Após a leitura, classificarei os livros assim:
Péssimo [0] Ruim [*] Regular [**] Bom [***] Muito Bom [****] Excelente [*****]

A Providência e a sua realização histórica (****)



Heber Carlos de Campos
Editora Cultura Cristã

679 páginas

"Deus se apresenta na Escritura Sagrada como o criador que se preocupa com aquilo que criou. Portanto, a doutrina da providência trata de todos os atos externos de Deus posteriores à criação. Somente as coisas que vieram à existência é que são objeto das obras providenciais de Deus.
Estas opera ad extra são a execução temporal e sucessiva do seu plano eterno. Este segundo volume da Coleção Fé Evangélica trata da obra providencial de Deus da forma como a Escritura a apresenta e será de grande ajuda para os que desejam conhecer melhor o seu Senhor" (4a Capa).

20 comentários:

Jorge Fernandes disse...

Esta é a primeira leitura que faço de uma obra do Dr. Heber Campos, e é sobre um tema em que a maioria dos teólogos se esquiva e não aprofunda (apesar de muitos gastarem páginas e mais páginas para não dizer nada), preferindo os malabarismos estéticos e semânticos fincados na base suposicional e humanística ao invés de uma séria reflexão quanto ao ensinamento bíblico.
Inicialmente me agradou a fluidez da linguagem, o caráter didático da obra, e a profusão de referências bíblicas e históricas. O tema levaria qualquer autor ao hermetismo, a ocultar, divagar e escamotear à revelia da revelação divina, ainda que se considerasse um defensor da causa de Deus, quando na verdade ele trabalharia contra a glória de Deus, ao não revelar a Sua completa e total soberania.
Parece-me que o Dr. Campos (estou na pg. 33) propõe-se a aplicar em sua análise sobre a Providência a verdadeira natureza de Deus, assim como Ele a revelou na Escritura:
De que é soberano sobre tudo e todos; de que providencia tanto o bem como o mal; de que não existe força antagônica a Ele (o diabo é um servo de Deus); e de que nada, absolutamente nada, acontece à revelia do Senhor, antes ocorre pela Sua vontade soberana.
Portanto "A Providência" promete ser um livro didático, mas sobretudo bíblico, espiritual; e que reverencia e glorifica o bom Deus.
Mãos à obra!

Jorge Fernandes disse...

A obra providencial de Deus é o cumprimento dos decretos divinos na vida criada. Ou seja, o decreto eterno é a vontade de Deus estabelecida na eternidade cujo cumprimento se dará exatamente como planejado no decorrer da História.
"Portanto, o alvo pretendido, no plano eterno de Deus é concretizado na História por meio dos atos providenciais de Deus " (Pg 32).

"Providência é o ato contínuo de Deus naquilo que foi criado (At 17.24-25)" (Pg 33).

Consequentemente, a História é a consumação dos eventos planejados por Deus no decreto eterno, e que se dá sob o ponto de vista humano, enquanto a providência tem de ser analisada pelo ponto de vista teológico.

Deus não somente determina os fins mas os meios pelos quais os fins se realizam.

Portanto, nossos desejos e pedidos a Deus não podem mudar aquilo que Ele determinou e estabeleceu realizar em Sua sabedoria e poder.
Antes, as nossas orações e pedidos refletem, são frutos da vontade de Deus, o qual coloca em nossos corações os desejos e pedidos pelos quais oramos.
Por nossas orações, glorificamos a Deus ao revelar a nossa dependência, e de que Ele é o único Senhor em nossas vidas.
Não há menor chance de demovê-lO dos Seus propósitos, os quais acontecerão inevitavelmente.
Desta forma, os pedidos que não estão de acordo com a Sua vontade, não são considerados por Deus.

Jorge Fernandes disse...

Deus é a causa primária de tudo, pois Ele deseja e o Seu desejo se realizará efetivamente.

Causas secundárias são os meios que Deus utilizará para que a sua vontade se realize, podendo ser os anjos bons e maus, homens eleitos e reprovados, animais, a natureza, etc.

Deus está sempre no controle dos indivíduos, nações, povos e reinos, para que os Seus santos, sábios e bondosos propósitos se cumpram por eles.

A Escritura jamais usa o termo "providência" para explicar os atos providenciais de Deus no Universo. Porém, o conceito de providência está distintamente expresso em suas páginas, como consequência da saberania de Deus em reger e ordenar o universo em seus mínimos detalhes, visto que tudo, até o mais insignificante objeto ou coisa é alvo da providência divina, seja provendo, guiando, protegendo ou governando.

Jorge Fernandes disse...

Por trás de todas as resoluções ou atos está a mão providente de Deus, o qual, agindo e conduzindo-nos em Sua sabedoria, levá-nos ao cumprimento de suas promessas e decretos infalíveis.

Jorge Fernandes disse...

"Deus está no trono de seu universo, olha para tudo o que ele criou e faz de sua criação o que bem lhe apraz. Ele reina sobre todas as coisas e o seu governo é visto na continuação da existência de todas as coisas" (Pg. 85).

"Não podemos atribuir a Deus qualquer mancha, mesmo quando ele participa de um modo concorrente de todos os eventos. Mesmo nos atos mais maldosos do mundo, Deus sendo a causa primária, tendo decretado o aparecimento deles, e o homem sendo a causa secundária, como agente que pratica os atos, o primeiro não pode ser considerado impuro naquilo que ele decreta. A Escritura afirma que ele é santo em todos os seus procedimentos e não temos autoridade para discutir com ela, porque tudo o que Deus faz tem um propósito santo e suas obras têm sempre uma finalidade benigna" (Pg 86).

Concordo com o que o Dr. Heber afirma em relação à nossa condição de criaturas, e de que não podemos jamais questionar a Deus quanto aos Seus atos soberanos, sejam para o bem ou para o mal. E de que Deus é aquele que cria e planeja o mal, o qual será executado por sua criação. Assim, o princípio é o de autoridade e dependência, pois estamos debaixo da autoridade de Deus e dependentes dEle.
E que o fim de tudo é que Deus seja exaltado e glorificado, mesmo na morte, na dor e sofrimento.

"A ação divina é absolutamente necessária não somente para que as coisas venham à existência, mas para que elas sejam preservadas" (Pg 87).

Jorge Fernandes disse...

"A preservação é descrita em Hebreus 1.3 como o Filho de Deus sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder. Nada do que é criado sem material pré-existente ou com material pré-existente possui auto-sustentação. Tudo o que é criado necessariamente tem de ser preservado. A continuação da existência de todas as coisas que vieram à existência depende de um ato preservador de Deus que as criou. Nada é independente, exceto o Criador... Somente Deus é a fonte inesgotável de energia e vida. Por essa razão ele concede vida e a preserva. Essa é prerrogativa exclusivamente divina" (Pg 99;124).

Jorge Fernandes disse...

Algumas avaliações do texto:
1) O Dr. Heber constroe um texto professoral, didático como disse anteriormente, mas também doxológico, em que a palavra de Deus é a base de construção para o conceito da providência, e no qual Deus é exaltado.
2)Há o prazer do Dr. Heber em apresentar os tópicos e analisá-los à luz do texto bíblico, a partir de uma interpretação ortodoxa; e apresentar uma aplicação prática para a vida cristã.
3)Contudo, alguns pontos são repetitivos e, as vezes desnecessários em determinados pontos. Provavelmente esse seja o método do autor em "fixar" na mente do leitor a doutrina da providência.

Jorge Fernandes disse...

Provisão providencial de Deus é o aspecto da providência em que somos supridos em nossas necessidades diárias e, em especial, nos tempos de privação.
Tem a ver com a interferência especial de Deus na vida de indivíduos, comunidades ou nações, com a finalidade de preservação (Fp 4.19).

Vale a pena ler a exposição providencial de Deus a Abraão em Gênesis 22, quando o Senhor ordena o sacrifício de Isaque.
O paralelo que Campos faz entre o Pai e o Filho, e a redenção como a maior de todas as provisões espirituais, e a analogia com a história de Abraão e Isaque é a grande bênçã; na qual vislumbramos o amor de Deus, gracioso em prover ao Seu povo tão maravilhosa salvação, e uma obra igualmente maravilhosa de redenção do pecador.

A leitura do livro torna-se compulsiva, graças à leitura simples, agradável e pastoral a qual o Dr. Heber imprimiu ao texto.

Jorge Fernandes disse...

"Em resumo: Deus dirige todos os seus servos, mas nem todos partilham do mesmo grau de intimidade. A uns ele dá mais a outros menos, mas todos que são instruídos e dirigidos por Deus são homens tementes a ele. Essa é uma condição sine qua non para receberem a instrução divina para suas vidas" (Pg 164).

A definição de determinismo do Dr. Heber não é clara e ele se utiliza de termos que não querem dizer nada, como "liberdade" e "livre-agência", visto que o homem não pode sequer escolher aquilo que Deus quer que ele faça, mas simplesmente obedecê-lO.
Campos me parece confuso, e está a meio termo entre o compatibilismo e o determinismo, sem saber qual deles é bíblico. Pois, ao afirma que Deus opera em tudo e todos, em seguida pressupõe que o homem é livre para escolher a operação de Deus em sua vida. Isso é incoerente, falso.
A vontade de Deus está expressa nos atos da Sua criação pelo Seu poder e autoridade, e nada tem a ver com "liberdade"; mas com o soberano pode de Deus de criar, comandar e controlar absolutamente tudo, inclusive a vontade humana.

Jorge Fernandes disse...

"Berkhof define o governo providencial de Deus como a 'atividade contínua de Deus por meio da qual ele governa todas as coisas teleologicamente de maneira que assegura o cumprimento do propósito e meta que Deus designa para cada componente da criação e para o todo da História'" (Pg 210).

"Quando você experimentar tanto a alegria como a tristeza atribua a razão última delas ao Senhor Deus, em última instância. Quando ele lhe dá a alegria é para que você aprenda a ser agradecido! Quando ele lhe dá a tristeza é para que você aprenda que ele é o único Consolador! Você jamais experimentará essas sensações a menos que você creia num Deus que governa providencialmente este universo juntamente com todo os seus habitantes, especialmente aqueles que, por graça, vêm a crer nele. Quando você entender essas coisas, você aprenderá a viver mais na dependência dele e cheio de desejosa obediência a ele. É disso que as nossas igrejas desesperadamente precisam - de crentes dessa qualidade!" (pg. 238).
O que dizer depois disso?... Amém!

Jorge Fernandes disse...

A retribuição providencial de Deus é a Sua justiça relacionada com os Seus atributos de santidade e ira, retribuindo (punindo) os atos maus praticados pelos homens, sejam regenerados (salvos) ou não.
Eles não se referem aos castigos eternos, mas somente dos temporais, incluindo-se a morte física.

Campos refere-se aos atos retributivos de Deus ligados à Sua autoridade e soberania. Sendo Ele o criador de tudo (inclusive o mal), Deus não pode estar sujeito à Sua criação, e o que proíbe aos homens é-lhe permitido. Assim, não há pecado quando Deus vinga-se e retribui ao pecador conforme o seu pecado (até porque, o pecado está sujeito a Deus, como o mal, o homem e toda a criação; portanto, pode a coisa criada reger e controlar o seu Criador? Ou é o inverso que ocorre?).
Como bem define o Dr. Campos: "Nós precisamos rever a nossa teologia, porque o Deus e Pai de Jesus Cristo, que é o mesmo Deus do Antigo Testamento, é apresentado como o Soberano Senhor, mesmo no Novo Testamento. É-nos dito no Novo Testamento que ele é o Deus das vinganças... Deus é providente em todas as coisas que faz, porque as faz para que o seu governo seja reconhecido na terra e todas as pessoas saibam que ele é o rei verdadeiro e soberano deste universo" (Pg 243;244).

Jorge Fernandes disse...

O que estava anunciando-se, acabou acontecendo na pag. 263. O Dr. Heber assumiu o compatibilismo com uma definição pomposa: "concursus" divino, ou seja, é a forma ou maneira que Deus colabora e concorre para que as coisas no mundo andem conforme a Sua vontade estabelecida em Seu decreto eterno.
Resumindo: o concursus seria de que maneira as criaturas de Deus o obedecem e ainda são "livres" para fazer a Sua vontade.
Sinceramente, tenho toda a dificuldade do mundo para entender isso, principalmente por que não vi, até agora, uma explicação plausível e lúcida sobre a questão.
Os autores geralmente entram em uma densa "neblina" onde não vêem um palmo à frente do nariz e dizem "apreciar" a vista, como se vissem o que não vêem.
Depois de toda a enrolação acerca da soberania de Deus, de Deus determinar, da vontade de Deus não poder ser frustrada, de que tudo aquilo que Ele decretou na eternidade ocorrerá, para justificar a responsabilidade humana, os teólogos aparecem com a tal da "liberdade" do homem, a qual nem mesmo eles sabem o que seja.
O Dr. Heber avança um pouco mais do que a maioria. Estes, afirmam a liberdade completa do homem (o tal livre-arbítrio), uma capacidade de decidir entre o bem e o mal sem qualquer influência, com isenção. Isto é o maior e pior de todos os delírios. Qualquer pessoa que tenha um mínimo de entendimento sabe que nada acontece com isenção neste mundo. Nossas decisões são influencias e influenciáveis, desde a escolha da compra de um sabonete até o infringir as Leis de Deus, e se rebelar contra o próprio Deus.
Os compatibilistas ainda crêem numa espécie de livre-arbítrio, que, contudo, é controlado por Deus (como calvinistas não se aceita o termo livre-arbítrio, e o substituem por livre-agência, liberdade compartilhada, etc). Mas para mim, é quase a mesma coisa, variando apenas no grau de "liberdade". Porém, o fato de diminui-la não a corrobora, mantendo-a no campo da ilusão, do delírio, da utópia.
Apenas uma pergunta: como o homem pode ser livre (e aqui não importa o grau ou o nível de liberdade) se a vontade de Deus acontecerá sempre, da forma como Ele planejou? Como posso ser um livre-agente? E quais são os critérios reais para definir a palavra liberdade?
Basta um trecho do livro para a confusão se formar: "Não há ato humano que seja feito contra a vontade humana e nunca a liberdade humana é tirada. Todavia, os atos do ser humano não são independentes, mas sempre conectados a uma vontade maior que é a divina, a causa primeira" (pg. 267).
Primeiro: o que é vontade humana? E liberdade humana? Podem estas expressões se harmonizar com "não são independentes, mas sempre conectados a uma vontade maior que é a divina".
Segundo: Há uma incoerência gritante no que é afirmado. Se são livres, são independentes; e não estão conectados a Deus.
Terceiro: Para isso, o homem teria de ser livre de Deus. E, portanto, Deus não pode ser o Deus bíblico. Pode ser qualquer outra coisa, menos o Deus da Escritura. E se Deus não é o Deus bíblico, a Escritura falha. E somos responsáveis diante de Deus por afirmar tal loucura, ainda que seja uma afirmação velada.
Nas pags. 266-268 a tentativa de explicar o que venha a ser liberdade "controlada" do homem é algo tão sem pé e sem cabeça que leva o autor a afirmar que o princípio bíblico da responsabilidade está ligado à liberdade. Mas onde mesmo está isso?
Como não há respaldo bíblico, ele apela para a Confissão de Fé de Westminster, em sua seção III, 1-2; e aumenta ainda mais a confusão com termos como causa primária, última e secundárias (os quais ele não consegue definir, nem mesmo a área de atuação deles entre si). Para depois de tanta confusão e verborrágia estéril afirmar: "Contudo, é preciso lembrar que o modo como essa relação entre a causa primária e as causas secundárias se processa é ainda um MISTÉRIO para nós. Nós a chamamos concursus, mas não sabemos com muita propriedade o modus operandi de Deus" (Grifo meu; pg. 270).
Ou seja, no final, a resposta mais objetiva que o Dr. Heber consegue é de que a relação entre a soberania de Deus e a liberdade humana não passa de um mistério, algo ininteligível, inexplicável.
Já afirmei em outros comentários de livros e em alguns textos sobre a soberania de Deus e a responsabilidade humana que ela está centrada e estabelecida na autoridade de Deus, ou seja, no poder e direito que somente Deus tem sobre a Sua criação. Portanto, o fato do homem ser responsável pelos seus atos está firmado não na liberdade que o homem tem de escolha (o que não existe), mas no direito que Deus tem de julgar o homem e fazê-lo responsável por sua autoridade como Criador e legislador do universo. É simples.
E não há, na Bíblia, nada que afirma que o fato de Deus ser o criador do mal ou do pecado o faz mal ou pecador. Como Criador é-lhe permitido fazer tudo o que bem queira e entenda segundo a Sua vontade, e a Escritura é clara em afirmar que tudo o que Deus faz é bom (mesmo o mal e o pecado).
Infelizmente, as pessoas querem ter uma espécie de jurisdição sobre Deus, como se Ele estivesse "preso" à vontade humana ou as leis do homem.
Como a premissa da "liberdade humana" contamina a leitura da Bíblia, a maioria das pessoas finge não ler os versículos onde Deus afirma que faz tanto o bem como o mal; e se para Deus não há problema algum em declarar isso, por que tem de haver para nós? Deus precisa de defesa? Mas, afinal, de quem? Quem pode acuar, ofender ou impedi-lO de realizar a Sua vontade?
Mas, então, vêem um sem número de pessoas querer protegê-lO, ignorando a Escritura, e desadando a falar asneiras, ainda que com um ar de sofisticação e intelectualidade (o que não é o caso do Dr. Heber, ainda que ao tentá-lo faça uma confusão dos "diabos").
"Porque está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, e aniquilarei a inteligência dos inteligentes. Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o inquiridor deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?" (1Co 1.19-20).
Resumo:
- Deus é o Criador e Legislador de todo o universo.
- Deus é soberano.
- Deus determina e estabelece tudo o que ocorrerá. Nem mesmo uma folha cai da árvore sem que Deus queira.
- Nada acontece sem que Deus mova suas criaturas para concretizá-la.
- O homem não é livre de Deus (se fosse livre, seria uma força antagônica a Ele).
- O homem é responsável por seus atos (por definição da Escritura, a qual salvaguarda a autoridade divina).
- A responsabilidade não tem nada a ver com liberdade, mas com a autoridade divina, o direito que tem como Criador de sujeitar a criação conforme a Sua vontade.
- Deus não precisa de defesa.
- Ele mesmo se revela na Escritura como o criador ("fazedor") do bem como do mal; e nenhum pecado pode ser-lhe imputado por que Deus não peca por definição, e o pecado é algo que está "abaixo" de Deus, em um nível inferior a Ele.
- O pecado e o mal estão no nível das criaturas de Deus, como coisas criadas; portanto, não podem sujeitá-lO.
Em suma, é essa a definição entre o bem e o mal, entre a soberania de Deus e a responsabilidade do homem, do ponto de vista bíblico.

Jorge Fernandes disse...

O homem age segundo o que o seu coração dita, não podendo mudar as disposições do seu coração, o qual somente Deus mudará, diz o Dr. Heber (Na minha visão, o Heber Campos é determinista bíblico, somente não aceita sê-lo, e se confunde com o compatibilismo não bíblico).
Pergunto:
1) Como fica a questão da "liberdade" e responsabilidade do homem no conceito compatibilista se o homem não pode mudar o seu coração?
2) Se o coração do homem é mal, quem o fez assim? E se o mal no coração do homem não foi criado por ele, como ele poderá ser responsabilizado por seus pecados?
3) Se foi Deus quem fez o coração do homem mal, então, Ele não é o autor do mal?
4) Se foi satanás ou o pecado de Adão, ainda assim, satanás e o pecado são criaturas de Deus, criados por Ele com um propósito definido. Portanto, Deus ainda é o autor do mal ou satanás e o pecado são forças antagônicas a Ele?
5) No mundo perfeito criado por Deus, como satanás tomou contato com o pecado? Como pôde pecar? De onde veio o pecado? Se não foi Deus quem o criou, satanás é o criador do pecado e, então, Deus não é soberano pois o diabo agiu à Sua revelia. E aqui o "permitir" não exclui Deus de ser o autor do mal. Para que Ele não fosse, era preciso satanás ser uma força oponente e, no mínimo, com o mesmo grau de intensidade com que Deus é capaz de agir. Isso é dualismo, e é antibíblico.

Jorge Fernandes disse...

"Pode-se conceber a idéia de um Deus absolutamente soberano. Os calvinistas crêem assim. Pode-se conceber a idéia de seres humanos como autônomos. Os humanistas em geral crêem assim. Todavia é impossível conceber o relacionamento da providência soberana de Deus com a autonomia humana. Ou aceitamos uma ou outra. Quem afirma uma nega a outra. É uma impossibilidade lógica aceitar ambas.
A razão pela qual existe uma impossiblidade lógica entre a soberania absoluta e a liberdade de autonomia é porque este último termo significa liberdade absoluta. Soberania absoluta e liberdade absoluta podem existir num mesmo ser. Deus pode ser tanto soberano como autônomo, mas isso não pode ser dito das criaturas, porque não pode haver dois soberanos, nem dois autônomos" (Pg 284).

Então, a qual tipo de liberdade do homem Campos se refere? À livre-agência? Mas o que vem a ser livre-agência? É a liberdade do homem agir segundo a vontade de Deus? Mas isso é liberdade? Como alguém é livre para agir segundo a vontade e a determinação de outra pessoa?
Nem mesmo o fato assinalado pelo autor de que o homem tem prazer naquilo que faz segundo a sua natureza, pressupoe uma espécie de liberdade, pois quem forjou a sua natureza? Se ele próprio, então é livre. Senão, como pode se considerar livre?
É essa frágil "liberdade" conceitual que estabelece aos compatibilistas a responsabilidade humana. Então, o homem é responsável pelo próprio esforço, ou seja, ele é responsável ao deter certa liberdade em si mesmo. Isto é bíblico? Não seria o correto, bíblicamente, o homem ser responsável pelos seus atos porque assim Deus o quer, e estabelceu que assim seja? Isto é bíblico, e evita que nos enrodilhemos numa rede de ensinos confusos e ilógicos.

Jorge Fernandes disse...

Há momentos em que realmente confundo qual o verdadeiro conceito que o Rev. Heber abraça acerca da soberania de Deus. Vejamos os seguintes trechos:
"O decreto de Deus precisa ser cumprido por causa da eficiência dele. Por causa da sua natureza, Deus não pode determinar que um evento venha a acontecer e, por falha das criaturas, ele não venha a acontecer.
As criaturas não são independentes de Deus em quaisquer de suas ações, sejam nas boas ou nas más. A fim de que os seres humanos cumpram os planos divinos" (Pg 316).
O trecho acima não parece escrito por um determinista bíblico? O qual vê a completa e total soberania de Deus em tudo e em todos, sem ter de harmonizá-la com a falsa liberdade do homem?
Vamos ao texto seguinte:
"Curve a sua cabeça, curvando-se diante da majestosa sabedoria dele que faz com todas as coisas aconteçam, sem nunca ferir a liberdade humana, sem nunca forçar o homem a fazer nada contra a sua própria vontade, mas faz com que todos os seus decretos sejam literalmente cumpridos e os homens se sintam responsáveis por todos os seus atos" (Pg 318).
Não parece um trecho escrito por um "quase" arminiano?
O problema compatibilista é esse: querer unir soberania de Deus com liberdade humana, a fim de que o homem seja responsável.
Ora, a responsabilidade humana não está implicita nela, mas na autoridade de Deus que determinou que o homem seria responsável por seus atos e, portanto, punido por eles. Não tem nada a ver com liberdade.
Como podem os atos soberanos e determinados de Deus se adequarem à liberdade humana? Pode uma pessoa controlar a outra e ainda assim essa se sentir livre para ser controlada por aquela?
Os dois trechos transcritos da obra do Rev. Heber mostram o quão pode se tornar confusa a tentativa de se adequar decreto de Deus com liberdade humana. Uma exclui a outra; e, então, ou Deus é soberano, ou o homem é livre. Não há meio termo, nem mesmo quando se apela ao "mistério" (a válvula de escape de todo compatibílista quando é "prensado" contra a parede).
O entendimento bíblico é um só: Deus controla tudo e todos. A minha vontade é controlada, os meus atos são controlados, os meus pensamentos e decisões. Mas ainda sou responsável por tudo o que faço, pois assim a autoridade de Deus o determinou e estabeleceu. E em nada, a glória do Senhor é diminuída, antes é exaltada por todo aquele que se curva verdadeiramente ao Seu governo, que alegra-se em estar sujeito ao Deus único e vivo, ao Deus bíblico criador dos céus e da terra, ao Deus santo, reto, justo e soberano, que com Sua infinita sabedoria administra cada detalhe, por menor que seja, em todo o universo.

Provavelmente os meus comentários devem diminuir com o restante do livro, visto parecer-me que o Dr. Heber o gastará explicando o inexplicável: acomodar a soberania de Deus com a liberdade humana, para ao final, concluir que tudo é um mistério.
Como não quero ser repetitivo, e creio já ter exposto claramente a posição do Rev. Heber, e a minha posição determinista bíblica, farei inserções apenas se surgir algum fato novo ou destacável.

Jorge Fernandes disse...

A segunda parte do livro (a partir do cap. 12) refere-se à providência de Deus e o mal (e suas implicações doutrinárias, históricas, filosóficas...).
O Rev. Heber explica em detalhes como se deu na história o desenvolvimento e a compreensão de Deus e o mal, partindo-se de cosmovisões díspares do cristianismo (e em alguns aspectos até mesmo no "mundo cristão").
O texto é extremamente didático, detalhista e refuta as cosmovisões que não são bíblicas (afinal, apenas uma cosmovisão é bíblica).

Pode parecer que os meus últimos comentários "descredenciam" a obra do Dr. Heber Campos. Se passei esta impressão, perdoe-me. O livro é muito bem elaborado, servindo como obra acadêmica mas também para o leigo que deseja conhecer melhor a Deus. Portanto, aconselho a sua leitura de capa a capa, o que estou fazendo e me deliciando com a posição ortodoxa (bíblica, diga-se de passagem) do autor.
É claro que o problema ao meu ver está na incoerência compatibilista entre soberania de Deus e liberdade humana, o que, até o momento, é o único senão da obra; exatamente por que, ao tentar conciliar uma coisa com a outra, o autor se confunde e confunde ao leitor que desejar entendê-lo (creio que ele mesmo não se entende logicamente nesse aspecto), pois tal associação é inteligível por sua própria impossibilidade escriturística.
Mas isso em nada compromete o restante da obra que é pautada pelo rigor bíblico e sistemático, apresentando Deus como o supremo e soberano Senhor do universo.
Inclusive, postarei parte do texto intitulado "Conceito Dualista" no meu outro blog "GUERRA PELA VERDADE", o qual, dentro de alguns dias poderá ser acessado no seguinte link: www.guerrapelaverdade.blogspot.com

Jorge Fernandes disse...

O Rev. Heber aborda a questão moral e física do mal, em geral, apropriadamente, ao explicar os mecanismos com que o mal físico e moral atingem as criaturas de Deus.
Contudo, o autor peca em não explicar a origem desse mal de forma clara e confirmada biblicamente. Não que ele ignore a questão, mas é que a sua apresentação deixa confuso o leitor, pois existem vários pontos "soltos" em sua exposição.
Por exemplo: Se Deus decreta tudo o que existe, o mal também foi decretado por Ele. Se Deus pode decretar o mal (criá-lo) na visão do Dr. Heber, o que impede que Deus seja o autor do mal?
Se tudo é criado por Deus, logo o homem peca e pratica o mal como uma "forma" de obediência ao decreto divino, ainda que negativamente ao desobedecê-lO (porém positivamente ao cumpri-lo).
Sabemos que Deus não peca porque o pecado é criação divina e está no nível da criação, das criaturas, portanto, o pecado e o mal não exercem nenhuma influência em Deus, no sentido de que Ele venha a agir sob as condições daquilo que criou. Como Deus é o criador, não está sujeito à criação, antes sujeitá-a como quer, segundo a Sua santa vontade.
Então, quem comete o pecado é a criatura, mas quem estabeleceu o pecado foi Deus, através da Lei Moral que aponta para ele, e através da natureza pecaminosa criada por Deus no homem; visto que, se o homem é capaz de pecar por sua natureza, quem lhe deu essa natureza foi Deus.
Não há outra explicação, e não há por que defender Deus de algo que Ele não precisa de defesa (em nada Deus precisa de defesa; e em tudo o que Deus revela de Si mesmo na Escritura o homem tem o dever de aceitar como sendo a própria revelação divina do Seu ser e natureza).
Muitos dirão que foi pela queda de Adão, por sua culpa, que o pecado e o mal entraram no mundo. É verdade. Mas se Adão foi criado perfeito, como foi-lhe possível pecar? Então dirão que foi induzido pelo diabo. Correto. Mas se o diabo também era um anjo perfeito, como foi possível se corromper? Num mundo celestial sem o pecado e o mal, como satanás pôde concebê-los? Como foi-lhe possível criá-los? A partir do quê? Ele é uma força criadora como Deus? Ou o Senhor concebeu-o exclusivamente com o propósito de pecar, cair e corromper as criaturas destinadas à condenação?
Isto implica dizer que o mal, o pecado e a condenação não "faziam" parte do plano divino, e que Deus foi pego de surpresa diante do poder avassalador do diabo.
Quem assim afirma, afirma uma terrível e enorme heresia. Não há no universo visível ou invisível força capaz de se confrontar com Deus. Ele é Senhor e soberano sobre tudo e todos, e tudo e todos estão sujeitos à Sua vontade e, portanto, "presos" àquilo que Deus determinou na eternidade, no âmbito da atuação a qual o Senhor estabeleceu para cada uma de suas criaturas no mundo. O que vale dizer que nada ocorre alheio à vontade divina, nem o mal, nem o pecado, nem o diabo, nem o homem, nem os animais, os quais são servos de Deus, independente das suas vontades (uns para o bem, outros para o mal, contudo, todos somos escravos).
Ninguém pode ir além das ordens de Deus, daquilo que Ele estabeleceu como o campo de atuação das suas criaturas; todos estamos sob Suas ordens, e as cumpriremos infalivelmente (onde está a liberdade humana?).
O Rev. Campos afirma que Deus é o criador do mal, porém, não é o seu autor. Ora, que diferença há entre o criador e o autor? Ambos são os mentores, e um termo não exclui o outro. Deus usa como agentes as suas criaturas, portanto, quem pratica o mal e o pecado são as criaturas. Por isso o mal e o pecado não podem ser imputados a Deus (que é santo, reto e justo por definição escriturística), exatamente por serem criações divinas e estarem no nível da criação. Deus as subjuga, e não pode ser afetado por elas. Ao não estar condicionado à criação, o que prevalece é o princípio da autoridade divina, a qual jamais poderá ser "alcançada", atingida pelo objeto da autoridade; em outras palavras, a autoridade sempre predominará sobre o alvo do desígnio e projeto divino, e jamais esses objetos (os homens, os anjos, os animais, a natureza, etc)poderão influir sobre Deus ao ponto de terem ascendência sobre Ele, antes são coisas derivadas dEle (no sentido de criação, de existência pela Sua vontade), portanto dependentes em tudo da Sua vontade decretada.

Jorge Fernandes disse...

"Os males que vieram a Jó não têm nada que ver com seus pecados, com a imputação de penalidade, ou por causa da maldade de outros homens como veremos abaixo. Eles estão relacionados a uma atividade do Maligno, atividade essa que faz parte das obras providenciais de Deus. Já vimos que Satanás também é um trabalhador de Deus, um funcionário da administração divina, que cumpre a vontade decretiva de Deus na vida das suas criaturas" (Pg 476).

Com base no texto acima, faço as seguintes perguntas:
1)Onde entra a liberdade das criaturas no propósito de Deus?
2)Será possível ao Criador fazer cumprir o Seu decreto eterno se às Suas criaturas foi-lhes dada a liberdade para decidirem livremente?
3)E se essa liberdade existe, não é uma força capaz de frustrar os propósitos divinos (visto não haver a certeza de que as criaturas "livres" decidirão por aquilo que Deus se propos)?
4)Como explicar essas questões sem apelar para o "mistério"?
Ficam as perguntas, as quais tenho tentado responder no decorrer dos comentários ao livro, e as quais os compatibilistas não encontram saída.

Anônimo disse...

Oi Jorge!

Comprei recentemente esse livro e estou na expectativa de lê-lo (vou ler primeiro "O Ser de Deus e Seus Atributos"). Obrigado pelas postagens, por seus comentários. Acho que o problema dos compatibilismo é antigo pois li alguns trechos de livros históricos, do século XVII, e tive a impressão de contradições. Talvez eu não tenha entendido direito aquele linguajar rebuscado dos antigos calvinistas mas que pareceu contradição pareceu...

Osmar Neves, Brasília-DF em 12/07/2009.

Jorge Fernandes disse...

Osmar,
Andava sumido! Senti sua falta. Fiz o contrário, li primeiro o livro sobre "Providência" por causa do meu interesse no tema, e deixei o "Ser de Deus" para depois. Está na minha estante, mas é que tenho tido mais livros para ler do que tempo. Alguns, não vou nem publicar muitos comentários, apenas o essencial.
Como você deve ter lido, não concordo com a posição do Dr. Heber, creio que os compatibilistas fazem um malabarismo danado para explicar o que não conseguem explicar. Mas o livro dele é muito bom, didático e bíblico quanto à questão da Providênia Divina. Mas quando entra a liberdade humana... a coisa se complica.
Leia-o, e vamos trocar algumas impressões.
Abraços.