Após a leitura, classificarei os livros assim:
Péssimo [0] Ruim [*] Regular [**] Bom [***] Muito Bom [****] Excelente [*****]

Ruído Branco [***}







Don DeLillo
Companhia das Letras
320 Páginas

"Ruído branco, o oitavo romance de DeLillo, é a história de um professor universitário que vive com a família no Meio-oeste americano, numa cidadezinha que é evacuada depois de um acidente industrial. À luz de desastres como o da Union Carbide na Índia, que matou mais de duas mil pessoas e feriu outras milhares (e que acabara de ocorrer quando o livro foi publicado), Ruído branco mantém seu sentido atual e aterrorizante"

Um comentário:

Jorge Fernandes Isah disse...

Este é o segundo livro de Don DeLillo que leio; o primeiro foi "Os Nomes", ainda na década de 1990. "Os Nomes" é um livro muito mais introspectivo, mais íntimo, quase um confissão, do personagem principal. Pelo menos, é o que apreendi da leitura, passados 20 anos.
Quanto ao "Ruído Branco", o tema principal, em um universo de muitos personagens, é a morte. Sim, a morte; a começar pelo autor principal, Jack Gladney, um professor universitário especializado em "Hitler" ou, mais especificamente, na matéria, Hitlerologia. Há melhor forma de começar um livro sobre o tema da morte do que informar a profissão do personagem principal? Só se ele fosse também um "Stalinorologista", um "Leninologista", um "Maologista", um "Castrologista", ou um patologista forense. Chega a ser "sui generis" que essa matéria tenha ganhado uma cadeira universitária, mesmo em uma faculdade minúscula, no interior dos EUA. A despeito disso, parece-me que a matéria, e o seu professor, ser o expoente daquele ambiente, mais pela bizarrice do que propriamente pela sua relevância. Seria o mesmo que um acadêmico brasileiro criasse a cátedra de "Getuliologia" ou "Lulologia", guardadas as devidas proporções, claro (espero que ninguém copie a ideia).
Bem, como não sou de descrever enredo e situações, resumindo a trama dos livros lidos, vou-me ater aos pontos que me parecem necessários, sem tirar a graça do futuro leitor, que deseja se embrenhar na narrativa de DeLillo.
Primeiro, a leitura é fluente, a despeito de alguns detalhes e tramas prescindíveis. Não digo que sejam desnecessárias, mas o livro poderia ter sido reduzido em, pelo menos, umas 50 páginas.
Segundo, a maioria dos personagens são paranoicos, neuróticos, obsessivos, quando não são lisérgicos ou desinteressados ao extremo. Não sabia a data em que o livro foi escrito, até iniciá-lo. Em princípio, situava-o por volta dos fins dos anos 60 e início dos 70. À medida que o enredo se desenrolava, percebi que se ambientava no início dos anos 80, o que confirmei hoje, lendo uma pequena biografia do autor (normalmente faço antes da leitura, não sei porquê, cargas d'água, somente fiz agora, próximo ao desfecho final). Na primeiro parte do livro, ele se parece com um “dejavu” dos anos 60, em meio aos anos 80, ou seja, pessoas que cresceram na época da revolta e libertarianismo, estavam entregues a uma vida estável, na meia-idade, ainda que a confusão iniciada lá, esteja presente e vívida duas décadas depois.
Terceiro, após algumas peripécias: um desastre ambiental, controle e manipulação social, traíções conjugais, experimentos químicos/psíquicos, e críticas desferidas a todos os lados, em especial à vida Americana acadêmica e familiar (muitas irônicas, outras ácidas), é-se possível perceber o quanto o homem moderno está perdido, sem rumo, e ainda tem de conviver diariamente com a ideia da morte, da fragilidade, da impotência diante de algo muito maior que a própria existência.
Quarto, o livro é uma sátira, pode-se considerá-lo, até mesmo, uma paródia. Mas não deixa de ser instigante a maneira como o autor aborda uma série de questões, que mesmo parecendo “non-sense” e “hiperbólicas”, nos dão a impressão de que DeLillo está a rir de si mesmo e de nós, o tempo todo.
Ainda faltam-me algumas dezenas de páginas para terminá-lo (um livro que estava na minha estante há uns dois anos, aguardando ser aberto), mas posso dizer que a ficção de DeLillo é, no mínimo, instigante. Ainda que ele não apresente nenhuma solução ou coloque todas as “cartas” na mesa (e diga-se, não é necessário), autores capazes de fazerem com que o leitor adentre ao texto e se impregne dele, tornam-se cada vez mais raridade em nossos dias.
Certamente, é uma leitura que vale a pena. Ainda que você seja assombrado pela ideia da morte; pois ela lhe parecerá ainda mais real e inexpugnável na vida dos personagens de DeLillo.