Após a leitura, classificarei os livros assim:
Péssimo [0] Ruim [*] Regular [**] Bom [***] Muito Bom [****] Excelente [*****]

Uma Curva no Rio [***]








V. S. Naipaul
Companhia das Letras
320 Páginas


"O muçulmano Salim é um imigrante indiano que se estabelece num país africano recém-desocupado pelos colonizadores britânicos. Protagonista e narrador de Uma curva no rio, ele assiste à lenta degradação dessa sociedade depois que o Grande Homem, um líder populista e corrupto, assume o poder.
Atrás do balcão de seu armazém, num lugarejo imaginário localizado na curva de um rio, na Costa Leste da África, Salim testemunha o destino dos vários personagens que habitam a região: a "bruxa" Zabeth e seu filho Ferdinando, o padre católico, o intelectual branco da cidade e sua sofisticada mulher.
Comparado a O coração das trevas, de Joseph Conrad, Uma curva no rio examina com muita ironia o impacto da herança colonial e do fervor nacionalista no interior profundo do continente africano. O autor explora as contradições do contexto social e político da África pós-colonial por meio de um microcosmo que ilustra a dificuldade dos povos africanos em criar uma identidade coesa e forte."

2 comentários:

Jorge Fernandes Isah disse...

Muitos consideram este livro o novo "Coração das Trevas", de Conrad. Bem, entendo que preciso ler novamente o "Coração...". Tenho cá comigo que fiz uma análise rápida, superficial e, mesmo, incompreensível do livro. Estava tão envolvido com o debate ideológico, que vi ideologia por todo os lados, o que é, no mínimo, sinal de deficiência cognitiva, ao qual faço o meu "mea-culpa".

Se em Conrad existe a denúncia do colonialismo europeu, em parte, e da ignorância, servilismo e jogo de interesses dos nativos africanos (lembre-se de que a minha impressão pode não ser a melhor, por causa do que disse no primeiro parágrafo), na obra de Naipaul existe uma denúncia ainda maior da leniência, indolência dos nativos para com os seus "senhores". Em especial, o presidente/ditador do "Domínio", uma faixa de terra subjugada pela guerra civil, a tirania governamental, o culto idólatra ao líder, e a passividade da população, dividida entre a exploração e à veneração doentia ao caudilho.

O pano de fundo, portanto, é a África Tropical, dominada pela ignorância e pela rixa entre suas tribos e povos, até as raias do ódio mais insano. Em um momento no qual o continente via os últimos estertores dos colonizadores, e havia um espírito de independência, tantos os brancos como outros imigrantes (indianos, árabes, etc) eram vistos como inimigos, causadores de todas as mazelas dos nativos, e, por causa disso, deveriam ser perseguidos e mortos. Havia um levante, um insuflar governamental para que os pretos não somente sufocassem mas destruíssem os brancos, para assim serem libertos, ou a fim de manterem a "liberdade".

Salim é um muçulmano de origem indiana (ele considera a sua família mais hindu do que muçulmana, em suas tradições e comportamento), que tinha por servo (escravo mesmo, no sentido exato da palavra) um africano de nome Metty, um garoto que chegou à casa da família de Salim, no literal, e quando este partiu para o interior, para um tipo de independência, em busca da sua própria identidade, Metty segui-o. A despeito de Salim desejar a todo custo "dar" a liberdade a Metty, ele, mesmo com seus melífluos desejos, não queria abandonar a proteção do seu senhor.

Sobre o assunto da escravidão, Naipaul escreveu:
"A escravidão na costa leste não era como a escravidão na costa oeste. Lá, ninguém era embarcado para grandes plantações no além-mar. A maioria daqueles que deixavam nosso litoral ia para casas árabes, para o serviço doméstico. Alguns se tornavam membros da família a que se haviam agregado; uns poucos se tornavam poderosos em seu próprio direito. Para um africano, uma cria da floresta, uma pessoa que caminhara centenas de quilômetros do interior para a costa e que estava distante de sua vila e sua tribo, a proteção de uma família estrangeira era preferível à solidão entre africanos estranhos e inamistosos. Essa era a razão pela qual o comércio escravo se mantivera até bem depois de proscrito pelos poderes europeus; também por isso, no tempo em que os europeus comerciavam com certo tipo de borracha, meu avô ainda conseguia negociar com um tipo diferente daquele. Pela mesma razão, uma escravidão secreta perdurou no litoral até recentemente. Os escravos, ou as pessoas que poderiam ser consideradas escravas, desejavam continuar como estavam."

[continua...]

Jorge Fernandes Isah disse...

[...]
Boa parte do livro se envolve com os conflitos, o assassínio de brancos, e muitos deles amavam os africanos, como o padre Huismans, morto por jovens universitários negros, legionários do "Grande Homem", e que viam na revolução (diga-se mortes em profusão dos opositores, sejam brancos ou negros) uma forma de libertação da alma e do espírito aprisionado do africano tropical. Havia uma guerra cultural, étnica, ideológica, na qual o ditador comunista, e seu governo, insuflava o povo a destronar os imperialistas. Curiosamente, Salim nos remete às suas memórias, na verdade, uma única história de família:
"Lembro-me de ouvir meu avô contar que certa vez expedira um barco de escravos como se a carga fosse borracha. Não sabia dizer quando fizera isso. O fato simplesmente estava lá, em sua memória, flutuando, sem data e sem outras associações, um evento incomum numa vida pacata. Ele não falava disso como de um ato cruel, uma trapaça ou piada; apenas contava a história como algo incomum que houvesse feito — não o fato de não embarcar os escravos, mas o de descrevê-los como borracha. E, sem minha própria lembrança da história do velho, suponho que ela teria se perdido para sempre. Creio, de acordo com minhas leituras posteriores, que a ideia da borracha lhe teria ocorrido antes da Primeira Guerra, quando a borracha se tornara um negócio graúdo — e mais tarde um grande escândalo — na África Central. Há coisas familiares para mim que permaneceram ocultas ou desinteressantes para meu avô.
De todo aquele período de conflitos na África — a expulsão dos árabes, a expansão da Europa, a divisão do continente —, essa é a única história de família que possuo. Essa era a nossa feição. Tudo o que conheço de nossa história e da história do oceano Índico recebi de livros escritos por europeus. Se digo que em sua época nossos árabes eram grandes aventureiros e escritores; que nossos marinheiros deram ao Mediterrâneo a vela latina que tornou possível a descoberta das Américas; que um piloto indiano guiou Vasco da Gama da África Ocidental até Calcutá; que a palavra cheque foi primeiro usada por nossos mercadores persas; se digo todas essas coisas é porque as encontrei em livros europeus. Elas não faziam parte do nosso conhecimento ou do nosso orgulho. Sem os europeus, sinto que todo o nosso passado teria se apagado, como as pegadas dos pescadores na praia de nossa cidade."

A guerra cultural, ou de classes, é a estupidez suprema daqueles que se amam menos do que odeiam os outros. O ódio é a motriz a levá-los para além da imoralidade, da estupidez, da destruição; não há amor em si mesmos, nem uma ínfima chama a compreender que o homem só pode ser inimigo se antes eu o hostilizar.

Em suma, uma "Curva no rio" trata das questões de identidade, onde os homens se perdem em suas próprias concepções do que sejam, mas não estão dispostos a assumir aquilo que deveriam ser. Na África, especialmente, as pessoas se perdem entre os clichês, os estereótipos daquilo que são mas não se adaptam, naquilo que desejam ser e lhes é impossível, e no passado, aquilo que foram, e os assombra. Restam-lhes a tentativa alucinada de negar tudo, não desejar nada, e submeterem-se ao infortúnio de deixarem essa decisão para alguém que apenas os conduz segundo os interesses do Estado, na forma do "Grande Homem". Ele é o personagem que não tem nome, mas se faz quase onipresente na vida de todos os súditos. Mas nem ele mesmo resistirá, e, no final das contas, resta em todos o medo, e a infelicidade de reconhecerem trabalhar em uma causa perdida, em que o futuro nada mais é do que as ânsias de um passado revivido, catastroficamente mortal e amplificado em sua crueza.

E sem identidade, como alguém pode saber o seu lugar no mundo?

Salim parte novamente, para um mundo ao qual não pertence, talvez desejoso de nunca ter aportado na África, para dela sair, como se nunca tivesse nela aportado e existido.

Recomendado!