Após a leitura, classificarei os livros assim:
Péssimo [0] Ruim [*] Regular [**] Bom [***] Muito Bom [****] Excelente [*****]

Anna Karenina [****]


Leon Tolstoi
Amazon Kindle
865 Páginas

"Embora seja uma das maiores histórias de amor da literatura mundial, Anna Karénina não é apenas um romance de aventura. Verdadeiramente interessado por temas morais, Tolstoi era um eterno preocupado com questões que são importantes para a humanidade em todas as épocas. Bom, há uma questão moral em Anna Karénina, embora não aquela que o leitor habitual possa crer que seja...". 

4 comentários:

Jorge Fernandes Isah disse...

Depois de tantos anos, somente agora decidi-me a ler um livro de Tolstoi. E não comecei pelo mais famoso, Guerra e Paz, mas pelo não menos famoso Ana Karenina. Algo que sempre me desmotivou a lê-lo foram dois "entraves". O primeiro, não sei porquê isto sempre me veio à cabeça, imaginei que ele fosse um "rival" literário de Dostoieviski, assim como o Piquet foi rival do Senna na F1, e por aí afora. Leio o "Dosty" desde a adolescência, e nutri durante anos um certo desprezo por Tolstoi. O que acabou por agravar-se a partir da descoberta de Charles Bukowiski que também não gostava do Leon e reputava o Fiodor como o maior entre todos os escritores em todos os tempos. Parecendo confirmar minhas suspeitas de "rivalidade" entre os dois gigantes da literatura russa.

O fato é que esquivei-me o quanto pude daquele, até o derradeiro momento. Penso que, hoje, que certos autores não são "ilelegíveis", e não há como fugir de lê-los. Tolstoi é um deles, clássico, como o é Balzac, por exemplo [e eu não me lembro de ter lido Balzac, mas como a memória anda cansada, por ser que esteja equivocado].

Estou ainda nas primeiras páginas do romance, mas a narrativa é fluída e de leitura agradável. É continuar e esperar para ver o que o russo tem guardado na manga. E tem de ser coisa muito boa, pois mais de 800 páginas de enrolação, somente o Dosty consegue fazer com maestria.

Jorge Fernandes Isah disse...

Apesar da habilidade do autor, há momentos em que a trama parece-se muito com as novelas romãnticas dos escritores de best-sellers atuais, onde há ingredientes para todos os gostos. Há excessos de palavreado e descrições em profusão, algumas desnecessárias, em situações que poderiam ser exlcuídas ou resumidas. entendo que ele queira deixar mais claro do que água o caráter de seus personagens e dos eventos dos quais participam, porém de maneira excessivamente repetitiva. O grande número de personagens secundários deixa-a arrastada, e o leitor um pouco impaciente.

Tais excessos tornam a leitura pouco proveitosa [de uma forma geral], ainda que a familiaridade com os personagens diminua sensivelmente esta sensação. Penso que um corte de 20% no volume final do texto representaria mais fluidez na leitura, diretamente ligada a uma objetividade maior.

Claro que Tostói tem muitos méritos, inclusive da descrição e apresentação minuciosa de suas personagens, o que nos possibilita conhecê-los profundamente. E, talvez neste aspecto, ocorra um pequeno problema no desenrolar do livro: não há surpresas, já que muito do que acontece pode ser vislumbrado pelo leitor atento.

Outro mérito do autor é colocar várias discussões que se iniciavam naquele século e que perduram até hoje, revelando o quão é previsível o homem em sua tolice, excepcionalmente quando se considera imprevisível. Temas de cunho filosófico, teológico, moral, político, cultural são pontuados com boas conclusões, ainda que sejam apenas o mote para se avaliar o caráter de uma e outra personagem.

Penso que há dicotomias sem a menor razão de ser, como a disputa religião x ciência, onde a verdadeira religião e a verdadeira ciência não se digladiam, mas se complementam.

Como em todo livro temos aqueles homens e mulheres de que gostam e os de que não gostamos. Especialmente, nutro uma simpatia por Kitty e Levine [mesmo este considerando-se um ateu], enquanto não posso afirmar o mesmo de Ana e Vroski... Interessante que a mentalidade revolucionária/alienada, via marxismo, já se disseminava rapidamente mesmo em uma sociedade ainda não desenvolvida como a russa, onde Tolstói já vislumbra o que haveria de acontecer décadas depois com Lénin, Trotski e os bolcheviques.

Pouco além da metade do livro, por volta da página 580, posso garantir que não me arrependo de tê-lo escolhido como leitura atual. Tanto que paralisei todas a demais para concentrar-me nele.

Tolstói não chega a ser um Dostoiéviski, mas é um grande escritor, que sabe pegar o leitor não com um espalhafatoso início, mas com o desenrolar da narrativa, somos seduzidos e "hipnotizados" pela sua arte.

Jorge Fernandes Isah disse...

Um trecho que exemplifica em parte o que eu disse acima, sobre o vislumbre do mundo atual a partir da realidade russa, O qual selecionei abaixo. Acontecia na Rússia do sec XIX o que está hegemonicamente disseminado no Brasil do sec. XXI. Tostói não era profeta, mas vislumbrou a massificação da ignorância no mundo de hoje senão, vejamos a fala de um marchand a respeito de um pintor em ascensão, Mikailov:

"Filho, segundo ouvi dizer, de um mordomo moscovita, não sabe o que seja educação. Depois de frequentar a Escola de Belas Artes e de ter adquirido certa reputação, quis instruir se, pois não é nenhum tolo. Para isso recor...
reu àquilo que se lhe afigurou a fonte de toda a ciência, isto é, aos jornais e às revistas. Outrora
, quando alguém queria instruir se, por exemplo, um francês, que fazia ele? Estudava os clássicos, os teólogos, os dramaturgos, os historiadores, os filósofos. Estão a ver o trabalho que o esperava. No nosso país é tudo muito mais simples: basta uma pessoa atirar se à literatura subversiva para muito rapidamente assimilar um extracto completo de tal ciência. Há uns vinte anos, ainda esta literatura mostrava vestígios da sua luta contra as tradições seculares, o quanto bastava para ensinar que tais coisas existiam, mas agora nem mesmo se dá ao trabalho de combater o passado, contenta se em negar francamente: tudo é évolution, selecção, luta pela vida" [Posição 9278].

É ou não é um retrato fiel dos nossos tempos?

Jorge Fernandes Isah disse...

Tolstoi aborda uma boa gama de problemas e dilemas que afligem a humanidade desde sempre. Temas como amor, traição, fidelidade, honradez, malícia, hipocrisia, ingenuidade, fé, etc, são ingredientes do palco em que se desenrola o romance.

Como já disse, ele delineia minuciosamente os seus personagens, de maneira que os conhecemos profundamente. Muitas discussões iniciadas no sex XIX perduram até os nossos dias, mas, em especial, chamou-me a atenção a reflexão que o autor faz sobre a queda intelectual e moral da sua época, o emburrecimento daqueles que deveriam defender e perpetuar a alta cultura e os princípios judaíco-cristãos na sociedade. De forma que entre os aristocratas e letrados é-se possível perceber o que seria "regra" hoje: o desprezo ao conhecimento e à moral, e a exaltação dos instintos ao nível do irracional. Ana é um bom exemplo disso: viveu e morreu pelos seus prazeres e sensações, muitos equivocados, muitos exaltando-lhe o egoísmo e o narcisismo, muitos falsos e irreais, que culminaram numa segunda realidade, existindo apenas em sua mente. Mesmo sendo rejeitada pela sociedade, de maneira geral, seus pecados eram amenizados ou esquecidos por conta da sua beleza e sensualidade, onde os homens adoravam-na enquanto as mulheres desprezavam e invejavam-na. Pouquíssimos são os exemplos morais, num mundo infestado pela imoralidade, mas até mesmo estes reconheciam sua condição miserável e indigna, como a amante do irmão de Levine. A própria Ana reconheci a desgraça em que se lançara, mas a idéia de uma felicidade amorosa e verdadeira, e duradoura com Vroski era como uma espécie de recompensa a todo o mal que ela havia produzido. Temos as figuras dos ídolos,, aqueles pelos quais se manifestam o desejo humano de deificação, seja o amor proibido ou qualquer forma de rebelião ao natural; pois, como criaturas imperfeitas e necessitadas poderiam gerar relações perfeitas e suficientes?

Interessante notar que o senso moral está presente, é reconhecido mas não aceito, como se acatá-lo significasse algum tipo de escravidão, e a sua rejeição consciente uma liberdade. Ao contrário dos nossos dias, onde a moral, ética e os valores nobres do homem são desprezados por não serem reconhecidos como tais [o relativismo torna em impossível qualquer verdade absoluta, entregando-se a irrealidade e contradição da verdade relativa], lá, ao tempo de Tolstoi, o homem se entregava ao erro pela impossibilidade de não-vivê-lo, ainda que reconhecido como tal, como erro.

Esta é uma condição natural do homem, o bem e o mal e a escolha entre eles; ao passo que, atualmente, a ideia do mal está-se misturando de tal forma à do bem que o mal se faz bem e o bem mal, para a desgraça completa da humanidade.

Tolstoi é conservador nesse aspecto, e dá ao seu livro um caráter nitidamente existencial [ainda que o termo não existisse ao seu tempo com o conceito de hoje] e metafísico no desfecho final. Interessante que as implicações metafísicas têm respostas diretamente tiradas da realidade, como atestam as reflexões finais de Levine.

O livro é um achado, e sua leitura pode surpreender, não como estamos acostumados a ser surpreendidos com o espanto e o susto gratuitos, levando-nos a meditar sobre questões cruciais ao ser humano, como a vida e a morte, por exemplo.

Leitura mais do que recomendada.