Após a leitura, classificarei os livros assim:
Péssimo [0] Ruim [*] Regular [**] Bom [***] Muito Bom [****] Excelente [*****]

Evangelho e Cultura [**]





Eric Voegelin
Ebookbrowse
46 Páginas

"Tradução levada a cabo num Seminário da Faculdade de Teologia, da Universidade Católica por Mendo Henriques eLuís Salvador, M.ª Eduarda Barata, Mário Jorge e Nuno Bettencourt . Eric Voegelin traduziu directamente do original grego as passagens bíblicas. Foram incluídas as notas de rodapé e acrescentadas em nota de rodapé as traduções de passagens do Novo Testamento da Bíblia de Jerusalém devido à sua acessibilidade e bom nível exegético"

5 comentários:

Jorge Fernandes Isah disse...

Voegelin me parece um escolástico, ao menos, do que sei sobre os escolásticos; além de universalista e ecumênico. De forma que a salvação e a obra realizada por Cristo na cruz não somente é possível a todos os homens [o que já é, em si mesmo e, do ponto de vista bíblico, antibíblico], mas já é certo para todos eles. Parece-me que até mesmo aquele homem que rejeita o Cristianismo, ignora a missão do Redentor, e dispensa qualquer relacionamento pessoal com ele, está abarcado numa espécie de remissão universal. Além, é claro, da cultura ser em si mesma uma forma de revelação divina, em estado bruto, lapidada pelo homem, e, portanto, capaz de lê-lo à redenção.

A discussão é entre cultura e evangelho, mas, ao menos inicialmente, o que se tem é uma abordagem evangelística, ainda que seja um evangelismo ao contrário.

Outro ponto que me desagradou foi a insistência em Voegelin de lançar dúvidas sobre alguns pontos historiográficos da Escritura. Como o de que Lucas supunha que determinada ação descrita em Atos dos Apóstolos levava-o a crer que fora o apóstolo Paulo o seu autor, quando Lucas não tem esse tipo de dúvida, já que ele afirma, com todas as letras, ser esse homem Paulo. E o problema está presente em toda a dissertação de Voegelin, as vezes mais, as vezes menos, implicando numa "incerteza" quanto aos fatos e personagens narrados. Mas se para ele não há dúvidas de que foi Lucas o autor de Atos, por que duvida que Lucas esteja certo de que foi Paulo o autor da ação? Se Lucas não demonstra ter dúvida, por que Voegelin a tem? Já que considera Lucas o autor do livro, e não põe dúvidas nisso?

Há muitas coisas que ele disse que me passaram desapercebidas, por pura ignorância. Mas parece-me que ele defende uma ideia escriturística presente muito antes dela vir a existir; de que doutrinas e conceitos sagrados estão atrelados à manifestação humana que precedeu as suas formulações. Como se não houvesse, de alguma forma, sobrenaturalidade na Bíblia e na doutrina, mas uma adequação religiosa a partir dos pensamentos filosóficos.

Não posso afirmar que Voegelin descreia completamente na sobrenaturalidade da Bíblia, da revelação especial, mas posso dizer que ele a coloca na berlinda.

Lerei mais, e ainda que eu possa chegar a uma conclusão deficiente [o autor remete a sua palestra a um mundo do qual não estou habituado e que somente agora começo a trilhar, o do pensamento clássico], Voegelin revela uma intrínseca e dependente relação entre a cultura do ponto de vista secular, mundano, ao surgimento do Judaísmo e do Cristianismo como nos é revelado pela Bíblia.

Mais à frente direi mais, se assim for necessário; mas esse ponto me parece por demais eivado pelo humanismo, ao qual Voegelin parece estar incluído, e também ao Iluminismo ou racionalismo, ao qual não me parece tanto envolvido [ainda que o Iluminismo seja essencialmente humanista].

Vamos aguardar...

Osmar Neves disse...

Ele, infelizmente, não era um fundamentalista, um cristão protestante conservador. Apoiava-se, esta é a minha impressão, em muitos dos escritos dos protestantes liberais do início do século passado. E isso, parece-me, permeia muito da sua obra. É uma pena ele não ter conhecido as muitas pesquisas realizadas a partir da década de 60 do século passado que vieram confirmar as teses dos cristãos conservadores. Pesquisas nas áreas da arqueologia, da história, do estudo dos manuscritos antigos. Uma contribuição que considero digno de nota dos apologistas calvinistas da tradição holandesa é a análise dos pressupostos e acho que faltou isso a ele, embora ele estivesse revisando constantemente algumas de suas ideias mas não alguns de seus pressupostos "naturalistas" por assim dizer. Voegelin e muitos outros parecem não se dar conta da extensão da Queda, de como ela afetou toda a realidade, incluindo nossa capacidade cognitiva e de como ela fez surgir em nós uma rebelião para com a verdade do Deus Vivo. Não basta às pessoas terem uma inclinação para o sagrado, o transcendente, é imperativo que elas conheçam o Evangelho da salvação de Nosso Senhor Jesus Cristo e o recebam como Senhor e Salvador. Voegelin percebia que havia algo de errado com as pessoas mas não aceitava integralmente e em espírito de humildade a Revelação Bíblica como resposta ao problema da humanidade. Parecia não ser suficientemente acadêmico para ele, bem diferente do Francis Schaeffer. Para Schaeffer o cristianismo bíblico é a verdade, a verdadeira Verdade sobre tudo. Bem, essa é a minha impressão.

Jorge Fernandes Isah disse...

Osmar,

bom tê-lo por aqui novamente.

Concordo com o que você disse, apesar de não saber se Voegelin "bebia" nas fontes liberais do protestantismo. O certo é que, como você pontuou, faltava-lhe a fé sobrenatural, aquela que somente Deus pode dar ao homem para que ele creia, sobrenaturalmente.

Creio que Voegelin era um acadêmico na estrita definição do termo, um homem que olhava o mundo com um rigor acadêmico, contudo, insuficiente para revelar toda a verdade.

Gosto muito do que ele escreveu, especialmente sobre política e história. Ele é um homem reflexivo e bastante bem intencionado, mas como diria a minha avó, de boas intenções o inferno está cheio!

O que há em Voegelin, em relação ao Evangelho, é descrença mesmo; e limitá-lo a uma mera consequência cultural/social, como uma necessidade em um processo evolutivo do pensamento humano. Nada além disso.

Por isso, talvez, ele não dê a devida atenção à Queda, como você diz, e, portanto, não dá a devida atenção à Redenção que Cristo veio realizar. Uma coisa anula a outra, ao meu ver, no pensamento do Eric.

Ainda estou para ler a sua "Ordem e História", o que acontecerá futuramente se Deus quiser.

Quanto a Schaeffer, ele foi, primeiramente, fundamentalista, calvinista e depois... bem, parece ter rejeitado boa parte do Calvinismo, mas manteve-se fiel à tradição cristã, tanto quanto à Queda como quanto à Redenção. Mas Voegelin nunca foi bíblico, nem parece ter se importado em ser, ainda que tenha baseado sua obra na tradição judaico-cristã, talvez mais preocupado com o seu elemento histórico-cultural, ainda que fosse impossível não abordar a questão religiosa.

É um autor que deve ser lido, de grande cultura, mas sem se esconder seus eventuais erros.

Grande abraço!

Cristo o abençoe!

Osmar Neves disse...

Até quinta-feira darei alguns expedientes por aqui, hehehe, estou de folga e em casa aqui em Goiás.

Sobre as fontes liberais do Voegelin, li algo sobre isso no blog da Norma Braga mas também careço de outras fontes comprobatórias, entretanto isso parece ser visível em alguns de seus escritos. Iniciei a leitura de "A Revolução Voegeliniana" do Ellis Sandoz mas parei justamente no comentário do Sandoz sobre a crítica de um padre a essa descrença do Voegelin na intervenção sobrenatural de Deus na história. Sandoz parece ter ficado contente por que Voegelin tanto era criticado por esquerdistas quanto por conservadores, como o padre, e isso parecia demonstrar a ele a isenção do Voegelin, hehehe. Mas o livro é bom, até onde li, um pouco denso e por isso é que parei. Quando estiver mais gabaritado retomo a leitura.

Concordo contigo em quase tudo o que escreveu (preciso saber mais do distanciamento do Schaeffer do calvinismo, hehehe. Talvez você tenha em mente a experiência do Bob Wright no L'Abri relatada em "A Soberania Banida". Talvez o Schaeffer não tenha sido coerente aqui, como boa parte dos calvinistas, hehehe). Quero ler "Hitler e os Alemães", está na lista, mas antes devo ler outros livros, inclusive sobre a própria Alemanha da época para me contextualizar. E "Ordem e História" só futuramente, se Deus quiser. Adquiri num sebo em Brasília o livro "A Nova Ciência da Política", publicado na época em que a UnB permitia a diversidade de ideias, ou seja, na época da Ditadura, hahaha. Jorge, parece ser um livro fantástico! Já ouvi o Olavo criticar a tradução e é por isso que fico importunando o pessoal da É Realizações para publicarem uma nova edição do livro. Mas antes dele devo, preciso ler, "A Ameaça Pagã" e "Falsa Identidade" do Peter Jones para conhecer melhor o gnosticismo e então ter uma melhor base para entender as ideias do Voegelin. O curioso é que uma das fontes e inspiração do atual movimento globalista parece ser o gnosticismo e o Voegelin já demonstrou que fazer isso não termina bem...

Jorge Fernandes Isah disse...

Rapaz, dê expedientes sempre... Afinal, tu ês um dos colaboradores do blog...

Tenho um livro de comentários de Romanos 1-8 em que o Schaeffer, ao final, parece um arminiano falando. Isso não o desmerece em relação à sua apologêtica, a defesa da fé, mas certamente ele arrefeceu doutrinariamente, talvez por conviver no L'Abri com uma maciça gama de incrédulos, cristãos liberais, e arminianos, ele "tirou o pé do acelerador" e partiu para um discurso mais, digamos, conciliador.

Há, como você disse, o testemunho do Wright também. De certa forma, penso que não é conveniente nem corajoso abrandar a mensagem do Evangelho para "facilitar" a sua aceitação. Sabemos que Cristo, em momento algum, atenuou a sua palavra, ou procurou contextualizá-la, de forma a ser "absorvida" pela cultura judaica. Pelo contrário, ele condenou a tradição e a cultura judaica que se contrapunha ao Evangelho [não no todo, mas em muitos pontos]. Da mesma forma, os apóstolos não amenizaram a mensagem a fim de adequá-la aos princípios culturais ou tradicionais dos gentios.

Hoje, infelizmente, há um movimento na igreja cristã de contextualização do Evangelho, de forma que ele tem de se adaptar e adequar aos padrões culturais do nosso tempo, quando o contrário é que é certo, e é nele que devemos investir: trazer a cultura do mundo para a luz, tirando-a das trevas. Nesse aspecto, Schaeffer me pareceu, em princípio, acertar. Não sei como se saiu no ponto de vista prático, efetivo; se não houve, foi um erro, e, penso, boa parte do que temos hoje em termos de contextualização [na verdade, a igreja se parecendo com o mundo] foi culpa dessa necessidade de aceitação e validação do Cristianismo pelo mundanismo.

NO caso do livro do Voegelin que você citou, deve ser o mesmo caso da tradução do Emir Sader do livro do bensaçon, que já li e comentei por aqui: fraude intelectual do tradutor!

Bem, fica na paz!

Abração!