Após a leitura, classificarei os livros assim:
Péssimo [0] Ruim [*] Regular [**] Bom [***] Muito Bom [****] Excelente [*****]

Quincas Borba [****]





Machado de Assis
Editora Nova Aguilar
274 Páginas*

"Quincas Borba é um romance escrito por Machado de Assis, desenvolvido em princípio como folhetim na revista A Estação, entre os anos de 1886 e 1891 para, em 1892, ser publicado definitivamente pela Livraria Garnier. No processo de adaptação de folhetim para livro o autor realizou algumas mudanças mínimas, mas significativas"


*Obs: Livro comprado na versão Amazon Kindle, extraído da edição "Obras Completas de Machado de Assis", publicado pela ed. Nova Aguilar em 1994. É uma obra que está em domínio público e pode ser baixada, gratuitamente, no site da Biblioteca Nacional

2 comentários:

Jorge Fernandes Isah disse...

Depois de ler "Coração das Trevas", foi um alívio pegar um livro do Machado. As obras, apesar de próximas no tempo [fins do séc XIX] são bastante díspares. O realismo/materialismo do livro de Conrad é opressivo e angustiante, quando não fastidioso, toma ares de "travamento" da leitura. Seria, mais ou menos, o caso de se fazer tudo para parar ou dar uma pausa, com o fim de remediar o suplício. Foi o que aconteceu comigo; e que quase culminou em abandoná-lo.

Em relação a "Quincas Borba", já no início, percebe-se uma narrativa fluente e que, mesmo tratando de problemas tão ou mais complexos da natureza humana que o "Coração...", não nos faz, de forma alguma, cogitar abandoná-lo.

Primeiramente, gostaria de dizer que o livro, escrito há mais de um século, permanece atualíssimo. Temos a sociedade carioca descrita em detalhes, com sutileza, ironia e "encantamento", onde o protagonista, Rubião, homem simples que se vê rico da noite para o dia, tem de conviver em um mundo muito diferente do seu [a Barbacena das Gerais]. Acontece que ele não está ali por acaso, mas porque, em dado momento, se viu entre eles, e quis estar entre eles, como se fosse um deles. De todas as maneiras, ele tenta ser aceito pela sociedade na capital, e, por sua tolice, na maioria das vezes não passa de um instrumento para que os interesseiros de plantão conquistem seus favores sem qualquer esforço; culminando com o seu abandono, e em ridicularização e desfeita.

Machado mostra que todos são culpados, e Rubião acaba por pagar a si mesmo, na indiferença de quase todos ao final, aquilo que tentou em vão angariar. Vemos amizades fugazes, intrigas, traições, e um mundo de aparências na maioria das pessoas. Talvez os únicos personagens autênticos, no sentido de verdadeiros, já que a mentira também pode indicar algum grau de autenticidade, no fato de se acreditar nela como verdadeira, são Maria Benedita e D. Fernanda, além do cão de estimação, um dos Quincas Borba.

Rubião é um simplório, inculto, que sonha em ter uma das mulheres mais bonitas da cidade, Sofia, e chegar ao posto de parlamentar do Império. Vive digladiando-se consigo mesmo e os outros a fim de atingir seus intentos; e, já, no início da obra, acredita piamente que é correspondido pela linda mulher [que diga-se de passagem é casada com o seu grande amigo Palha], e que o jornalista, Dr. Camacho, dono de um jornaleco de oposição, intenta fazê-lo deputado. Rubião, com poucas habilidades intelectuais e culturais, é orgulhoso e se envaidece com toda a lisonja interesseira que o cerca. Acaba por colaborar grandemente para a sua própria ruína, ao acreditar ser o que não é nem será. Interessante como o orgulho e a vaidade são como trepadeiras que crescem velozes em torno do tronco, e caso não sejam cortadas, cobrem-no de maneira que nada se pode ver além delas mesmas. Rubião, desde o início, parece inebriado com a própria parvoíce, o que o torna em "presa" fácil.

Machado chama-o de "capitalista", mas ele é o capitalista às avessas, pouco interessado em negócios, lucro, dividendos, prejuízos e a perda da sua fortuna [a qual nem mesmo lutou por ela, pois caiu-lhe no colo fortuitamente]; o dinheiro é apenas um meio pelo qual ele pode se aproximar das pessoas, seduzi-las, e conseguir o alívio que lhe atormenta a alma. Ainda que ele pareça mais ingênuo do que mal-ntencionado, não há ingênuos não-intencionados. Há sempre uma permuta onde se dá e recebe, nem sempre na mesma moeda.

{continua...]

Jorge Fernandes Isah disse...

[...]


Sem me preocupar com os detalhes técnicos do livro, ou em uma crítica apurada e técnica [o que não estou capacitado a fazer, mesmo se quisesse], o que sobrou do livro do Machado de Assis foi o contato com a realidade, uma realidade afeita a qualquer um de nós, mesmo guardadas as questões temporais e culturais específicas do período em que o romance foi escrito.

Ao contrário do livro do Conrad, que não parece real, no sentido de que o autor, ainda que tenha vivido experiência semelhante extraiu dela não a verdade, mas uma mentira na qual acreditou ou insistiu em acreditar.

Assis, além de um escritor muito superior a Conrad, está conectado com a realidade, com a verdade, ao contrário deste que viu ou idealizou uma realidade invertida, distorcida.

O próximo do Machado será Esaú e Jacó; mas de todos, sinto uma afeição especial por "Memórias Póstumas...", o qual pretendo reler em breve, se Deus quiser, e postar um comentário aqui.