Após a leitura, classificarei os livros assim:
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Antropologia Filosófica - Ernst Cassirer (1ª parte)

Cassirer é um autor requisitadíssimo nos cursos de antropologia, filosofia e linguística das Universidades brasileiras. Por isso, muitos dos missionários acabam por se encontrar com ele cedo ou tarde. Contudo, a verdade é que a obra de Cassirer já é fruto de todas as teorias que também estão presentes e dando corpo à teologia liberal do século XIX. Assim, não é de se surpreender que tenhamos logo no início do livro um “breve resumo do conhecimento humano desde o nascedouro da razão até seu crepúsculo e ressurreição com o advento da pós-modernidade”. Teremos uma apresentação clara da razão que levou ao surgimento da pós-modernidade, que tantas consequências nefastas trouxe para a área da teologia e que, até hoje, está presente em seus desdobramentos.

A antropologia de Cassirer está fundamentada na filosofia transcendental de Kant, mas com o agravante de já ser uma filosofia neokantista, que rejeitará qualquer vínculo com o referente, com o mundo físico, com a realidade. Isto recebeu o nome de idealismo radical. Assim, a teoria dos símbolos de Cassirer nasce da pressuposição de que o homem não se relaciona com a realidade, por isso sua mente cria o símbolo que irá tornar compreensível e dominável o mundo no qual vivemos. Como fruto dessa teoria dos símbolos neokantiana, Cassirer tem a grande sacada de tecer sobre o homo absconditus. Na verdade, se o nosso Deus que nos fala é um Deus absconditus muito mais o será o homem, que é a sua imagem. Por isso a natureza tão obscura da religião: ela é um símbolo que trata de símbolos de símbolos. Mas para Cassirer, não apenas a religião e a teologia medievais falham na descrição do que é o homem, mas a própria metafísica clássica, pois, para o próprio Aristóteles, descrever o homem pelas categorias acidentais nada dizem do seu ser, pois os acidentes aristotélicos diziam das características mutáveis do ser. Daí a necessidade do símbolo.

É interessante notar que, uma vez atribuída a origem da ideia evolucionista a Aristóteles, como o faz Cassirer, é dado pelo evolucionismo darwiniano, segundo percebo eu, uma justificativa científica e filosófica para o panteísmo e, principalmente, para o panenteísmo tão difundido na teologia liberal do século XX, uma vez que as fronteiras entre as espécies foram derrubadas e que todas são, na biologia darwinista, um desenvolvimento de uma mesma força vital contínua e presente em todos os seres vivos, uma força que nos une e ultrapassa.

No ponto do livro em que são tratados o espaço e o tempo, é impressionante notar como as culturas verdadeiramente veem essas categorias de formas tão diversas. Na cultura em que trabalhei, por exemplo, foi interessante notar que a Escola era um fator de imposição da concepção do “mapa geográfico” forçando a cultura a ver coisas que ela não via e a tornar irrelevantes detalhes essenciais na geografia simbólica do povo. Não somente o espaço simbólico da aldeia vem sendo transformado pela Escola, mas também o tempo simbólico (embora haja em algumas iniciativas escolares a tentativa de se perceber e respeitar o tempo e o espaço da cultura). Todavia, com o inevitável encontro da cultura majoritária com essas culturas indígenas, seja com a ida da escola e da TV para a aldeia, seja dos próprios indígenas vindos para a cidade, a dissolução do simbólico é um fato e o missionário precisa, mais do que nunca, ser a ponte entre esses dois universos, ajudando e apoiando os povos minoritários no resgate, na transição e na compreensão dos novos símbolos também.

Acrescentaria ainda, apenas como curiosidade irônica na abordagem de Cassirer sobre a matemática simbólica, que, diante de um Império como o da Babilônia, que tanto desenvolveu as medidas de peso e quantidade, foi com palavras de medição e peso que Deus anunciou o fim do Império no livro de Daniel.

A teoria dos símbolos de Cassirer é clara: o símbolo, o possível - eis o que diferencia o ser humano dos animais. E esta é uma característica da nossa mente que é derivada da mente de Deus. Deus é ato puro, Deus não trabalha com símbolos. O que ele pensa é criado. O homem não. Ele pode transcender e criar imagens, símbolos a partir dos dados oferecidos pela realidade, ele pode imaginar mundos possíveis e que jamais encontrariam respaldo na realidade e que, como o exemplo dado no livro sobre Galileo, podem mesmo parecer uma contradição com a realidade.  

Enfim, a crítica que podemos fazer a Cassirer é a mesma que se deve fazer ao neokantismo (a filosofia do não realismo), que é uma concepção que radicaliza a ideia de Kant. O idealismo radical do neokantismo afirma que as categorias usadas pela mente para processar a experiência são arbitrárias (Kant as pensava necessárias). Parece, portanto, que a teoria de símbolos de Cassirer nos leva a um círculo vicioso, pois, propondo o símbolo como a saída para a anarquia do pensamento atestada pela crise da Modernidade, ele finda por nos dar uma saída artificial e criada pelo próprio homem. Assim, ficamos presos numa teoria subjetiva que abrirá uma crise novamente à interpretação tanto do homem quanto do mundo.    

O objetivo do autor foi dar ao público inglês e americano uma tradução da famosa obra “Filosofia das formas simbólicas”, contudo, nas palavras do próprio autor, ele não conseguiu traduzir para o inglês de uma maneira satisfatória. Assim, resolveu escrever este outro livro. E isso talvez explique sua linguagem muito mais didática e compreensível. A obra de Cassirer está dividida em duas partes e aqui apresento a resenha da 1ª parte: “Que é o homem?”. Para a resenha completa da 1ª parte do livro, clique aqui. Boa leitura!  

3 comentários:

Sophia Costa disse...

ótimo texto, bastante esclarecedor para quem é cristão e estudioso da Antropologia.

Sophia Costa disse...

ótimo texto, bem esclarecedor para os cristãos que estudam Antropologia.

Casal 20 disse...

A minha edição para esta resenha é a publicação em espanhol de 1967, Fondo de Cultura Ecónomica, México. Contudo, acabei de ser informado que há uma edição em português, "Ensaio sobre o homem", da Martins Fontes.