Após a leitura, classificarei os livros assim:
Péssimo [0] Ruim [*] Regular [**] Bom [***] Muito Bom [****] Excelente [*****]

O Livre-Arbítrio [**]



Agostinho de Hipona
Editora Paulus
302 páginas


"Esta é uma obra extensa, profunda e decisiva, de importância excepcional, pelos múltiplos e graves problemas estudados, sobretudo aquele fundamental a respeito da origem e causa do pecado, assim como a responsabilidade humana por seus atos livres. O tema principal é o da liberdade do ser humano e a origem do mal moral. Para Agostinho, a fonte do pecado está no abuso da liberdade, sendo, entretanto, o livre-arbítrio um grande dom de Deus"

9 comentários:

Jorge Fernandes Isah disse...

Agostinho, antes da sua conversão, era um maniqueísta, um discípulo das ideias de Mani, um falso profeta que uniu elementos de várias religiões pagãs e associou-as ao "seu cristianismo".

Resumindo, seria mais ou menos o seguinte: há um dualismo no universo, uma disputa eterna entre o Bem [Deus] e o Mal [demiurgo ou diabo]. E a origem do mal está na matéria. Entre outras coisas, o maniqueísmo prega que os homens devem extinguir em si mesmos a força do reino das trevas, para que se aproxime mais do reino das luzes.

Mani teve a concepção da sua doutrina através da visão de um anjo que, por duas vezes, o convocou para a tarefa de ensinar como seria possível ao homem destruir a influência do mal.

Agostinho escreveu "O livre-arbítrio" como uma resposta filosófica [e, porque não, teológica] às heresias de Mani.

O livro foi escrito em forma de diálogos, entre Agostinho e seu amigo e discípulo Evódio. Essa parece ser a parte mais agradável do livro; escrito num método muito utilizado por filósofos gregos como Platão, p. ex. Porém, o fato de ser um diálogo em nada facilita a tarefa do leitor, pois Agostinho, ainda que se utilize de uma linguagem aparentemente simples, discorre sobre temas e conceitos muito complexos, revelando uma profundidade que vai muito além das palavras.

[Continua]

Jorge Fernandes Isah disse...

[...]

Temos a discussão sobre a questão do Bem e do Mal, da origem do Mal, de Deus como o autor ou não do Mal, do Mal metafísico e físico, da liberdade e responsabilidade do homem...

Já nas primeiras páginas, fica evidente o cuidado e atenção que se deve ter na leitura dos diálogos, que podem parecer tratar de coisas simples, quando há muito mais nas entrelinhas.

Com isso, não quero dizer que haja enigmas, mas profundidade no pensamento de Agostinho; ele, definitivamente, não era uma alma superficial.

Depois de ler "Confissões" [os comentários podem ser lidos aqui no blog], debruço-me sobre esta obra. Ainda quero ler "A Trindade" e "A doutrina cristã", mas não sei dizer quando. Primeiro, devo acabar com este, ou ser acabado por ele [rsrs].

Os assuntos aos quais Agostinho se propõe a discutir são a causa de muitos e infindáveis debates desde que o homem é homem, e não pararam nesta obra; mas muitos problemas foram elucidados ou clarificados por ela.

Não prometerei abordar todas as questões agostinianas [somente nas três primeiras páginas é possível se debruçar e escrever laudas e laudas sobre os questionamentos e conclusões a que o Bispo de Hipona chegou].

Ainda que eu não escreva mais qualquer comentário sobre o livro, fica a dica: leia! Não há como se arrepender.

casquette rockstar disse...

nice post keeping my dear friend!

Jorge Fernandes Isah disse...

O maior problema deste livro de Agostinho é o pressuposto errado e falso de que o livre-arbítro existe. Por isso, ainda que ele faça algumas construções corretas, suas conclusões estão distantes da verdade bíblica.

Como este me parece um livro mais filosófico do que teológico [ainda que existam muitos e muitos elementos teológicos e conceitos bíblicos corretos, como, p. ex. sua explicação sobre a Lei divina e sua aplicação, etc], o fato dele partir da ideia do "livre-arbítrio" destrói e corrompe todo o sistema ao qual ele defende e baseia sua argumentação.

Por isso, ainda que eu continue a lê-lo, já o tenho como um livro "datado", de um período onde Agostinho mais errou em suas análises do que acertou.

Outra questão é que todos os conceitos abordados no livro [ao menos em sua maioria] têm como base o homem e não Deus [uma visão antropocêntrica ao invés da teocêntrica]; o que acabou tornando o entendimento dele falho em muitos pontos, reducionista em outros, e incoerentes na maioria das vezes com a fé cristã.

Mas o diálogo com Evódio é um trabalho intelectual instigante, e que nos leva a meditar e a refletir na verdade bíblica, ainda que pelos caminhos tortuosos apontados pelo "pai da igreja".

jeferson de jesus disse...

o livro arbitrio existi sim ainda que muitos não creeam, pois o senhor desde que fez o homem junto o livro arbitrio pro homem escolher entre o bem e o mal.

Jorge Fernandes Isah disse...

Jeferson,

livre-arbítrio não é apenas a escolha entre o bem e o mal. A capacidade de escolher entre duas proposições opostas é "consequência" do livre-arbítrio. Livre-arbítrio é a capacidade neutra, isenta, sem coação interna ou externa para fazer essa escolha. Como ninguém está isento de coações internas e externas [nem mesmo Deus pode fazer o que vai contra a sua natureza], ninguém também tem livre-arbítrio.
Livre-arbítrio é um conceito que não se encontra na Bíblia. A Bíblia nos fala de escolhas, de que o homem escolhe, mas que não escolhe isentamente ou neutramente, pois se assim o fizesse, esse homem estaria livre de Deus.
POrtanto, a idéia de livre-arbítrio é um conceito humanista e extra-bíblico.
Cristo o abençoe!
Abraços.

Jorge Fernandes Isah disse...

O livro é muito interessante.

Mesmo que Agostinho parta do falso presssuposto da existência do livre-arbítrio, muitas questões em torno da Queda, do pecado, da condição humana, da Criação, Redenção, geração da alma, etc, são refletidas. A maioria de suas conclusões são falhas, exatamente porque o princípio é falho.
Entendo agora a origem de muito do pensamento arminiano moderno, e mesmo do calvinismo compatibilista.

A despeito do esforço do Bispo de Hipona, suas respostas estão presas ao paradoxo ou ao mistério, e a conclusões do tipo "não sei harmonizá-las, contudo, são duas verdades irrefutáveis", ainda que se oponham flagrantemente.

Entendo também porque Pelágio, com quem Agostinho se envolveu em uma controvérsia, em sua defesa, se utilizou de muito do que Agostinho havia escrito neste livro contra o próprio Agostinho, anos depois da publicação de "O Livre-Arbítrio" [Pelágio acreditava, entre outras coisas, que o homem era capaz, por sua vontade, de se salvar sem necessitar da graça divina, visto não haver o pecado original. Assim, tanto Adão como Cristo não passavam de exemplos, um mal e o outro bom, de tal forma que bastaria ao homem seguir o exemplo de Cristo para se salvar. Sua doutrina é o completo agir do homem, em sua própria suficiência, para se salvar, à parte de Deus].

Entendo porque este é um livro de buscas, não de encontros. Certamente, Agostinho achou as respostas para muitas das dúvidas, revendo suas conclusões, em outras obras, posteriores.

Seu sistema de pensamento, exposto aqui, é contraditório em muitos aspectos, especialmente quando ele defende a soberania de Deus, como nada podendo existir ou ser sem que Deus o faça existir ou ser, e ainda assim o homem tem a liberdade [que é uma liberdade de Deus] para escolher entre duas proposições contrárias por sua livre vontade, de forma que seja responsável não pela desobediência a Deus em si mesmo, mas pela capacidade de escolher a desobediência.

Mesmo reconhecendo a autoridade divina, ele a delega a um patamar inferior em relação à vontade humana livre do homem. São equívocos que levam às não-respostas das questões, ainda que se tente respondê-las.

É impressionante como muitos teólogos arminianos e compatibilistas se utilizam do sistema de pensamento descrito neste livro, ainda que com algumas modificações, mas que no fim das contas representa um aval ao sistema, o qual o próprio Agostinho, posteriormente rejeitou.

Contudo, é uma leitura que pode nos ajudar a compreender o pensamento humanista dentro da igreja, em seus primórdios, ao nos defrontar com questões que já poderiam estar sepultadas, mas insistem em sobreviver, mesmo que não passem de ideias-zumbis, onde há o corpo, mas sem alma.

Por isso, avalio o livro com poucas estrelas, a despeito da forma admirável com que Agostinho se expressa, e como nos cativa por sua devoção e piedade.

Jesiel Monteiro de Miranda disse...

Apreciei sua forma doce de escrever, bem educado e bem fundamentado.
Deus lhe dê sempre paciência para pensar, e discordar mostrando a verdade sem ferir.
Jesiel Monteiro
29-11-2013

Anônimo disse...

Eu não sei pq nunca acreditei que existisse esse tal livre arbítrio. Hehehe
É se existe estará sempre no controle do próprio Deus para realização dos seus propósitos.