Após a leitura, classificarei os livros assim:
Péssimo [0] Ruim [*] Regular [**] Bom [***] Muito Bom [****] Excelente [*****]

D. Martyn Lloyd-Jones: cartas 1919-1981 (***)


Dr. Martyn Lloyd-Jones
Editora Pes
296 páginas




"A narrativa em dois volumes da vida de David Martyn Lloyd-Jones (1899-1981), de autoria de Iain H. Murray, é uma das mais grandiosas biografias cristãs do século XX. Conta-nos a extraordinária história da vocação de um jovem e notável médico para o ministério cristão, narra-nos da influência duradoura e amplamente difundida da sua pregação, como também da sua influência espiritual, primeiro em Gales, sua terra natal, e depois em Londres e no mundo inteiro. Mas, as cartas de um homem contam de dentro a história da sua peregrinação, e aqui, em mais de uma centena das suas cartas pessoais, temos um encontro em primeira mão com Martyn Lloyd-Jones. Embore ele se considerasse um "pobre correspondente", estas páginas narram uma história diferente, pondo a descoberto, descontraidamente, o afável vigor de uma personalidade que deixou indelével impressão nos que o conheceram pessoalmente. Apanhamos aqui um vislumbre da ampla e equilibrada figura do homem: o médico e o pregador; o estudante de teologia profunda, que era fascinado pela vida agrícola; o apaixonado por livros, que se preocupava com as pessoas; o ardoroso galês, que dedicou anos da sua vida ao serviço cristão na Inglaterra e além. Neste livro cativante e fascinante, Iain Murray divide a correspondência de um modo que propicia penetração nas diferentes áreas da vida de Lloyd-Jones (família, igreja, colegas no serviço cristão), porém, ao mesmo tempo, retém a seqüência e o desenvolvimento cronológicos. Complementando perfeitamente a biografia, as Cartas de D. Martyn Lloyd-Jones revelam a grande emoção da sua vida: 'Não o que temos sido, não o que temos feito, mas a graça de Deus em Jesus Cristo, nosso Senhor'". [Sinopse da Editora].

7 comentários:

Jorge Fernandes disse...

Foram dois os motivos pelos quais me interessei em adquirir este livro:
1)Conhecer um pouco mais da pessoa do Dr. Lloyd-Jones, o qual tenho lido muito (suas pregações e exposições bíblicas publicadas em livros), e com quem tenho afinidades doutrinárias (não há unanimidade, mas concordância em boa parte delas).
2)Nos últimos meses, tenho me dedicado à leitura teológica "pesada", em especial, a questão da soberania de Deus (predestinação, providência, Deus e o mal, eleição/salvação, etc). Com isso, não tenho lido temas diversos como vida cristã e biografias. Então, julguei que precisava de um "descanso", e ler sobre assuntos mais "amenos".

O início do livro, em que são expostas as cartas relativas ao começo do ministério do Dr. Jones, mostram o zelo e preocupação que ele tinha para com as coisas do reino, com a igreja e o seu ministério pastoral.
Sua modéstia ao escrever, e o carinho com que se referia a todos (ainda que "formalista" para os padrões atuais) demonstra alguém com o propósito de servir a Deus e à propagação do Seu reino através do Evangelho, sem a vaidade e o estrelismo presentes na maioria das lideranças atuais. Chega a chocar a simplicidade com que encara o seu ministério, em contraste com a ostentação e a idolatria presente entre os ministros de hoje.
E ao olharmos os frutos que o Espírito Santo fez nascer na vida do Dr. Lloyd-Jones e dos cléricos deste século, só podemos entender a sua humildade e resignação como a obra de Cristo em sua vida. Ao passo que, quanto aos demais... os frutos falam por si só (ou a falta deles).

Um livro de cartas pode ser entendiante, se não forem escolhidas com objetivos prévios pelo editor. Espero sinceramente que esse não seja o caso do presente volume.

Jorge Fernandes disse...

A 2a. seção das cartas são enviadas pelo Dr. Jones à sua esposa, Bethan.
Elas revelam um marido amoroso, ainda que distante por causa das muitas viagens, que a trata constantemente de "a garota mais querida do mundo", bem como a ternura com que se refere as duas filhas.
Evidencia-se também o zelo e o amor com que proclama o Evangelho de Cristo, a preocupação que tem de que a mensagem pregada seja fiel e usada em conformidade com o Espírito Santo para quebrantar os corações.
Desta forma, aonde vai, é assediado pelos irmãos, jovens e velhos pastores, que desejam conhecer mais o verdadeiro Evangelho de Cristo.
Dr. Jones vive numa época em que a igreja fora invadida pelo liberalismo teológico e pelo ceticismo. As ciências humanas influenciavam e ditavam o teor das pregações, e havia muita distorção no seio da igreja. A ponto de Martyn afirmar que era muito difícil ser calvinista naqueles tempos.
Então, quando os verdadeiros servos de Cristo ouviam o Seu Evangelho proclamado com o poder do Espírito Santo, havia uma necessidade das pessoas de ouvirem mais e mais aquilo que fora negligenciado por tanto tempo.
Por isso, suas cartas são ao mesmo tempo alegres com a resposta à pregação expositiva bíblica, mas triste por constatar o estágio em que a igreja se encontrava, e de como havia muitos corações endurecidos que se opunham à Verdade.
Dr. Jones se revela um homem simples, acolhedor, que se relaciona bem com todos, e reconhece em todos e em tudo a obra de Deus, seja na natureza esplendorosa, nas amizades sinceras, no zelo para com as coisas de Deus, em tudo ao seu redor.
Como qualquer homem, ele tem defeitos (quase imperceptíveis entre as letras), contudo, sua sujeição a Deus e o firme desejo de servi-lO, torna-o um amigo quase íntimo, um velho sábio do qual podemos ouvir e nos deleitar no amor e sabedoria com que o Senhor o forjou.

Jorge Fernandes disse...

A 3a. parte do livro trata das cartas escritas aos amigos e colegas de ministério.
Nelas Lloyd-Jones fala de assuntos diversos, notadamente sobre a necessidade de avivamento na Igreja, de seguir-se a ortodoxia bíblica, viver pela fé, e a confiança em Deus.
Há grandes partes em que faz críticas a livros e autores evangélicos (em especial Barth e Niebuhr), opina sobre manuscritos (existe uma atenção especial com um jovem pastor e escritor, o qual se tornou grande amigo do "doutor", o rev. Philip E. Hughes) e, de uma maneira mais intensa, se preocupa, estimula, fortalece e anima amigos que se encontram enfraquecidos fisica e espiritualmente.
Novamente são ressaltadas algumas características de sua personalidade: a bondade, a paciência, e o zelo especial com o ministério e a Igreja de Cristo.
A carta em que critica o opúsculo "A Cruz" de Philip Hughes, expondo seus erros é franca, e questiona incisivamente o método e estilo adotado pelo autor. Contudo, percebe-se que, antes de pura crítica, é uma exortação para que o amigo não se deixasse levar pela influência dos editores, e por impressões subjetivas, tirando assim a verdade da expiação de Cristo na cruz.
Há cartas em que se marcam e desmarcam encontros, fala-se de reuniões, palestras e conferências; sobre mudança de moradia, viagens, e a situação pastoral em Westminister, onde dividia o púlpito com o Rev. Campbell Morgan.
Tudo muito simples, e prazeiroso de se ler.

Jorge Fernandes disse...

Na 4a. parte, Lloyd-Jones escreve
à membresia de Westminister, como nas cartas anuais aos membros, e em especial, com alguns à cerca dos seus problemas e dificuldades do ministério (e o prazer de ser ministro também).
Na 5a. parte, aos familiares, especialmente à sua mãe e filha recém-casada, Elizabeth.
Mesmo tratando de assuntos familiares, não deixa de falar sobre o ministério, pregações, visitas a membros e cultos em outras igrejas, e o Evangelho de Cristo.
Há comentários sobre suas pregações (e como chegou ao entendimento de certas partes da Escritura) que são especialmente interessantes, e pontos de reflexão para o leitor.
Da mesma forma, na 6a. parte, o "doutor" se preocupa com os novos pregadores, crentes em geral, e novos-convertidos em particular, orientando-os e conduzindo-os ao crescimento no conhecimento de Deus.
Ele indica livros, debate temas de real interesse à Igreja, e na defesa da prática cristã entre os crentes.

Jorge Fernandes disse...

Duas coisas que estranhei entre os comentários do Dr. Lloyd-Jones:
1) Parece que ele defende um segundo batismo com o Espírito Santo aos crentes, o primeiro é o de conversão, o segundo é como se fosse uma experiência especial com o Espírito Santo, uma espécie de 'arrebatamento' do espírito, senão, vejamos suas palavras:
* Sobre Romanos 8.16: "... o texto se refere a um testemunho especial e direto do Espírito com o nosso espírito, não ao nosso espírito. É adicional ao espírito de adoção" (Pg.155).
* Sobre Efésios 3.14-21: "... de serem cheios do amor de Deus de tal maneira que, à semelhança de Moody, eles tiveram que pedir a Deus que os deixasse, para que os seus corpos não entrassem em colapso sob a glória. Por isso eu salientei o fato de que a primeira petição de Paulo foi que Deus nos 'concedesse' essa experiência. É dom de Deus" (Pg 156).

Não consigo entender biblicamente essa diferenciação da ação do Espírito Santo. O mesmo Espírito que converte o crente, levando-o ao arrependimento e a crer no sacrifício de Cristo na cruz como o meio de expiação, e como nosso Senhor e Salvador, é o mesmo que operará na vida a fim de santificá-la e transformá-la em conformidade com Filipenses 1.6.
Não ficou claro, mas parece que o Dr. Jones afirma a necessidade de uma segunda bênção, a fim do crente entrar na plenitude de Deus, como algo transcendente além da transcendência da conversão e do selo do Espírito Santo.

2) Ele insiste, não sei porquê, em colocar Charles Finney entre o rol daqueles homens que foram usados por Deus para o avivamento, como Wesley, Whitefield, Jonathan Edwards, Moody. Sinceramente, não entendi, e discordo totalmente da sua inclusão junto aqueles que foram instrumentos de Deus para o quebrantamento, arrependimento e conversão de muitos pecadores.

Jorge Fernandes disse...

Apesar do formalismo, o livro traz pensamentos e discussões interessantes sobre vários temas cristãos, o que, primeiramente, nos faz pensar a respeito deles.
O "doutor" se envolveu ativamente no movimento evangélico inglês e galês, lutando dia-a-dia por uma unidade cristã em oposição ao ecumenismo (ao qual o autor coloca como nitidamente humanista, liberal e inclusivo de igrejas apóstatas e que nada têm a ver com o cristianismo bíblico).
De certa forma, esta foi uma luta nos últimos anos de ministério em Westminister, a de que os cristãos verdadeiros lutassem contra a influência galopantes e letal do pseudocristianismo, ou do anticristianismo bíblico.
Isso fez com que se envolvesse em várias disputas teológicas, e atraisse a ira dos seus opositores, que muitas vezes, o difamavam na imprensa.
A parte 7 do livro trata exatamente dessa questão: a unidade evangélica e a ameaça crescente do ecumenismo, que expunha a olhos vistos a degradação progressiva da igreja cristã na Grã-Bretanha, e a influência cada vez maior dos céticos e liberais.
Quanto a tudo o que o Dr. Jones defendeu nessa seção do livro, apenas não sei até que ponto, a criação de concílios, uniões ou convenções teria respaldo bíblico. A meu ver, isso não tem ligação com comunhão. Os crentes devem comungar uns com os outros, no sentido de que é parte da igreja a comunhão entre os santos. Mas daí, a propor uma União, em que todas as igrejas ortodoxas fariam parte de um "movimento" institucional, vai uma diferença muito grande.
De qualquer forma, entendo a sua luta e o seu objetivo, ainda que não concorde com alguns dos seus métodos. A fidelidade a Deus e ao Seu Evangelho é o que faz de uma igreja local parte da Igreja, a Noiva de Cristo, e é isso que cada uma delas deve buscar: obediência à palavra de Deus.

Jorge Fernandes disse...

Basicamente, a parte 8 do livro se assemelha muito com a parte 7, onde estão presentes questões e debates sobre temas cristãos e controvérsias ligadas ao cientificismo para interpretação bíblica, o pentecostalismo (os quais Jones reprova) e o batismo do Espírito Santo como uma "segunda" experiência cristã, diferente da regeneração (a qual o "doutor" defende, e não entendi ainda muito bem a quê se refere).
Não há maiores explicações, mas uma nota de rodapé nos indica o comentário de Romanos 8.15-17 e o livros que o autor escreveu sobre os puritanos como fontes a se entender a sua interpretação sobre o assunto.
Fiquei sabendo que parte do tema é abordado também no segundo volume da sua trilogia sobre Deus: Deus o Espírito Santo.

Na parte 9, vemos o dr. Jones jubilado e aposentado de suas atividades como pastor principal de Westminister. Está incluída a sua carta de despedida aos membros da Capela, cartas a irmãs que perderam os conjuges, orientações sobre livros, comentários sobre publicações ao amigo e editor Iain Murray; a revelação de um encontro em 1946 (ou 48?) com Francis Schaeffer, uma crítica breve a Billy Graham ("Nunca patrocinei as campanhas de Graham, e fui o único evangélico de Londres a não fazê-lo"), e cartas de agradecimentos aos que oravam por sua saúde debilitada no fim da vida (o Dr. Jones foi acometido de um câncer de próstata, o qual, presumo, foi a causa de sua morte em 1981).
Para os que desejam conhecer um pouco mais da mente e da alma do Dr. Lloyd-Jones, indico o livro, o qual poderá servir também de elucidativo em algumas questões concernentes à fé cristã.
Porém, sobretudo, indico os comentários de Romanos (li dois volumes até agora), e sua trilogia Deus o Pai, Deus o Filho; Deus o Espírito Santo; e a Igreja e as últimas coisas. Todos publicados pela Editora Pes.
São ensinos da doutrina cristã em uma linguagem pastoral, devocional e doxológica, sem o pedantismo, o academicismo e a retórica de muitos teólogos, que complicam ao invés de explicar.