Após a leitura, classificarei os livros assim:
Péssimo [0] Ruim [*] Regular [**] Bom [***] Muito Bom [****] Excelente [*****]

Contra as heresias - Irineu de Lião (2ª parte)

Irineu sabe que pela razão o homem pode ter algum conhecimento de Deus, mas é só pela revelação que ele pode alcançar a consciência plena sobre Deus.

Mesmo assim, ainda estamos num período de defesa do cânon e não de sua análise. O que eu quero dizer com isso? É que Irineu está defendendo os livros e justificando o porquê deles serem aceitos pela Igreja como Palavra de Deus. 

leitmotiv que anima Irineu é, antes de tudo, o Ser de Deus. Pois este era o ataque dos gnósticos: eles diziam que não havia apenas um Deus; diziam que o Deus do AT é diferente do NT; afirmavam que ou Jesus só veio em aparência de homem ou Jesus era um e o Cristo, recebido por Jesus só no batismo de João, era outro; os gnósticos insistiam em uma leitura alegórica e hermética dos livros bíblicos; ensinavam que a gnose deles era superior e que alguns discípulos sabiam dessa gnose deles, então, a leitura do texto sagrado desses gnósticos era sempre uma tentativa de achar as pistas deixadas que indicavam as mensagens secretas que só serão captadas pelos iniciados, etc. 

Portanto, Irineu precisa ser lido naquele contexto histórico e anterior. É preciso que se leia Irineu desde os textos bíblicos, passando por Clemente Romano, Ignácio, Policarpo, Pápias, Taciano e Justino, do contrário, você trará para Irineu o peso já de uma série de debates posteriores que não pertencem a ele. Defendo que, para ser o mais justo possível com Irineu, você o leia não com tudo aquilo que você já sabe, mas com as informações que o Irineu possui. E o mais importante: você deve lembrar que ele não é um autor inspirado e canônico.

A Igreja cristã sempre foi defensora do povo judeu desde o seu nascedouro. Prova disso é a luta incansável dos primeiros pais em se levantar contra todos que queriam eliminar os livros e os trechos que eram "judeus" demais. A Igreja se levantou contra esses chamando-os de hereges! Não fosse assim, se a Igreja quisesse virar as costas para "o povo que matou Jesus", ela não teria lutado tenazmente para manter o Velho Testamento consigo e nem teria se esforçado tanto para continuar vinculada à sua raiz judaica. Agora, depois de todo esse esforço apologético desde Clemente o Romano em 90, vem, a partir do ano 170, a cereja do bolo: o livro IV de Irineu, que compõe o "Contra as heresias", é a defesa dois Testamentos. "Seu plano compreende 3 partes. Além do prefácio e conclusão, temos: a) unidade dos dois Testamentos, provada pelas próprias palavras de Cristo (nn. 1-19); b) o AT é profecia do NT (nn. 20-35); c) a unidade dos dois Testamentos é comprovada pelas parábolas de Cristo (nn. 36-41,3)".

Irineu irá, no Livro IV, mostrar que os judeus não aceitaram a Jesus, porque pensaram que poderiam conhecer diretamente o Pai. Irineu é claro ao afirmar que só se conhece o Pai por meio do Filho.

Ele mostra no Livro IV que o AT é a preparação para a chegada de Jesus. A Lei, o Sábado, a circuncisão, tudo isso foi dado como um meio para preparar o ser humano. E Irineu insiste que nada disso foi dado ao homem para sua justificação, mas como sinal! A partir deste ponto, é necessário que se leia Irineu compreendendo a linha interpretativa que, na verdade, costura e une sua leitura bíblica e que será o traço original dele: a doutrina da recapitulação. Além do contexto histórico, a sua doutrina da recapitulação será fundamental para entendermos como Irineu pensa os próximos temas que serão abordados aqui.

Teologia de Irineu:

Doutrina da recapitulação: A história da salvação humana transcende a vinda de Cristo para a remissão dos nossos pecados. Jesus veio também para recapitular toda a humanidade desde Adão, levando-nos, gradativamente, à perfeição (não há universalismo em Irineu, é bom frisar). A doutrina da recapitulação é a ação educacional progressiva de Deus e é nesse contexto que se encaixa a Lei. O homem não foi criado perfeito e nem imperfeito, mas estava no Plano de Deus nos “aprimorar” para que pudéssemos viver no Espírito. Assim, com a Queda, além da remissão dos pecados, Jesus veio para nos levar à perfeição, tornando-nos humanamente plenos.

Da Queda até o Cativeiro no Egito, o homem não precisava das Escrituras, pois ele sabia em seu coração da lei que ali estava impressa e buscava agradar a Deus, mesmo pecador. Todavia, durante o Cativeiro, ele esqueceu de como agradar a Deus e, então, veio a Lei para que o homem fosse preparado para a vinda plena do Espírito, que levará o homem a se assemelhar com Deus, completando, assim, a sua humanização.

Por isso Jesus veio e viveu todas as fases da vida humana (bebê, criança, adulto), para recapitular a nossa própria história. Quando Adão foi criado, ele era apenas uma “criança”, precisava virar adulto. O objetivo divino, então, é que Adão se torne aquilo para o que foi criado: assemelhar-se ao seu Criador, Jesus, que o criou do barro segundo o molde de Si mesmo, o homem verdadeiro. Todavia, esse homem verdadeiro só foi revelado na encarnação de Jesus. Em Jesus, a humanidade encontrou Deus de novo e só Jesus pode recapitular tudo (por isso as genealogias nos Evangelhos, na verdade, elas mostram já a recapitulação da humanidade até Adão). Com isso, também, Irineu combate um ensino herético do seu tempo que afirmava que Adão não fora salvo.

A “Mariologia” e a doutrina da recapitulação

Assim, compreendendo a doutrina da recapitulação, a gente pode ler Irineu dentro da sua maneira de ler a Bíblia. Em outras palavras, a recapitulação é o óculos que ele usa para ler as Escrituras. A minha proposta, então, é que você aceite 3 pressupostos antes de ler Irineu: 1) ele não é um autor inspirado (logo, comete erros); 2) ele interpreta e explica a Bíblia à luz da recapitulação; e, por fim, mas não menos importante, você deve ler Irineu dentro do tempo dele e não com tudo aquilo que hoje você tem de informação, mas ele não! Vamos lá!

Se você destaca certos trechos de Irineu e os lê no contexto de tudo o que hoje sabemos acerca do ensino romanista sobre Maria, sim, parece que ele vai ao encontro de toda a atual mariologia. Só que não. Entenda: até agora, todos os que lemos, desde Clemente o Romano, enfim, os volumes 01, 02 e 03 da série Patrística, nenhuma teologia mariana surgiu. A construção da mariologia como a conhecemos hoje é ainda posterior a Irineu e não se pode, portanto, pôr na conta dele coisas que, na verdade, outros é que querem ver.

Afinal, o que Irineu disse sobre Maria? A mesma coisa que Justino! Só que Irineu, à luz da doutrina da recapitulação, irá desenvolver o tema. Justino faz a ligação clássica na teologia entre Eva e Maria. E, quando você estabelece isso, a saber, as duas premissas: 1) o pecado entrou no mundo pela desobediência de Eva e 2) a destruição do pecado veio ao mundo pela obediência de Maria, o silogismo carrega você à conclusão: então Maria participou da salvação! A resposta é sim e não! O que Irineu está pensando quando afirma que Maria salvou Eva, e mais, que por causa de Maria houve a salvação do gênero humano? Nada. Nada além do que é aceitável! Vou explicar.

Na doutrina da recapitulação subjaz a doutrina da “recirculatio”, que entende o “desfazimento” dos nós que foram dados: para que o erro seja desfeito é preciso que se faça o caminho inverso. Assim, onde houve desobediência é preciso que haja obediência. Logo, onde Adão errou Cristo acertou. Onde Eva errou, Maria acertou. Se fomos condenados por causa da falta de fé de Eva, fomos salvos pela fé que Maria demonstrou em sua resposta às palavras do anjo. Isto faz parte da economia da história da nossa salvação. Entendendo isso veremos que Irineu não está atribuindo a Maria a efetivação da nossa salvação, pois fosse dessa maneira, a lógica nos levaria a entender que Jesus, então, salvou os homens e Maria salvou as mulheres. Contudo não é sobre isso que Irineu está falando: a obediência de Maria desatou o nó da desobediência de Eva para satisfazer a doutrina da “recirculatio”. Só isso.

Se você entender os limites do pensamento de Irineu, poderá tranquilamente afirmar, juntamente como ele, que a salvação do gênero humano veio de Maria! E não é verdade? Jesus veio de Maria! Mas, digo ainda, que Maria também foi, para Irineu, recapitulada por Jesus: ela está na genealogia de Jesus!!! Entende? Se a própria Maria não precisasse de salvação, ela não seria apresentada na genealogia, pois a genealogia é a recapitulação da história da nossa salvação em Jesus para Irineu. E Maria, aquela que cantou “A minha alma engrandece ao Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador” também precisava de um Salvador. Ora, o que depois fizeram (e fazem) das palavras de Irineu não é um problema dele, mas revela uma interpretação anacrônica sobre seu pensamento e que não leva em conta o próprio todo e contexto do pensamento de Irineu nesses cinco livros. 

(continua...)

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