Após a leitura, classificarei os livros assim:
Péssimo [0] Ruim [*] Regular [**] Bom [***] Muito Bom [****] Excelente [*****]

Em Busca de Sentido - Um Psicólogo no Campo de Concentração [***]


     


Viktor E. Frankl
Editora Vozes
186 Páginas


"O fundador da logoterapia mostra nesta obra como foi a sua própria experiência em busca do sentido da vida num campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Apresenta também, numa segunda parte, os conceitos básicos da logoterapia"

8 comentários:

Jorge Fernandes Isah disse...

O livro que estou lendo é um ebook disponível no endereço http://temqueler.wordpress.com/

O livro, em formato físico, constitui-se de duas partes, a primeira, Frankl conta a sua experiência vivida em um campo de concentração nazista, e tem o cunho autobiográfico, ainda que não seja uma autobiografia no sentido explícito do termo. Na segunda parte, ele descreve em detalhes a sua terapia, chamada de logoterapia. Parece-me que, alheio as ideias de Freud e Adler [no sentido de rejeitá-las], Frankl cria no homem não como uma mera força impulsiva, cujo objetivo era o prazer, a satisfação instintiva, em que o homem é reduzido a um ser que busca apenas a satisfação dos seus instintos, Frankl parece crer no homem além do psicológico, um homem em que há a união do corpo, mente e espírito, e de sua união transcendental com o Criador.

O título do livro já nos dá uma boa ideia do que vamos encontrar lá: a busca por um sentido, um sentido na vida. E ele, ao passar pelas mais indescritíveis dores [não somente o próprio sofrimento, mas a perda da esposa, do pai e da mãe, além de conviver diariamente com o assassinato de colegas de prisão, e o suicídio de muitos outros, também], pode perceber que aqueles prisioneiros que "se entregavam", ou seja, desistiam de viver, fatalmente morriam, seja por complicações decorrentes do estado de quase inanição em que viviam [recebiam uma ração diária de um pedaço de pão e uma "sopa" aguada, enquanto eram submetidos a severos trabalhos braçais], seja por doenças desencadeadas pela queda da imunidade [o fator psicológico pesava muito para que este estado se agravasse], seja pela suicídio, ou pela fato de não querer fazer mais nada, e, portanto, não ser útil aos nazistas que o matavam.

Viktor percebeu que a fé e a esperança em um futuro é o mantenedor da vida, de forma que as chances de sobrevivência aumentavam muito quando o prisioneiro não "se entregava".

Um trecho que me chamou a atenção é:

Jorge Fernandes Isah disse...

[...]

"O que se faz necessário aqui é uma viravolta em toda a colocação da pergunta pelo sentido da vida. Precisamos aprender e também ensinar às pessoas em desespero que a rigor nunca e jamais importa o que nós ainda temos a esperar da vida, mas sim exclusivamente o que a vida espera de nós. Falando em termos filosóficos, se poderia dizer que se trata de fazer uma revolução copernicana. Não perguntamos mais pelo sentido da vida, mas nos experimentamos a nós mesmos como os indagados, como aqueles aos quais a vida dirige perguntas diariamente e a cada hora - perguntas que precisamos responder, dando a resposta adequada não através de elucubrações ou discursos, mas apenas através da ação, através da conduta correta. Em última análise, viver não significa outra coisa que arcar com a responsabilidade de responder adequadamente às perguntas da vida, pelo cumprimento das tarefas colocadas pela vida a cada indivíduo, pelo cumprimento da exigência do momento" [pg. 48]

Jorge Fernandes Isah disse...

E, ao meu ver, tudo isso que o Frankl diz pode ser resumido em um ponto: o homem vive em constante luta contra a dor, a culpa e a morte, e a solução somente pode estar no alívio espiritual, o qual somente é possível por Deus.

Ainda estou na página 52, próximo de chegar ao fim da primeira parte do livro [o ebook tem apenas a primeira parte, o testemunho da experiência de Viktor no campo de concentração nazista], mas a despeito de uma busca individual pelo sentido da vida, parece-me que Frankl remete o seu pensamento de que o homem somente encontrará o real sentido da vida, na sua relação com Deus.

Jorge Fernandes Isah disse...

Ao final da parte 1 [verifiquei somente agora que há a parte 2, que trata da logoterapia, a qual pensei que não fizesse parte do ebook], posso garantir que o livro do Viktor é uma leitura agradável [apesar do tema espinhoso e doloroso], especialmente porque ele não reveste a sua narrativa de uma autopiedade chorosa, que o faria ser visto como uma vítima, apesar de ele sê-la, de fato.

Certamente, por isso, o livro não é um lamento estéril, e o autor busca, ao mesmo tempo que luta pela sobrevivência, entender o comportamento dos seus algozes bem como dos companheiros de sofrimento. Ele aponta vários estados pelos quais os presos são acometidos, desde a perplexidade até a apatia e a entrega pura e simples à morte. É interessante como ele consegue extrair de toda essa experiência traumática frutos que possam auxiliá-lo no entendimento do sentido da vida, mas que também o ajudaram a manter-se vivo, a sobreviver.

Frankl é um humanista, no sentido mais estrito do termo, mas ele nos dá provas de que a verdade pode sair da boca de qualquer um, ainda que o homem sempre deseje ardorosamente a mentira. Até ela é alvo das análises do autor, assim como o sonho, o delírio... uma passagem deveras interessante é quando um dos seus colegas beliche, em meio a um pesadelo que o fazia ter estertores durante o sono, leva-o a cogitar acordá-lo daquele sofrimento, mas ao meditar um instante, Frankl se convence de que nada pode ser pior do que aquela realidade em que viviam nas mãos dos nazistas, e considerou melhor deixá-lo com o seu pesadelo.

Não concordo com muitas conclusões do autor, mas posso dizer que ele chegou a elas de uma forma muito mais intensa e real do que jamais eu poderia chegar, portanto, deixo-me render por seus argumentos, pois eu mesmo não poderia enfrentá-lo com os meus.

Agora é ir até a segunda parte, e ver como ele considerou a questão do ponto de vista psicológico, ainda que eu acredite que a psicologia, no muito, poderá nos dizer o problema, e vagamente a sua origem, mas nunca nos dará a cura para ele. O antídoto para tudo o que o homem enfrenta na vida, tem apenas sentido quando ele entende a sua relação com Deus, consigo mesmo e o próximo. E a solução está fora de qualquer padrão estabelecido pelo homem, pois encontra-se somente no Senhor, o doador de fato da vida.

Jorge Fernandes Isah disse...

Ainda alguns trechos do livro:
"De tudo isso podemos aprender que existem sobre a terra duas raças humanas e
realmente apenas essas duas: a "raça" das pessoas direitas e a das pessoas torpes.
Ambas as "raças" estão amplamente difundidas. Insinuam-se e infiltram-se em todos
os grupos; não há grupo constituído exclusivamente de pessoas direitas nem unicamente de pessoas torpes. Neste sentido não existe grupo de "raça pura", e
assim também havia uns e outros sujeitos decentes no corpo da guarda" [pg 53/54]

Após a libertação: "À noitinha, quando voltam a se reunir os companheiros em seu velho barracão, um chega para o outro e lhe pergunta às escondidas: "Diga-me uma coisa: você chegou a ficar contente hoje?" O outro responde: "Para ser franco, não!" E fica envergonhado, porque não sabe que com todos é assim. Literalmente desaprendemos o sentimento de alegria. Será necessário aprender de novo a alegrar-se." [pg 54/55]

"Principalmente no caso de pessoas com natureza mais primitiva, podia-se observar muitas delas, durante esta fase psicológica, que em sua atitude anímica continuavam vivendo sob a condição do poder e da violência, só que, uma vez libertos, agora pensavam ser a sua vez de usar o poder e a liberdade de forma arbitrária, desenfreada e irrefletida. Para essas pessoas primitivas, nada mudou a não ser o sinal, de negativo para positivo. Se antes eram objetos do poder, da
violência, da arbitrariedade e da injustiça, essas pessoas agora viravam sujeitos dentro das mesmas categorias. Ainda não se desprenderam daquilo por que
passaram. Manifestam isso em detalhes aparentemente sem importância. Por exemplo, um companheiro e eu caminhamos reto, cruzando os campos em direção à
prisão da qual há pouco fomos libertados; de repente nos vemos diante de uma lavoura recém germinando. Automaticamente quero desviar dela. Ele, entretanto, me
pega pelo braço e me impele reto em frente. Balbuciei algo de que não se deve pisar a brotadura. Aí ele se exalta. Com olhar ameaçador grita: "O quê? E o que fizeram
conosco? Liquidaram minha mulher e meu filho na câmara de gás - isto, para não falar do resto - e tu queres proibir que eu esmague uns talos de aveia?..." [pg 56]

Jorge Fernandes Isah disse...

"Somente aos poucos se consegue levar estas pessoas a reencontrar a verdade, tão trivial, de que ninguém tem o direito de praticar injustiça, nem mesmo aquele que
sofreu injustiça. Precisamos trabalhar no sentido de levar essas pessoas ao reencontro desta verdade, pois a inversão da mesma facilmente poderia trazer
conseqüências piores do que a perda de alguns milhares de grãos de aveia para um agricultor desconhecido" [pg 56]

Jorge Fernandes Isah disse...

Frankl foi o criador da Logoterapia. Na segunda parte do seu livro, ele descreve alguns elementos que nortearam a sua terapia, como surgiu e a partir da sua experiência no campo de concentração nazista, como se desenvolveu, aperfeiçoou-se.

A busca é pelo sentido da vida, de forma que a pessoa possa encontrar em si mesma, através de uma busca simples, e de respostas simples, o algo mais que a fará persistir e insistir em uma existência simples, o que não quer dizer descomplicatória. Os problemas existirão, em maior ou menor grau, na vida de qualquer pessoa, mas a capacidade está não em amenizá-los, ignorá-los, mas enfrentá-los, mesmo com muita dor e sofrimento. Com isso, o autor não quer dizer que haverá uma vitória definitiva sobre ele [há problemas que nos seguirão por toda a vida], mas quer dizer que o problema não nos vencerá, e, muitas vezes, servirá para o amadurecimento e o crescimento. Frankl apela para a experiência direta, e não uma mera mentalização intelectual do problema, de forma que ideia alguma poderá se sobrepor à realidade, e ela somente pode ser vivida, jamais idealizada.

Bem, como não tenho traquejo nenhum com a psicologia ou psicoterapia, meu parecer é de que há coisas corretas mas outras impossíveis em suas argumentações, especialmente porque, ao meu ver, o homem não pode resolver nem solucionar nada à parte de Deus em sua vida. E é nesse ponto que entram a moral e a ética cristãs, às quais Frankl parece se inspirar ou apreender, ainda que ele não seja um cristão, como o fomentador do caráter humano.

Temos um grande poder de criar complexidades, caos, e conturbações, mas quase sempre somos impotentes quanto à solução das mazelas que criamos, se abandonamos o sábio conselho de Deus. E, neste ponto, fica claro que há sim um sentido para a vida.

Francilangela disse...

Interessante. Buscamos sempre este sentido.

Francilangela Clarindo
Visite o nosso clube: http://clubnovosautores.blogspot.com