Após a leitura, classificarei os livros assim:
Péssimo [0] Ruim [*] Regular [**] Bom [***] Muito Bom [****] Excelente [*****]

Filosofia para entender Teologia [***]



Diogenes Allen / Eric O. Springsted
Editora Paulus
390 Páginas


"Leitura indispensável para alunos, professores e interessados na relação entre filosofia e teologia. O objetivo, como o próprio título afirma, é demonstrar que não é possível entender a teologia sem considerar a dinâmica das questões filosóficas que, ao longo da história, contribuíram para a formação do pensamento ocidental"

9 comentários:

Jorge Fernandes Isah disse...

Primeiro, uma informação: este livro é uma produção conjunta das Editoras Academia Cristã e Paulus.

Segundo, a introdução do livro, escrita numa linguagem simples e direta, esclarece o princípio da obra e alguns conceitos e termos filosóficos. Posso garantir que é uma leitura fluente e instigante.

Este parece ser um daqueles livros que se tem vontade de ler em uma "tacada" só. Espero que a minha percepção não esteja equivocada.

Deu para perceber duas coisas: muitos conceitos teológicos estão presentes na filosofia ou vice-versa; e de que a ideia de "misterio" e "paradoxo", presente na teologia, têm sua fonte na filosofia. Isso reforça o pensamento de que o homem buscou "saída" para muito do que não compreendeu biblicamente através de artifícios externos a ela, trazendo para a Escritura uma áurea de livro hermético e paradoxal, onde duas ditas verdades coexistem, não porque os conceitos são afirmados nela, mas porque se busca adequar o pensamento divino ao humano, ao invés de simplesmente se aceitar aquele como verdadeiro, ainda que complexo e as vezes intransponível em sua complexidade.

Fato é que esses artificios em nada resolvem a questão, pelo contrário, dificultam-na ainda mais, gerando com isso novos erros interpretativos que impedem de se chegar à conclusão correta.

A questão "liberdade x responsabilidade" é uma delas por exemplo.

Com isso, não estou a dizer que não haja mistérios na Bíblia. A própria existência eterna de Deus é um grande e inatingível mistério para a nossa mente. Porém, isso não nos foi revelado; e o que foi revelado: Deus é eterno e pleno em si mesmo, tanto em santidade como perfeição e infinitude, sem contar inúmeros outros atributos da sua natureza, basta-nos para conhecê-lo.

Como o autor diz: Deus pode ser conhecido pela teologia natural, ou revelação natural [eu diria, conhecido como Criador e Todo-Poderoso], mas ele somente pode ser conhecido verdadeiramente naquilo que nos revelou de si mesmo pela Escritura.

Quanto a conhecer a essência de Deus, parcialmente concordo com o autor; mas sabendo que Cristo é a imagem perfeita de Deus, ele revelou-nos sua essência, a do Deus-Redentor.

Jorge Fernandes Isah disse...

Algumas coisas que apreendi do texto [sem explicar e colocar tudo, senão, teria de transcrever o livro]:
SOBRE PLATÃO - CAP. 2

- O mundo Sensível é uma 'cópia' do mundo das Ideias, sem que tenha a perfeição deste. O mundo Sensívelk é uma imagem ou reflexo das Ideias.

- O que é sentido e tangível [como o mundo] não pode ser perfeito e imutável; apenas o ser inescrutável é fundamental e essencial [ao qual Platão chama de Artífice e no seu relato da criação, de Pai]. O Pai de todas as coisas está além de nós, mas a ordem do mundo tem uma causa.

- Segundo Platão, o mundo foi criado, não é eterno contrariando Aristóteles; ainda que para ele não tenha sido criado do nada, mas de material preexistente, trazendo ordem ao caos. Isso significa que ele não tem uma história da criação para nos contar, mas a história sobre as origens da "ordem" do universo sensível, e não sobre haver algo ao invés de nada.

- Há muitas semelhanças e diferenças entre os relatos da criação bíblica e de Platão, mas o interessante é que os cristãos primitivos não viam essa semelhança como um obstáculo à fé, não como uma ameaça, mas a prova de que havia testemunhas da verdade mesmo entre os pagãos.

[continua]

Jorge Fernandes Isah disse...

[...]

- Penso como Platão, de certa forma, quanto ao mundo, de que ele é bom pois criado por Deus que é todo bom, mas não é perfeita a criação, mesmo antes da queda no Éden.

- O mal e a imperfeição no mundo físico são consequências da matéria, ao ver de Platão. Diferentemente dos gnósticos e maniqueus, ele via o mundo como formoso e belo mesmo que a matéria não se submetesse à ordem perfeita.

- As almas pertencem a ambos os mundos, ao mundo imutável, porque são inteligentes; e ao mundo mutável, porque vivem e mudam [haveria alguma semelhança dessa ideia com a doutrina da dupla natureza do Redentor?].

- Agostinho afimou que não há 'tempo' antes do universo começar, logo ele não começou no tempo. Deus é eterno, completo e pleno; nada se ausenta da vida divina e nada se acrescenta a ela, ao contrário de todas as criaturas. Assim como tudo, menos Deus, o tempo também é criado e criatura. E existe apenas como presente.

- "Para nós há um presente, passado e futuro. O que é presente flui através da consciência humana e torna-se passado. Mas, uma vez que o futuro passou por nós e se tornou passado, não é mais; exatamente como quando ainda era futuro, exato! O passado então existe como memória; o futuro existe como expectação; e o presente existe como atenção. Assim, para nós, existir como seres temporais significa agir agora com memória e antecipação" [pg 38].

- Para Deus todas as coisas são presentes. A palavra de Deus permanece para sempre; ela é dita eternamente. Ela não é submetida ao tempo.

- Por ser Deus eterno, não se pode compreendê-lo em essência, pois uma plena compreensão está além de nós [concordo, parcialmente; pois como disse acima, Deus é conhecido nosso por Cristo, que é a imagem perfeita de Deus].

- Em Platão, o artífice não é um designer, mas um artesão, pois o mundo das Ideias já existe. Como um todo ordenado e independente de ser considerado pelo artífice [o que me leva a deduzir que a mesma ideia de Aristóteles quanto a eternidade da matéria está presente também em Platão. Deus apenas ordena o caos, o existente; sem criar coisa alguma do nada, como o Cristianismo assevera].

Jorge Fernandes Isah disse...

Livro realmente muito bom.

Os autores dão uma boa introdução ao pensamento filosófico antes mesmo dos grandes pensadores como Sócrates e Platão. E a divisão temática dos capítulos me parece bem distribuída didaticamente; ainda que eu não tenha certeza.

Há termos e conceitos [ideias e explicações delas] que me foram difíceis de entender, e algumas que, realmente, não entendi, mesmo relendo o trecho. Parece que seria bom um estudo primeiro de algum livro de introdução à história da filosofia. Como o meu estudo sobre o assunto é intuitivo e autodidata, pode ser que o caminho não seja o melhor e mais adequado.

Especificamente, foi-me mas fácil compreender e andar mais rápido quando os conceitos filosóficos estavam associados à teologia, o que nem sempre aconteceu.

Alguns pensamentos, mesmo de gênios como Platão e Aristóteles me pareceram rudimentares e infantis, o que pode ser causado pelo meu pouco contato com eles e suas ideias [resumindo: ignorância], ou pelo fato de haver mais de 2.000 nos separando. Ou ambos.

De qualquer forma, dá para se ter a nítida impressão de que muitos dogmas e doutrinas foram definidos a partir de deduções, conclusões e mesmo aperfeiçoamento de noções filosóficas.

Uma delas se refere à ideia de Aristóteles de que a alma toma a forma do corpo ou é a forma do corpo, implicando em dizer que não há imortalidade da alma, visto não ser possível a sua existência quando o corpo morre. Isso se contrapõe ao próprio ensino bíblico de que a alma é imortal, e de que nela estão contidos a consciência, a memória e todo o nosso intelecto e razão.

A ideia também do motor-primeiro ser a definição de Deus, mas um deus imóvel, pois mover-se implicaria na sua mutabilidade, parece-me muito fraca, especialmente ao se contrpor o conceito com o que a Bíblia nos revela do Deus imutável mas que se move e não está estático.

Por vários motivos, a leitura é mais do que aconselhada. Esses são apenas alguns dos muitos aspectos discutidos na obra de maneira simples e direta, ainda que tenhas a dificuldades inerentes ao assunto.
De certa forma, concordo com Étienne Gilson sobre a superioridade [inclusive intelectua] da teologia sobre a filosofia.

Jorge Fernandes Isah disse...

Alguns trechos do livro:

"Teologia acadêmica sem práticas espirituais pode muito facilmente levar à frustração com nossas construções teológicas e até mesmo a uma perda da fé, pelo fato de que a prática da teologia pode, assim, degenerar-se em uma exposição de virtuosidade individual, em vez de ser um esforço para crescer no conhecimento e no amor a Deus" [pg 132-133].

"Os cristãos pertencem a outra comunidade, que está acima do Estado, a saber, a sociedade da Igreja. O propósito da Igreja é mais elevado do que o do Estado, de modo que o Estado deve se subordinar ao fim espiritual dos seres humanos e assim também à Igreja. E ainda que a lei natural e o caráter natural do Estado deem ao Estado sua própria integridade, o lugar e papel do Estado precisam ser definidos em relação à lei eterna de Deus (que, por ser Deus o Criador, sustenta a lei natural) e à Igreja" [pg 165].

VATICANO ON LINE disse...

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Jorge Fernandes Isah disse...

Lá pela página 198, os autores, explicando a disputa entre Isaac Newton e Leibniz, já que este propunha a explicação de todas as coisas pelas causas naturais [mesmo as inexplicáveis; o que seria apenas questão de tempo para a ciência vir a explicá-las], enquanto Newton e outros contemporâneos inseriram Deus nos lugares onde não havia explicação científica.
Com isso os autores apontam a não compreensão de Newton ao pensamento de Leibniz que não excluía Deus como o "Primeiro motor imóvel" de Aristóteles, de tal forma que Deus criou, e deixou a natureza por sua própria conta [a filosofia deísta afirma exatamente isso].
Os cristãos aristotélicos acreditavam que as ideias de uma natureza autosuficiente e autoexplicável em suas operações era uma ameaça à fé.
Ao acreditar que Newton "criou" uma tensão desnecessária entre fé e ciência, os autores afirmam que Deus não deve disputar espaço com as causas naturais, dentro de um processo natural. Com isso, defendem que a fé deve se adaptar aos avanços científicos, pois Deus não se encarregou de esmiuçá-los, de detalha-los. Logo, é possível haver harmonia entre o que a ciência descobre sobre um processo natural e a fé, desde que a fé seja a validação da ciência natural [sujeitando-se a ela]. Isso é possível entre cristãos ou crentes; o que, ao meu ver, inviabiliza a fé bíblica.
Para um não-crente, Deus não chega a ser nem mesmo uma hipótese remota. Ele está excluído do debate "a priori".
Parece-me que toda essa declaração dos autores de que Newton "prestou um grande desserviço quando colocou Deus em suas consideraões e onde quer que houvesse uma lacuna na ciência do momento" [pg 198], serve apenas para defender a ideia inapropriada do teísmo-evolucionista, e, assim, criar uma tensão desnecessária e um desserviço à fé cristã.
Entre eles e Newton, fico com o gênio de Newton, o maior físico de todos os tempos.

Jorge Fernandes Isah disse...

A ciência mecanicista, naturalista ou materialista deu lugar a um "novo" Deus: a natureza.
O que nos leva a crer que houve apenas uma substituição e de que os atuais métodos científicos apenas perpetuam essa "nova" constatação de que tudo pode ser explicado por causas naturais, ainda que sobrenaturais. De forma que a ciência também é uma "nova" deusa rival da natureza, pois ela será capaz, com o tempo [e o fator tempo é fundamental para qualquer entronização, seja de um ou outro], de descobrir ou compreender como determinado fenômeno é possível a partir da sua própria naturalidade.
Ao excluir-se o Deus bíblico como Criador e mantenedor de toda a Criação, colocou-se em seu lugar dois novos deuses, capazes de, na desordem, imprimir ordem ao universo [e ainda dizem que a Bíblia é ficção... Faça-me o favor!].

Jorge Fernandes Isah disse...

Não tem como eu discorrer sobre todos os pontos abordados pelo livro, as várias correntes e sistemas filosóficos e seus proponentes e defensores. Não dá nem para falar dos mais importantes, por falta de tempo e espaço.

Porém, uma coisa posso dizer: o livro é muito bom. Foi escrito numa linguagem acessível mesmo para leigos, como eu. É claro que tem coisas que não compreendi, como disse acima, por ignorância mesmo, e há aspectos que são bastante complexos em si mesmos. Mas o legal é que os autores se dispõem a explicar e a facilitar a nossa vida. De maneira progressiva nos é mostrada a "evolução" do pensamento filosófico e sua ligação com a teologia.

O que deu para perceber é que em quase todos os aspectos do pensamento humano a ideia de Deus encontra-se presente. E sempre há o esforço em defendê-lo [Deus] ou negá-lo. Fica-me claro que o estudo do homem, da origem da vida, do pensamento, e tudo o mais que esteja relacionado a eles não é possível sem a discussão sobre Deus. Tenho, para comigo, que mesmo a negação de Deus parte do pressuposto da sua existência. Pois, senão, não haveria a tentativa de negá-lo. Mas isso é irrelevante para o cristão que tem a mente de Cristo, que foi regenerado pelo Espírito, e tem objetivamente comunhão com Deus.

Chamo a atenção, em especial, para a parte onde se fala rapidamente de Thomas Reid, no capítulo sobre Hume; e no capítulo sobre Kant. Boa parte do pensamento moderno é derivado desse período, e do que esses homens construíram.

Estou entrando na parte final do livro, que tratará da modernidade e pós-modernidade, e se não fizer mais nenhuma consideração, estejam certos de que a leitura da presente obra me instigou a ler mais sobre filosofia. Já tinha o desejo de adentrar no universo da filosofia medieval [Agostinho, Aquino, Duns Scott, Ockham, etc], e, agora, também na filosofia moderna [Paschoal, Reid, Kant, etc].

Leitura indicada, ainda que os autores pareçam-me com tendências liberais [evolucionismo, interpretação crítica, etc].