Após a leitura, classificarei os livros assim:
Péssimo [0] Ruim [*] Regular [**] Bom [***] Muito Bom [****] Excelente [*****]

Baudelaire, Eliot, Dylan Thomas [***]





Ivan Junqueira
Editora Record
224 páginas

Ensaios sobre três poetas da modernidade.

8 comentários:

Jorge Fernandes Isah disse...

O primeiro ensaio do livro trata de Charles Baudelaire. Francês, viveu no auge do "romantismo", apesar de ser considerado o pai do simbolismo, e também, uma das influências para o surgimento do existencialismo e do expressionismo; além de ser o precursor da poesia moderna.

Influenciou escritores como Mallarmé, Rimbaud e Verlaine, entre outros.

Ivan Junqueira mostra o desenvolvimento da poesia de Baudelaire, suas influências, e gasta algumas páginas explicando e minimizando o que o próprio Charles afirmou sobre Edgar Alan Poe: ele não influenciou a sua escrita como Baudelaire supôs, e há um exagero quanto à essa influência. De tal forma que a afirmação do poeta francês sobre a dívida que tinha para com a poesia de Poe é superlativada.

Bem, eu não sabia que Poe tinha sido uma grande inspiração para Baudelaire. Nem mesmo achava que Poe fosse um grande poeta. Hoje, suas histórias de suspense e terror são muito mais valorizadas e lidas mundo afora. Mas parece que o seu talento estava mesmo no verso, assegurado pelas declarações estusiasmadas do autor de "As Flores do Mal".

Junqueira analisa esses e outros tantos pormenores na carreira literária e na vida de Charles Baudelaire.

Mas o que mais me chamou a atenção foi a repetição de uma máxima, ao referir-se à relação Poe-Baudelaire: "quanto mais influências saudáveis receba um poeta, tanto melhor para si e sua arte, pois, caso contrário, jamais passarão ambos de rebentos subnutridos" [pg 30].

Em qualquer área da vida, quanto melhores influências, mais se aperfeiçoará.

No Cristianismo não é diferente. Contudo, a maior e melhor inspiração que se pode ter é a do Espírito Santo que nos falará através da Escritura Sagrada. Parece loucura essa mistura de poesia moderna com fé, mas nós, cristãos, de alguma forma temos nos cercado do pior esperando produzir o melhor. Não há temor de Deus, não há reverência, nem se crê na sua palavra como infalível e inerrante, e a partir disso o que temos são crentes fracos a produzir uma vida frágil e corrompida, em que os valores cristãos são postos à margem, como se o século atual fosse a própria síntese da perfeição divina.

Contudo, o que temos são os mesmos infindáveis problemas, que ganham contornos ainda mais dramásticos, quando o homem se coloca na posição de um "deus", e faz de si mesmo objeto de culto e adoração.

Se queremos ser melhores, e não há outro padrão a não ser Cristo, não adianta nos cercar do inferior, seja em pensamento, ações e vontade. Paulo acertadamente disse: Para mim, o viver é Cristo.

De outra forma, busca-se a vida, sem alcançá-la, enquanto a morte se faz cada vez mais provada em nossos esforços de conservar-nos mortos.

Baudelaire foi um homem fraco, como todos os homens. Sujeitou-se a ser escravo de si mesmo, a sofrer a dor insuportável, que o levaria a escrever. Uma tentativa desesperada de fugir do estigma do pecado, ou de aceitá-lo resignado. O mal estava presente, naturalmente presente, e facilmente realizável, sem a menor chance de resistência.

Ele era um esteta que imprimia um rigor ao texto, e buscava na poesia esculpir o bem, como um contraponto, a antítese a todo o mal praticado e somente sublevado através da arte.

De certa forma, a arte era-lhe por deus, capaz de trazer remissão e resgatar o homem da sua maldição e depravação.

Para ele, de maneira impossível [como para qualquer um] a poesia era uma tentativa de auto-expiação.

Uma pena que o homem procure em si mesmo, a despeito de todos os sinais, algo que somente é possível se achar em Deus: o alívio da dor, e a paz que excede todo entendimento.

Jorge Fernandes Isah disse...

Uma amostra, quase uma prova, do que descrevi acima, pela pena do próprio Charles Baudelaire:

"Gostavas de tragar o universo inteiro,
Mulher impura e cruel! Teu peito carniceiro,
Para se exercitar no jogo singular,
Por dia um coração precisa devorar.
Os teus olhos, a arder, lembram as gambiarras
Das barracas de feira, e prendem como garras;
Usam com insolência os filtros infernais,
Levando a perdição às almas dos mortais.

Ó monstro surdo e cego, em maldades fecundo!
Engenho salutar, que exaure o sangue do mundo
Tu não sentes pudor? o pejo não te invade?
Nenhum espelho há que te mostre a verdade?
A grandeza do mal, com que tu folgas tanto.
Nunca, jamais, te fez recuar com espanto
Quando a Natura-mãe, com um fim ignorado,
— Ó mulher infernal, rainha do Pecado! —
Vai recorrer a ti para um génio formar?

Ó grandeza de lama! ó ignomínia sem par".

De 'As Flores do Mal'
Tradução de Delfim Guimarães

Jorge Fernandes Isah disse...

De cara, uma afirmação: Eliot é o meu poeta predileto, se não o maior, um dos maiores. O que denunciará o meu favoritismo à sua poesia e aos comentários aqui, certamente.

Algo interessante é que o autor, Ivan Junqueira, gastou algo em torno de 100 pg para falar da poesia de Baudelaire, e em torno de 60 pg para falar de Eliot. Aparentemente aquele parece mais importante do que este; porém, há uma particularidade: das 100 pg destinadas ao poeta francês, Junqueira compreendeu praticamente toda a sua poesia, ao passo que, em relação ao poeta inglês [para ele, nascer na América não exclui sua natureza britânica, antes a reafirma] o autor se atem a apenas uma faceta da poesia de Eliot: a fragmentação. Com isso, ele analisa, basicamente, três obras: A Terra Desolada, Os Homens Ocos e Os Quatro Quartetos. Com isso, sem dúvida alguma, Junqueira reafirma a genialidade e a profundidade estilística, e as constantes referências aos poemas clássicos que somente T.S Eliot poderia produzir.

Entendo que Eliot trabalha magistralmente a "sonoridade" do poema, de tal forma que a sua construção se assemelha em muito à música, por isso, compreendo que ele, utilizando-se da metalinguagem, constroe poesias assim como um compositor cria sinfonias.

Ler Eliot não é fácil, nem pode sê-lo, mas as descobertas que se faz em seus versos, ainda que poucas, são suficientes para nos surpreender e alegrar. Como Junqueira afirma, referindo-se aos "Quatro Quartetos" [e que eu estenderia a quase totalidade da sua obra]: "Nada disso, contudo, fornece indício capaz de nos levar à compreensão global do que seja o núcleo irradiante do significado mais profundo dos Quatro quartetos, cuja substância poética escapa a quaisquer tentativas exegéticas destinadas a interpretá-la mediante mecanismos que para tanto operam apenas de fora. A quem deles pretenda se aproximar terá sempre exigida uma disposição de espírito que compreenda e apreenda o tempo para além do tempo... a música para além da música... a poesia para além da poesia e a história para além da história".

Assim é a poesia de T. S. Eliot, se é possível resumi-la em tão poucas palavras.

Jorge Fernandes Isah disse...

Transcreverei 02 trechos de comentários que fiz ao livro "Poesia", de T. S. Eliot, e que podem ser lidos integralmente no seguinte link: http://kiestoulendo.blogspot.com/2009/10/poesia.html

"O que se tem é um trabalho artístico preciso e delicado, como saído das mãos de um artesão extremamente habilidoso, que controla cada detalhe da sua obra, e a tece em seus mínimos detalhes, muito, muito original. Uma obra singular.
Ele se vale em alguns poemas do estilo "prosador" dos poetas simbolistas como Baudelaire, Rimbaud e Mallarmé; quase como um contador de histórias. Porém, Eliot no estilo, na temática e estética.
Há musicalidade e experimentação; há metafísica e moral; há tradicão e erudição; há branco e negro; há vida e morte; há o mundano e o santo; há monólogos e diálogos; há interior e exterior; há guerra e paz; há o tempo e o atemporal; minuto e eternidade; luz e sombras...
Eliot parece buscar o seu lugar no mundo, quando nos revela onde estamos.
Como já disse, sem ser um crítico e profundo conhecedor de poesia [nem mesmo me considero um péssimo conhecedor], Eliot me conquistou com o seu trabalho único, cheio de referências, mas original mesmo nas citações".

Jorge Fernandes Isah disse...

Ainda transcrevendo parte do meu comentário ao livro "Poesia":

"Especialmente, gostaria de indicar os poemas Burnt Norton, East Coker e Little Gidding [fazem parte dos “Four Quartets”], excelentes “partituras” em que o poeta faz um discurso lírico e comovente sobre o tempo, a condição humana, o caos do mundo, eternidade, levando-o as mais claras e instigantes implicações que resultam nos fundamentos da sua fé no Deus Bíblico, no Absoluto divino; com um rigor formal e preciso, porém, composto de forma natural como se saídos de uma só tacada.
São poemas longos, quase como uma sinfonia, em que se encontram divisões temáticas, onde se abordam questões e problemas cujas soluções se desdobrarão no decorrer do próprio texto. De certa forma, é como disse anteriormente, Eliot parte sempre do complexo, dos dilemas, dos conflitos, para o elementar, para a solução quase... prática, inevitável, de que ela está no Deus Bíblico, de maneira lógica e racional; talvez, mais do que isso, essencial, inexorável, natural, como disse. Com isso me refiro ao fato de que T. S. não “força a barra”, não nos leva a essa compreensão à fórceps, mas espontânea e calmamente. Seria o mesmo que o lavrador explicar o prazer da colheita, guardadas as devidas proporções, claro".

Em tempo: T. S. Eliot se converteu ao Cristianismo, era membro da Igreja Anglicana, e boa parte da sua poesia tem nitidamente o caráter de exaltar e glorificar a Deus.

Jorge Fernandes Isah disse...

Uma amostra da genialidade e peculiaridade da obra de Eliot, no poema [um dos meus prediletos]:

OS HOMENS OCOS [Poema Completo]

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada
Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;
Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam - se o fazem - não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.
II
Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.
Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo
- Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular
III
Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.
E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.
IV
Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos
Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio
Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.
V
Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada
Entre a idéia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
A vida é muito longa
Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino
Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.
(tradução: Ivan Junqueira)

Jorge Fernandes Isah disse...

Ao escrever sobre Dylan Thomas, Junqueira optou em realizar uma mini-biografia, tecendo alguns comentários sobre o seu método de criação, algumas influências, seu talento para a narração, o cinema e a interpretação, além de se aventurar pela prosa e a dramaturgia.

Parece-me que ele era um autor intuitivo, ainda que obcecado pela palavra, mas sem o erudismo de um Pound ou Eliot.

Curiosamente, o autor não analisa nenhum dos seus poemas detidamente, e sequer transcreve trechos de mais de dois deles, se muito, no livro [lembro-me realmente de apenas um]. Com isso, ele definiu que este ensaio seria mais biográfico, preso à vida do poeta do que propriamente à sua poesia, diferentemente do que fez mais intensamente com Eliot e um pouco menos com Baudelaire, demonstrando a riqueza e valor literários dos dois primeiros em relação ao último.

É claro que essa é uma impressão, que pode ter sido realmente a intenção de Junqueira, ou simplesmente optou em variar o estilo e objetivo dos três ensaios para não ser maçante ou parecer óbvio demais aos olhos do leitor.

De qualquer forma, é um livro que pode estimular e trazer à mente do leitor o interesse de ler ou reler esses três grande poetas, que na minha visão seguem a seguinte ordem:

- T.S. Eliot - Gênio, o melhor.
- Charles Baudelaire - Certamente um gênio, mas não o melhor.
- Dylan Thomas - Não era gênio propriamente dito; grande poeta, mas aquém dos dois primeiros.

Claro que esse dogmatismo na minha classificação é arbitrário e subjetivo, mas se a poesia não nos apaixonar e nos envolver emocionalmente e esteticamente, de que servirá? Se é para atingir a alma, que o seja em todos os seus aspectos, inclusive, os dogmáticos; afinal, a minha autoridade aqui é de leitor, mas também de escrivinhador e resenhista [rsrs].

Jorge Fernandes Isah disse...

Para não ser injusto com Thomas, e fazer jus ao seu talento, transcrevo um dos poemas que mais gosto, "Poema de Outubro" [curiosamente, também nasci no mesmo dia e mês de Dylan, 27 de Outubro]:

"Era o meu trigésimo ano rumo ao céu
Quando chegou aos meus ouvidos, vindo do porto
e do bosque ao lado,
E da praia empoçada de mexilhões
E sacralizada pelas garças
O aceno da manhã
Com as preces da água e o grito das gralhas e gaivotas
E o chocar-se dos barcos contra o muro emaranhado de redes
Para que de súbito
Me pusesse de pé
E descortinasse a imóvel cidade adormecida.
Meu aniversário começou com as aves marinhas
E os pássaros das árvores aladas esvoaçavam o meu nome
Sobre as granjas e os cavalos brancos
E levantei-me
No chuvoso outono
E perambulei sem rumo sob o aguaceiro de todos os meus dias.
A garça e a maré alta mergulhavam quando tomei a estrada
Acima da divisa
E as portas da cidade
Ainda estavam fechadas enquanto o povo despertava.
Toda uma primavera de cotovias numa nuvem rodopiante
E os arbustos à beira da estrada transbordante de gorjeios
De melros e o sol de outubro
Estival
Sobre os ombros da colina,
Eram climas amorosos e houve doces cantores
Que chegaram de repente na manhã pela qual eu vagava e ouvia
Como se retorcia a chuva
O vento soprava frio No bosque ao longe que jazia a meus pés.

Pálida chuva sobre o porto que encolhia
E sobre o mar que umedecia a igreja do tamanho de um caracol
Com seus cornos através da névoa e do castelo
Encardido como as corujas Mas todos os jardins
Da primavera e do verão floresciam nos contos fantásticos
Para além da divisa e sob a nuvem apinhada de cotovias.
Ali podia eu maravilhar-me
Meu aniversário Ia adiante mas o tempo girava em derredor.
Ao girar me afastava do país em júbilo
E através do ar transfigurado e do céu cujo azul se matizava
Fluía novamente um prodígio do verão
Com maçãs
Pêras e groselhas encarnadas
E no girar do tempo vi tão claro quanto uma criança
Aquelas esquecidas manhãs em que o menino passeava com sua mãe Em meio às parábolas
Da luz solar
E às lendas da verde capela
E pêlos campos da infância duas vezes descritos
Pois suas lágrimas me queimavam as faces e seu coração
se enternecia em mim.
Esses eram os bosques e o rio e o mar
Ali onde um menino
À escuta
Do verão dos mortos sussurrava a verdade de seu êxtase
Às árvores e às pedras e ao peixe na maré.
E todavia o mistério
Pulsava vivo Na água e nos pássaros canoros.
E ali podia eu maravilhar-me com meu aniversário
Que fugia, enquanto o tempo girava em derredor. Mas a verdadeira
Alegria da criança há tanto tempo morta cantava
Ardendo ao sol.
Era o meu trigésimo ano
Rumo ao céu que então se imobilizara no meio-dia do verão
Embora a cidade repousasse lá embaixo coberta de folhas no sangue de outubro.
Oh, pudesse a verdade de meu coração
Ser ainda cantada
Nessa alta colina um ano depois".
(tradução: Ivan Junqueira)