de vida, justiça, sabedoria e amor, abrimos espaço para que outros "deuses", autointitulados como tais, se estabeleçam no trono que não lhes pertende. Então, especialmente, o Estado, ocupará fatalmente esse lugar, colocando-se como uma entidade soberana e toda-poderosa sobre a vida dos cidadãos em geral.

Quando abrimos mão de Deus e Sua justiça, o homem deixa-se guiar por outros deuses e pela injustiça, o que revelará a desordem e a iniquidade não somente dos seus "deuses" mas de si mesmo.

Por isso a Lei Moral tem de ser retomada; a moral cristã tem de ser retomada; valores como ética têm de retomar o seu lugar na sociedade; pois será através deles que a justiça se manifestará efetivamente, de forma prática (e, nesse ambiente o amor poderá ser visto e sentido), não entre suposições e incertezas relativistas que apontam para lugar nenhum e nenhuma efetiva ação humana na sociedade.

Sem a ordem divina e Seus ensinamentos e orientações, o homem não deixará de ser o naúfrago sem qualquer bóia salva-vidas.