Após a leitura, classificarei os livros assim:
Péssimo [0] Ruim [*] Regular [**] Bom [***] Muito Bom [****] Excelente [*****]

O Cristão e a Cultura (****)




Michael S. Horton

Editora Cultura Cristã
187 páginas


"Muitos cristãos têm adotado a mentalidade do "nós-contra-eles." Evitam qualquer coisa que pareça "secular", da arte à política, da ciência ao lazer. O resultado é uma subcultura repleta de coisas "cristãs": música, viagens, reuniões de executivos, seminários, redes de televisão, etc.
Em O Cristão e a Cultura, Horton demonstra que as divisões entre secular e sagrado freqüentemente se baseiam em pressupostos falsos ou em telologia equivocada. Ele apresenta um dasafiante e provocante chamado aos cristãos para estarem inseridos no mundo, embora permanecendo distinto dele"

11 comentários:

Jorge Fernandes disse...

Horton quer demolir qualquer visão distorcida do Cristianismo como uma religião em que o crente esteja recluso do mundo. A vida monástica como na idade média (e ainda hoje em algumas religiões, e mesmo em certos "cristianismos"), a igreja como um gueto, e o crente "retirado" do mundo são visões que aprisionam e limitam a atuação cristã, e em nada refletem a mensagem do Evangelho de Cristo, a qual, além da palavra de vida e salvação, tem de se interessar no auxílio ao próximo em todos os seus níveis.
Horton quer desmistificar a idéia do crente antiintelectual, e para isso se vale da história, ao apontar inúmeros cristãos célebres: cientistas, escritores, educadores, estadistas, pintores, etc. Desta forma, o cristão que se reclusa na ignorância e não busca o conhecimento que auxiliará a transformação da sociedade, está renegando o próprio Evangelho, ao desprezar os dons que Deus lhe deu, e que podem ser utilizados na melhoria da vida das pessoas.
Para mim, não há o menor problema em saber que Newton, Kepler, Remblandt, Kuyper, e tantos outros eram cristãos, pelo contrário, alegra-me saber que passaremos a eternidade juntos, louvando e bendizendo ao bom Deus. Ocorre que a primazia do crente é a de proclamar e viver o Evangelho de Cristo, a única ciência eterna e verdadeira, visto que as demais extinguir-se-ão no fim dos tempos.
O que não quer dizer que devemos rejeitar aquilo que de bom o mundo produz, nem nos furtamos a produzir o melhor com os nossos dons, segundo a vontade de Deus. Mas sempre em acordo e conforme a Palavra, para que o mundo (no sentido daquilo que é oposto ao Evangelho) não nos conquiste, e temerariamente nos aproxime do pecado, e nos faça esquecer o real propósito de nossas vidas.

Jorge Fernandes disse...

O autor expõe a distinção entre arte/ciência e fé, entre religioso e secular. Para ele o cristão é um ser híbrido, onde coexiste uma natureza cristã, a mente de Cristo, mas também pode habitar uma mente independente do Cristianismo, a ponto dele poder criar e viver, em alguns momentos, como um extracristão. Isso não representa que o cristão está livre para fazer o que bem entende ou quer, como a liberalidade no pecado ou ser antiético;
porém, se me permito, por exemplo, assistir um filme em que pecados são cometidos indistintamente, ainda que sendo uma "grande" obra de arte ou considerada como tal não estaria dando vazão à pecaminosidade ?(seria possível ao crente assistir a filmes como "Um Tango em Paris" do Bertolucci ou "O Império dos Sentidos" do Ogima, sem pecar?). Não estaria aproximando-me perigosamente da ideologia satânica? Quando Paulo diz que tudo é permitido ao crente, mas nem tudo é lícito ou convém, creio estar falando dessas situações. E ao deixar claro que aquele que consente com o pecado é igualmente participante do pecado.
Porque a arte não pode refletir a minha cristandade? É possível apenas às obras teológicas esse enquadramento?
Há de se distinguir que o fato da maioria das artes cristãs serem mediocres e vulgares como arte, e péssimas doutrinariamente, não implicam que a arte secular seja de boa qualidade e moralmente correta. Tanto cristã como secular, a arte tem primado pela degradação, pela vileza e obtusidade. É o reflexo do estágio em que o homem se encontra, em meio à depravação e corrupção total da alma e do intelecto.
Portanto, afirmar que a arte cristã invariavelmente será má arte é não avaliar a questão corretamente, como se a arte secular fosse melhor em sua essência por ser secular e desvinculada de qualquer padrão religioso/cristão.
De qualquer forma, a análise de Michael Horton leva-nos a refletir sobre a pobreza espiritual dos cristãos na atualidade, e leva-nos a refletir o papel do cristianismo no mundo secular (de forma conceitual).

Jorge Fernandes disse...

Fica a pergunta: pode a árvore boa dar frutos maus? E a árvore má dar frutos bons?
A boca não fala aquilo que o coração está cheio?
Como então é possível ao crente não falar de Cristo, do Evangelho, mesmo que seja através da arte?
É possível dissociar aquilo que está em meu coração e mente daquilo que faço, seja no trabalho secular em um escritório (por exemplo, abrir mão da moral cristã e me tornar um cafetão ou um agiota), ou não se refletir em outras atividades como a literatura, a música, a pintura, a ciência, etc?
Se tenho a mente de Cristo, não há como ter uma mente sem Cristo, ainda que essa mente reflita a glória de Deus na criação, na natureza; porque o cristão será invariavelmente um salvo eternamente, um filho de Deus eternamente, um regenerado eternamente, um santo eternamente.
Mesmo que Horton postule uma separação entre a fé, arte e ciência seculares, não consigo visualizá-la e compreendê-la na prática, pois, o objetivo do crente é a glória de Deus (não somente nos momentos em que estou crente ou me considero crente, mas como crente o sou integralmente, o tempo todo).
Porém, isso não me impede de criar arte sem citar Cristo, sem fazer "pregação", mas sempre se encontrará no arcabouço daquilo que criei a essência do Evangelho, mesmo que não ocorra por mensagem direta ela estará lá, para que Deus seja glorificado e o homem instruído nas coisas divinas (temporais e atemporais).

Jorge Fernandes disse...

Horton com a proposição de Kuyper da "Esfera de Soberania" invalida completamente a idéia do Estado Soberano. Infelizmente, mesmo entre os cristãos, cultua-se o pensamento de que o Estado é autosuficiente para controlar e gerir todos os aspectos da vida social.
Contudo, o que os cidadãos fazem é simplesmente transferir ao Estado a responsabilidade de funções e ações inerentes ao indivíduo, como por exemplo, a educação dos filhos pelos pais.
Desta forma, cria-se uma entidade ineficiente, omissa e impessoal, incapacitada de cuidar daquilo que Deus destinou ao homem, a família e a Igreja realizar.
"A resposta final não está na política, na igreja ou no lar, mas em Deus, que reforma e reconstrói todas as três instituições distintas, liberando cada uma para cumprir o seu papel divino sem confundi-lo com as demais esferas" (pg 36).
Não há porque se misturar as esferas de público e privado, do religioso e secular, pois agindo-se assim o limite dos chamados de homens e mulheres estará transgredido, e o resultado é um profundo empobrecimento da sociedade.
Políticos devem gerir no campo da sua área de atuação, cuidando dos deveres civis, e não se envolver com a pregação religiosa de nenhuma forma; pastores devem proclamar e pregar o Evangelho de Cristo, e não se envolver no discurso político.
Esta visão separatista do autor leva-me à discordar em alguns pontos, alguns deles abordados nos comentários acima.
Contudo, não creio que o púlpito seja lugar para discursos, panfletagem e apologia ideológica. O púlpito é lugar exclusivo da pregação bíblica, da exortação bíblica, do ensino bíblico, da oração e louvor ao Deus bíblico.
O que, porém, não impede o pastor de se envolver na área política, não como um político profissional, no que sou contra, mas em revelar, debater e coloborar para o aperfeiçoamento da sociedade, e para excluir e criticar aquilo que a levará ainda mais ao fundo do poço, ou seja, ele não pode se omitir como qualquer cidadão da participação das decisões, buscando o melhor para a sociedade, e censurando e criticando aquilo que é nocivo, e rejeita a fé cristã.

Jorge Fernandes disse...

Há um dilema: como o crente deve se relacionar com o mundo? É possível ao crente ter uma vida voltada para Deus, em santidade, e se apropriar dos benefícios que o secularismo proporciona, por exemplo, na cultura? Há oposição entre fé e o intelecto? Ou podem coexistir harmoniosamente? O mundo não tem nada de bom a nos oferecer? Devemos prontamente afastar-nos de tudo o que ele oferece?
O primeiro passo é definir o que seja mundo. O homem segundo Paulo em Romanos 1 tem gravado em seu coração a imagem e o conhecimento de Deus, o qual pode ser revelado pela natureza, e o homem é capaz de percebê-lO. Assim, mesmo o incrédulo pode-se tornar instrumento da graça comum de Deus, beneficiando tanto crentes como incrédulos, segundo o propósito divino.
O segundo ponto é entender que a ação do diabo é limitada ao que Deus permiti-lhe fazer. Portanto, ainda que a inclinação da carne (e do mundo) seja o pecado e a rebeldia a Deus, o Senhor limitar-los-á a fim de que a natureza humana e o mal proveniente e advindo dela sejam restringidos.
Contudo, o mundo não é um campo de batalha dualista onde o mal degladia-se com o bem. Para o crente, mesmo o mal pode ser bom, porque todas as coisas colaboram para o bem daqueles que amam a Deus (Rm 8.28).
Então, tudo, mesmo o pecado, pode representar o bem para o homem. É possível? O verso diz que sim.
A questão é que isso estará sempre compreendido dentro da vontade soberana de Deus, a qual conhecemos por inferência bíblica: Deus é Todo-Poderoso, soberano, mas desconhecemos as particularidades do processo e o objetivo final de cada um, ainda que no geral saibamos que tudo resultará na glória de Deus e na santificação dos eleitos.

Jorge Fernandes disse...

Voltamos à questão: é possível o crente se beneficiar e se apropriar daquilo de bom que a cultura secular produz? O autor afirma categoricamente que sim.
Agora, como a Igreja pode influenciar essa cultura ao ponto em que ela reflita mais adequadamente a imagem de Deus, tornando o homem e a sociedade mais justos?
Não será pela pregação do Evangelho de Cristo? Pelo cumprimento da Lei Moral?
Horton responde: "A fim de julgar as nossas idéias, temos que conhecer duas coisas da melhor maneira que pudermos: as forças do mundo que formam os nossos pensamentos, e as verdades da Escritura, que corrigem os nossos pensamentos e revelam Deus e suas promessas de salvação para nós. Os que não se preocupam em ler livros seculares serão empobrecidos e suscetíveis à sedução sutil e indireta, enquanto os que não se preocupam em estudar com cuidado a Escritura perderão o seu único fio de prumo para julgar a verdade em contraposição ao erro, a crença em contraposição à incredulidade, o certo em contraposição ao errado. Os que conhecem a Escritura e a sua cultura têm a capacidade de reconhecer a verdade e rejeitar a falsidade quando a escutam ou lêem - seja na literatura secular ou do púlpito" (pg 61-62).
Segundo o autor, somente se poderá influenciar o mundo conhecendo-o e ao Evangelho. Mas a Bíblia não nos fala do mundo, não nos revela o mundo também? Como algo de que devamos repelir? E da mesma forma que cada um de nós tem a imagem de Deus, não temos a imagem corrompida do mundo também?
Sinceramente, não sei até que ponto Horton tem razão. De qualquer forma, excluir-nos do mundo é impossível, mesmo que seja no mosteiro ou numa caverna.

Jorge Fernandes disse...

O conhecimento secular não precisa ser cristianizado. Podemos tomá-lo e utilizá-lo como o dom de Deus pela graça comum ao crente. Ele não é algo que Deus destinou exclusivamente ao incrédulo, mas algo que o cristão pode se beneficiar, à exceção daquilo que é proibido expressamente na Escritura.
Quando se sente a vontade de cristianizar o conhecimento secular, seja a arte, crenças, tradições, etc, é sinal de que:
1) Eles não são apropriados e benéficos aos crentes;
2) Não entendemos e compreendemos a graça comum de Deus, a qual é comum (lógico), portanto, para todos, crentes ou não-crentes.
Para mim, não há problemas no envolvimento do crente com a cultura secular, desde que o cristão não tenha uma "overdose" de mundanismo, e suprima a leitura e meditação na Escritura, a oração e comunhão com Deus, negligencie os trabalhos na igreja (cultos, evangelismo, reuniões de oração etc).
Sabendo que o conhecimento humano não está acima da revelação bíblica, e de que a Escritura funciona como o regulador tanto do conhecimento como de toda a vida do crente.

Jorge Fernandes disse...

Horton usa a música para explicar a distinção entre aqueles que adoraram no passado e os adoradores do presente. Para ele, no passado, o cristão queria compreender Deus e a redenção, e o louvor era a mais pura expressão do conhecimento de Deus, da exaltação ao Senhor pelo que Ele é, pela Sua obra, por daquilo que fazia ao Seu povo à época. Os salmos de Davi e de outros autores representam, na minha opinião, esse desejo do crente de glorificar a Deus naquilo que Ele é, na sua essência e obra.
Atualmente, vivê-se a deturpação da adoração, onde os crentes querem através do louvor se "autoexpressar", uma característica narcisista de adoração a si mesmo, refletida na música, originada do desconhecimento teológico e da banalidade espiritual em que a adoração, antes centrada em Deus, foi substituída pela adoração centrada no homem. É quando ele busca em si mesmo e a partir de si mesmo descobrir verdades religiosas, ao invés de buscá-las em Deus e na Sua palavra.

Jorge Fernandes disse...

A ciência moderna se desenvolveu e floresceu a partir da Reforma Protestante, por alguns motivos:
1)A fé cristã (as crenças em um só Deus em três pessoas) possibilitou a explicação dos fatos científicos (ordem, unidade, diversidade, etc), mas também ofereceu a única base para surgirem esses fatos.
2)Ainda que a ciência e a Escritura não fornecessem informação uma sobre a outra, elas não eram contraditórias em seus relatos.
"A Escritura era vista como em harmonia com a ciência e, no nível mais geral, explanatória dos fatos que passavam sob os olhos da investigação científica" (pg 106).
3)Os cientistas da Era Cristã insistiam ha humildade na interpretação dos caminhos de Deus na natureza, de maneira explícita.
Ainda que buscando os particulares, eles tinham o conhecimento de que eram homens caídos e finitos, dependentes da revelação especial, a Escritura, para que pudessem desenvolver o "grande quadro" que daria sentido a todo o empreendimento.
4)A ciência moderna não poderia surgir num ambiente hindu ou budista, onde falta-lhes a crença na compreensibilidade do mundo.

Jorge Fernandes disse...

Mas o que se vê com o Iluminismo é a quebra na harmonia que havia nos conceitos de fé e ciência. Apartir de Kant, o empirismo passou a significar aquilo que é racional, e a fé como repousada em uma base irracional.
A fé em Deus significou apenas a justificação para a moral, a ordem e o significado do mundo. Assim, a religião foi encaminhada para o plano das coisas insignificantes e impossíveis de ser conhecidas. Apenas o observável e escrutinado por meio dos métodos científicos poderiam ser conhecidos de fato.
No restante da parte referente à ciência, Horton expõe a possibilidade da volta à harmonia entre ciência e fé, através do "Racionalismo de Bom Senso" de Thomas Reid e o evidencialismo de J.R. Carnes, os quais, resumidamente, requerem que a teologia pode, em relação a experiência religiosa, ser o mesmo que a ciência em relação à experiência do mundo natural, ou seja, a realidade é conhecível "e que se deve tomar decisões sobre a verdade do mesmo modo que se toma decisões sobre os mínimos detalhes da vida cotidiana" (pg 118).
Assim, se parte dos fatos particulares para as conclusões gerais, usando-se a razão e a confiança no método científico, defende o autor.
Para mim, como a metodologia científica se baseia em pressupostos, e portanto, se os pressupostos forem falhos o método também o será; não considero-os confiáveis, nem suficientemente capazes de solucionar as grandes implicações que a vida e a metafísica nos envolve.
De certa forma, ainda que não entenda completa e claramente, o pressuposicionalismo leva-nos a soluções verossímeis.
Como o autor frisou, "a apologética não é evangelismo, mas é indispensável a ele". Quanto a não ser evangelismo, concordo, quanto a ser indispensável, discordo, pois a palavra agirá pelo poder do Espírito no eleito primeiramente como a verdade racional e espiritual (concomitantemente) sem a necessidade de corroboração filosófica ou metodológica, bastando a Escritura por si só, revelando ao pecador a sua natureza, a santidade divina, a expiação vicária de Cristo, o novo-nascimento e a santificação.
Progressivamente os princípios bíblicos serão "assentados" na mente do eleito, e então, somente então, a apologética (no sentido de defesa da verdade bíblica) será usada para confirmar aquilo que o crente soube no primeiro instante, de uma só vez e no todo, para agora entendê-lo em suas particularidades.
Isso não quer dizer que a apologética não levará incrédulos à fé cristã, porém, não necessariamente, ao menos, na minha visão.

Jorge Fernandes disse...

Nos últimos capítulos, o autor se volta mais para a vida cristã, em como o cristianismo foi desfigurado e descaracterizado pela influência do modernismo na igreja. Práticas que auxiliavam e fortaleciam o viver cristão foram substituídas por conceitos modernos e pós-modernos, os quais corromperam e afastaram os cristãos de uma vida devocional em favor de uma vida secularizada, no sentido de que abandonou-se os princípios bíblicos em favor dos princípios mundanos, mesmo na igreja.
Horton, reivindica a volta às origens (o culto familiar, o pai como o líder espiritual da casa, a devoção à Escritura, orações, etc), como a fonte de esperança para os eleitos, a comunhão verdadeira com Deus, e o testemunho eficaz da fé cristã; em suas palavras, a esperança não é "sentimental, baseada numa visão romântica de Deus e numa crença em chavões do tipo 'vai dar certo'; é uma esperança que reconhece a salvação e a 'utopia' como sendo finalmente realizados, não por esforços humanos, mas pela intervenção da justiça no final da era" (pg 158).
No apêndice, Horton defende o tema "No mundo, mas não do mundo", um trecho profícuo e edificante onde temas como a doutrina da criação, da redenção, graça comum e salvadora, são abordados biblicamente; e os princípios para a reconstrução dos fundamentos da fé cristã.
Este é um livro que levará o crente a avaliar a sua relação com o mundo e com a fé cristã, e se ela é verdadeira.