Após a leitura, classificarei os livros assim:
Péssimo [0] Ruim [*] Regular [**] Bom [***] Muito Bom [****] Excelente [*****]

Ambrósio de Milão - sobre a penitência (série Patrística)

Quis falar sobre este livro à parte por ser ele de uma argumentação e beleza singulares no contexto histórico em que está inserido. Todo este livro e tudo que será tratado repercute uma experiência que, ao meu ver, foi traumática para a Igreja: o cisma de Novaciano.

Mais uma vez na história, teremos dois lados e ambos estarão certos e errados em seus posicionamentos. A postura de não aceitar a penitência, pois a graça de Deus perdoaria os pecados, encontra guarita no pensamento da Reforma Protestante que viria tanto tempo depois. Por outro lado, a dureza em relação aos apóstatas arrependidos, exigindo-lhes um rebatismo e não meramente uma confissão pública, a divisão da Igreja e a aceitação de ter sido eleito como líder da nova Igreja surgida do cisma, tudo isso depõe contra esses que foram chamados de “puros”, palavra que vem de “cátaros” no grego. Os novos puritanos foram assim chamados por não concederem o perdão e não aceitarem que a igreja romana também assim o fizesse com os apóstatas arrependidos. Eles passaram a rebatizar seus convertidos.

Tento entender o que aqueles cristãos viveram debaixo daquelas 3 grandes perseguições antes de Galério lançar o Edito da Tolerância (311). A história conta que Decio (250) perpetrou a maior perseguição oficial e que, pela primeira vez, envolveu todo o Império. É por causa desta perseguição que Orígenes morre após sofrer tortura. Decio obrigou que todos os cidadãos o adorassem e prestassem culto de ações de graça para que, por meio disso, provassem sua lealdade a Roma. Muitos cristãos compraram esses documentos para que pensassem que fizeram os sacrifícios exigidos. Nesses cultos eram feitos sacrifícios e quem deles participasse recebia um documento comprovando ter se submetido a esse evento religioso e civil. A história diz, porém, que a maioria dos cristãos optou por fazer esse sacrifício para não morrer. É impossível que uma experiência como essa não tenha marcado indelevelmente o Cristianismo! Mesmo após a morte de Decio, houve ainda grande perseguição debaixo de Valeriano, que com vários editos acirrou ainda mais a perseguição contra os cristãos. Um último grande avanço esmagador contra a Igreja se deu com Diocleciano, que mandou que as casas dos cristãos e as cópias das Escrituras fossem queimadas. Em 313, Constantino encerra com um decreto a perseguição aos cristãos. É a partir desse contexto que precisamos ler a obra de Ambrósio.

Assim como o contexto histórico nos ajuda a avaliar o aparecimento dos novacianos e compreender os erros e acertos de ambos os lados, o mesmo contexto ajudará a perceber que o “papado” foi ao mesmo tempo uma construção e uma imposição às demais igrejas favorecida por várias questões exigidas naquele momento. Ainda que assim o tenha sido, o papado nunca foi aceito pelas igrejas do Oriente e, mesmo no Ocidente, sempre foi questionado por questões políticas, doutrinárias e morais. Exemplo disso é a controvérsia Quartodecimana que quase separa a Cristandade ainda no fim do século II.

Daí Ambrósio abrir seu livro tratando da moderação como a mais bela de todas as virtudes - é uma resposta clara aos novacianos, que só desapareceriam no século VIII. E o livro todo se apresenta como uma pérola da misericórdia que deveria ser lido por todo cristão. A tese de Ambrósio, que escreve muito bem e ainda nos presenteia com lindas frases de efeito, é que a moderação deve temperar a justiça (Ec 17: 16-17). A igreja não pode exigir uma penitência que não levará a uma indulgência. Toda penitência deve prever seu fim, sua indulgência. Quando, ao contrário, os novacianos se negam a perdoar, mostram sua heresia, pois foi dada à igreja o conceder o perdão.

Como podem os novacianos negar a misericórdia concedida por Deus (Os 6:6)? Jesus veio na carne do nosso pecado exatamente para a nossa redenção: ele tinha a nossa carne, mas sua carne não tinha nossos vícios, diz Ambrósio. 



Contra os novacianos, Ambrósio chega a apelar que os que são submetidos à tortura podem falar com a boca numa direção, enquanto o coração continua entregue ao Senhor! Se perguntássemos ao diabo sobre estes que cederam à tortura é certo que escutaríamos dele: este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim, diz Ambrósio! É usada a parábola da Grande Festa (Mt 22) contra os novacianos, pois estes estão negando que se entre na festa os coxos, os cegos e os aleijados (os fracos apóstatas arrependidos).

Parece que um dos argumentos dos Novacianos é que o homem não poderia perdoar os pecados por meio da penitência apenas pelo batismo. Daí eles rebatizarem os convertidos e negarem as penitências de Roma sobre os apóstatas arrependidos. Não é muito claro se há algo mais nestas penitências além da confissão dos pecados e uma postura de arrependimento públicas para mostrar a mudança de coração, associadas à prática do jejum.

Embora os novacianos pudessem estar certos quanto à inutilidade das penitências àqueles que já foram alcançados pela Graça, estavam totalmente errados quanto a não perdoar e a limitar essa mesma graça, tornando-a ineficaz diante do pecado da apostasia. E se os novacianos estão errados, Ambrósio no afã de apresentar seus argumentos também erra e abre caminho para o que, mais tarde, vai se desenvolver como uma das mais principais doutrinas refutadas na Reforma Protestante, a saber, a intercessão dos santos. Para Ambrósio, quanto aos pecados leves, cada um deve orar por si, mas quanto aos delitos graves, naqueles que o próprio Deus se mostra diretamente aborrecido, nestes a intercessão deve ser dos mais santos, dos mais justos (como foi no caso de Moisés e Jeremias diante do povo, argumenta Ambrósio). Tudo isso como resposta aos Novacianos que diziam não poder perdoar a quem nem Deus perdoa, dessa postura para o “quinhão de boas obras acumuladas pelos santos e que poderão ser contabilizadas nas contas dos pecadores mais miseráveis” será um pulo. 

Assim, vemos estabelecido o palco para a Reforma Protestante: a Igreja Romana crê na Cruz de Cristo para o perdão do pecado que nos separa de Deus, mas o sangue de Cristo não cobre os demais pecados que virão a seguir na vida do fiel, por isso (veja que sequer se levanta a existência do purgatório) é preciso que as penitências cumpram sua função. Porém, os novacianos levantam a questão do “pecado imperdoável”, aí Ambrósio contra-argumenta que, biblicamente, houve a intercessão de homens mais santos para cobrir estes pecados abomináveis. Deve-se, portanto, apelar a estes...

O que me chama a atenção nisso tudo é ver como nascem os falsos ensinos, os ensinos equivocados. Temos de um lado os novacianos e de outro Ambrósio e em ambos podemos ver os acertos e os erros dos cristãos daquele período: a intercessão dos santos, a penitência para o perdão dos pecados, o surgimento do pontificado papal, o cisma da igreja, a dureza da ala puritana e o rebatismo para a salvação. Estamos chegando ao fim do século IV. 

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